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Sobre colorismo, privilégios e identidade racial

Durante a maior parte da minha vida eu me senti confortável com a denominação de “morena”. Filha de mãe branca e pai negro, me definir como uma mistura que transita no espectro racial sempre me pareceu a opção mais viável. E mais do que isso, a mais apaziguadora, por assim dizer. Negra, eu? Jamais. Até sardas no rosto eu tenho, ué. Boca fina, corpo nada curvilíneo. Morena parecia ser o termo certo pra mim.

por Letícia Castor Moura de Sousa para o Portal Geledés

Imagem- PASHA GRAY – Napy

Até fazia mais sentido, se parássemos para pensar. Tive privilégios socioeconômicos desde sempre, estudei em ótimas escolas particulares e tive acesso a espaços cujo tratamento raramente seria direcionado a uma pessoa negra. Pelo menos negra de verdade, sabe?Pele escura, nariz largo, gengiva protuberante, os traços estereotipados a imagem que temos no imaginário social.

Mas, não posso negar que, com o passar dos anos e o ganho de maturidade, eu notava sim, uma diferença. Por mais morena, parda, meio termo, café com leite, mulata e todas as outras pseudo classificações em que eu tentasse me encaixar, eu não me sentia igual ao resto. E por que? Porque eu não era interpretada da mesma forma.

Por mais incluída que eu estivesse em determinado espaço, eu não sentia a mesma autoconfiança que as minhas amigas da pré-escola e do Ensino Fundamental sentiam. Para eu me sentir bem comigo mesma, ainda que na mais tenra idade, era um esforço homérico. Eram horas em salões de cabeleireiro tendo o couro puxado e queimado com mil parafernálias diferentes, com os olhos ardendo e garganta fechando por conta dos produtos químicos aplicados em uma menina de seis anos que mal sabia o que estava fazendo lá dentro. Mal sabia mas quando saia, era só felicidade. Jogava o cabelo liso para lá e para cá como uma vitória e temia o dia de ter que lavá-lo e retornar a realidade.

A realidade do cabelo duro, bombril, pixaim, de empregada, como eles diziam. A realidade que me fazia morrer de vergonha de ir pra escola e suportar toda aquela dor nos salões com um sentimento de gratidão apenas por pensar no quão satisfatório seria o resultado.

Eu, filha de pai negro e mãe branca, já tive minha própria origem questionada. Mãe branca de olho claro, irmão, a mesma coisa. Na cabeça deles, claro que eu só podia ter vindo de outro lugar.

Dito isso, eu penso: seráque as minhas colegas de classe daquela época já se sentiram assim?

Foi o que eu pensei.

A questão aqui não é que pessoas brancas estejam isentas da opressão de padrões estéticos. Mas é preciso que entendamos que até mesmo este universo é subdivido. Que determinados tipos de exigências são exclusivos a dados grupos de pessoas. E que se engana quem acha que o racismo só age diretamente naquela imagem pronta que já temos do que é ser negro no Brasil: a caricatura bestial do homem e a glamourização de uma sensualidade inerte – que na realidade, é inexistente – de toda e qualquer mulher de pele mais escura.

Mas porque eu digo isso?

Por que, por sempre ter lido a mim mesma como morena, eu me julgava isenta de todos os julgamentos e diferenciações advindos do racismo. Racismo mesmo, sabe? Aquele que a gente aprende na escola, o negro sendo açoitado e privado do ensino de qualidade, de frequentar espaços públicos. Eu, filha de juiz, sempre tão bem vista em todo local que me apresentava, jamais poderia estar sujeita a essas coisas, não é mesmo?

Mas no fundo, eu sabia que não era bem por ai. Eu sofria racismo quando, na escola, era sempