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“Apenas 5% das capas tiveram mulheres negras”, afirma autora de livro sobre revistas femininas

Gabrielle Bittelbrun, de Florianópolis, escreveu o livro Cores e Contornos: Questões de Gênero e Raça em Revistas Femininas do Século 21

Por Carol Passos Do Revista Versar

Foto: Alexandre Lenzi/Divulgação

Quem são as personagens que aparecem nas capas de revistas? Essa pergunta guiou a pesquisa da jornalista Gabrielle Bittelbrun, de Florianópolis, que originou o livro Cores e Contornos: Questões de Gênero e Raça em Revistas Femininas do Século 21.

Lançado neste mês, o título problematiza a falta de diversidade nas capas de algumas das principais publicações femininas do país. A quase ausência de negras e a forma como as mulheres são representadas intrigaram a autora que, assim como muitas, cresceu ouvindo e lendo um discurso sobre padrões que hoje questiona.

— O livro concentra esforços para a problematização de padrões e atribuições relacionados às mulheres que atravessam os séculos e vêm sendo constantemente reatualizados nas plataformas midiáticas mais atuais — afirma a autora.

Gabrielle é mestre em Jornalismo e doutora em Literatura pela Universidade Federal de Santa Catarina. Há mais de 10 anos pesquisa sobre questões de gênero nos meios de comunicação. O livro é resultado da tese de doutorado da linha de pesquisa Crítica Feminista e Estudos de Gênero da Pós-Graduação em Literatura da UFSC.

Confira a entrevista com a jornalista:

Quais foram as conclusões do seu levantamento a respeito da representatividade de mulheres brancas e negras nas revistas?

Sempre temos a impressão de que as mulheres brancas são mais frequentes nas publicações. Mas a intenção da pesquisa, que deu origem ao livro, foi dar uma dimensão disso. No levantamento, consideramos as capas das revistas femininas brasileiras impressas Claudia e TPM, referenciais no mercado brasileiro, entre 2004 e 2014. Em Claudia, as mulheres brancas com traços caucasianos predominantes ocuparam 81% das primeiras páginas. Em 14% das capas, o destaque foi conferido àquelas personalidades que, embora apresentem traços de outras etnias, podem ser igualmente consideradas brancas, como Ivete Sangalo, Luiza Brunet.

Apenas 5% das capas contaram com mulheres negras. Precisamos destacar ainda que as únicas mulheres negras que aparecem nas capas de Claudia em 11 anos foram Camila Pitanga e Taís Araújo, que apareceram algumas vezes, e Débora Nascimento, que esteve em uma capa. Elas foram as únicas mulheres negras! A revista chegou a passar quase dois anos só repetindo brancas nas capas. Ainda que se possa argumentar que há menos mulheres negras entre as celebridades conhecidas nacionalmente, é fato: há uma evidente supremacia branca na revista ao longo do século 21. Para dar uma ideia, as líderes em capas do veículo da Abril, em todo esse intervalo de tempo, foram a atriz Grazi Massafera e a apresentadora Angélica, seguidas pela modelo Gisele Bündchen. É reforçado continuamente um padrão eurocêntrico que não corresponde à população brasileira, composta em 53% por pessoas negras.

Em TPM, em aproximadamente 9% há personalidades negras e o time de pessoas negras foi mais variado, com personalidades como Thalma de Freitas e a jogadora Marta, além de Taís Araújo, Gaby Amarantos, etc. As personagens de capa que se autoidentificam ou são identificadas brancas, enfim, que ainda são prioritariamente associadas a um hall de branquidade, embora tenham traços de outras etnias, como Bruna Marquezine e Juliana Paes, representaram cerca de 13% das primeiras páginas. Já aquelas notadamente brancas, como Angélica, Renata Vasconcelos, Grazi Massafera, representaram, no mínimo, 72% das capas (em outros 5% de capa, TPM usa ilustrações). Ou seja, embora o cenário de diversidade seja um pouco melhor, também no veículo da Editora Trip se mantém a discrepância entre a população brasileira, em sua composição racial, e o que é representado nas capas. As revistas femininas contribuíram para invisibilizar na mídia um grupo que é maioria no país.

De que forma elas aparecem nas publicações? Há diferença com relação às raças?

De um modo geral, houve diferença, sim. As mulheres negras foram associadas, com frequência, à sensualidade e à brasilidade, em uma reatualização do estereótipo da mulher negra como ícone erótico e na transmissão da ideia de um país sem discriminações.

Esses pressupostos, na verdade, só contribuíram para minimizar, no nível dos discursos, o impacto de violências sofridas por essas mulheres e para a manutenção das desigualdades ao longo da história do país. Além disso, nos poucos momentos em que as mulheres negras aparecem, os preconceitos que as atingem foram via frequente de legitimação para que ocupassem as páginas.

Ou seja, é como se elas só pudessem estar nas páginas para falar dos preconceitos que sofrem, enquanto todas as outras abordagens, de comportamento, viagens, bem-estar, seriam ilustradas por mulheres brancas.

Além disso, há todo um ideal de branquidade reiterado pelos veículos, não apenas pela repetição das mulheres brancas, a quem se reserva essa multiplicidade de enfoques e abordagens, como também pela própria invisibilização das mulheres negras, como sujeitos, e dos traços corporais de negritude, o que notamos especialmente pela ausência do cabelo afro nas capas de Claudia, por exemplo.

Na revista da Abril, no período analisado, a atriz Taís Araújo aparece com os cabelos com baby liss, com os cabelos praticamente raspados ou com o rosto em zoom mas, na prática, nunca se vê o cabelo natural afro da atriz, ou de qualquer outra personalidade negra, no espaço de capa. O cabelo é um importante traço de identidade. A invisibilização e a inferiorização das pessoas negras nos espaços midiáticos, que vai influenciar também na própria imagem que elas têm de si mesmas, passa também por essas formas de esconder ou “camuflar” seus traços corporais.

Qual é o impacto da falta de representatividade em veículos de imprensa?

Precisamos entender que o espaço da mídia é um espaço de destaque, de privilégio. Privar um grupo desses lugares é uma maneira de invisibilizá-lo, de privá-lo de um campo de visibilidade e de reconhecimento. Claro que também é necessário questionarmos que tipo de visibilidade que está sendo conferida, o reforço aos estereótipos em nada contribui nesse sentido.

Precisamos lembrar o valor dos meios de comunicação para a mudança de aspectos sociais em prol de mais igualdade e direitos humanos, e isso passa pela visibilidade e reconhecimento a grupos que são alvo de discriminações e desigualdades sociais no país. Conferir destaque e colocar em um lugar de referencial de vida e de beleza a uma personalidade negra é um passo para que ela possa ocupar outros espaços sociais privilegiados.

Além disso, se reconhecer na revista tem todo um impacto na própria formação identitária do público. Uma revista como a Claudia tem todo um aparato imagético e discursivo para a promoção de identificação por parte da leitora com a celebridade.

Mas como se colocar no lugar da Grazi Massafera da capa e da matéria sem se comparar com ela? Se ela é apontada como referencial constante de beleza, haveria como amar o próprio corpo tendo um corpo totalmente diferente daquele da atriz? Ou deveria se projetar em Grazi mesmo sendo totalmente diferente, em cor de pele, estilo de corpo, idade, em um processo esquizofrênico? Mesmo TPM que sempre se propôs como diferenciada não de mostrou tão igualitária nesse sentido. Enfim,

são mecanismos que podem gerar não apenas a frustração como até a negação de si mesma, pela incompatibilidade entre o que é apontado como modelo e a realidade, especialmente em termos de aparência.

Você comenta no seu livro que, como leitora, há alguns anos não enxergava com clareza a falta de negras nas capas de revistas. Acredita que as leitoras também não percebiam ou já estava surgindo uma consciência entre elas?

É muito difícil, para quem ocupa um lugar de privilégio, fazer esse exercício de deslocamento. Como uma leitora de revistas femininas, eu me sentia frustrada por não corresponder ao padrão corporal daquilo que eu via.

Mas eu sou uma leitora (bem) branca, então, demorei para perceber que, se para mim, a repetição dos corpos magérrimos era impositiva e autoritária e não correspondia à realidade que eu conseguia alcançar, isso seria ainda mais impactante para uma leitora negra, por exemplo, que nunca sequer pode ver em revistas um cabelo afro natural como referencial de beleza.

Acredito que essas discussões feministas que estão emergindo de diversas maneiras vêm contribuindo para uma conscientização maior, sim. Acredito que as mulheres de um modo geral começaram a recusar mais as imposições e mesmo as exclusões que são propostas sempre nas páginas e nas telas.

E acho que tem havido mais esse deslocamento e esse questionamento de como, como pessoas brancas, viemos contribuindo para a manutenção de tantas opressões. Mas, ainda assim, há tanto, tanto a ser feito. E, quando achamos que estamos caminhando, de repente, do nada, vem uma capa de revista ou uma novela ou mesmo uma ação política que escancara na nossa cara, de novo, um monte de retrocessos e exclusões de tantos grupos que compõem a sociedade.

O que mais te incomodou durante processo de pesquisa?

Pesquiso sobre questões de gênero desde 2006, 2007. E uma coisa que sempre me incomoda é que mesmo com tudo o que pesquisei, não consigo passar imune ao que vejo nas revistas, às dicas para emagrecer que leio aqui e ali.

Dá uma certa sensação de fracasso perceber que, nem com tudo o que pensei e li a respeito, não consegui desenvolver nenhum mecanismo infalível que faça eu esquecer totalmente palavras como calorias, gordura. Parece que sempre vão acionar um alerta no meu cérebro e isso é muito triste. Me incomoda também que nunca vou conseguir saber qual foi o impacto do que eu li e assisti na mídia nesse processo.

Então eu tento debater essas questões na esperança de que outras pessoas, especialmente outras meninas, fiquem realmente livres desse automonitoramento constante. Além disso, nos últimos anos, como comentei no livro, eu me descobri branca mesmo. Como estou em uma sociedade que privilegia pessoas brancas, nunca precisei parar para pensar nisso.

No fim das contas, socialmente, meu lugar de privilégio por ser branca se fundamenta sobre discriminações a outras pessoas. Tem uma autora, Edith Piza, que explica que se descobrir racializada é bater contra uma porta de vidro aparentemente inexistente.

Depois do impacto forte, vem o susto e a surpresa de não ter percebido a fechadura e o contorno da porta. Então, basicamente, espero trabalhar para que outras pessoas brancas também esbarrem nessa porta. Acho que o trabalho para desfazer hierarquizações e discriminações na sociedade é contínuo, e precisa ser coletivo.

Como as revistas tratam as questões de gênero?

Depende muito do título que se considera. Os discursos não são sempre estáticos. Mas, de um modo geral, enquanto essa mulher que aparece em Claudia, como um veículo mais tradicional, foi, em grande parte do século 21, apontada como aquela que ainda se interessa por conquistar e manter o parceiro, por se dedicar aos filhos e ao marido e por seguir um plano de emagrecimento, aquela de TPM foi a “não-mulherzinha”, que aceita e expõe um corpo com “gordurinhas localizadas” – embora ainda magro, ou seja, a revista TPM também excluiu frequentemente os corpos gordos das páginas – e que procura sexo sem compromisso – embora ainda muito mais homens, em um reforço da heterossexualidade.

Já a revista online AzMina vem destacando apenas mulheres comuns, fora do eixo midiático, a partir de vários lugares de fala, conferindo representatividade a grupos até então invisibilizados e expondo outros contornos corporais, que não tinham tido espaço.

A revista também chega a conferir destaque a outras formas de existência, que escapam da heterossexualidade, inclusive. Assim, há esforços para colocar à prova as representações mais tradicionais de mulher e as proposições estéticas relacionadas ao corpo feminino.

Os padrões estão sendo mesmo desconstruídos?

Do mesmo modo que se fala em mulheres que optam por não desempenhar os tradicionais papéis de mãe ou por adotar uma postura mais liberada no quesito sexualidade, confirmando as hipóteses de um afrouxamento das normas tradicionais nos discursos deste século 21, isso não se dá sem uma certa depreciação dessas mulheres ou pela representação de maneira desigual em relação àquelas que seguem as posturas mais convencionais.

Além disso, as construções textuais que se referem ao cuidado do outro, no caso, do parceiro ou da família, não desaparecem por completo das revistas em papel.

Além disso, à medida que o que é trazido pelos meios está conectado a conjunturas sociais, não há como ignorar que as reivindicações em prol dos direitos das mulheres, de um modo geral, ou pela maior visibilidade das mulheres negras, das mulheres gordas, das mulheres lésbicas ou das mulheres trans, têm alguma ressonância nos veículos de comunicação.

Tem havido ações que podem abalar as lógicas hegemônicas e o próprio surgimento de AzMinaé um indicativo disso.

No fim das contas, os padrões vêm sendo colocados em xeque sempre mas muitos ainda permanecem e, ao mesmo tempo, outros são criados, fazendo emergir novas obrigações.

SERVIÇO

Cores e contornos: gênero e raça em revistas femininas do século 21

Autoria: Gabrielle Bittelbrun
Editora: Insular
Preço: R$ 59

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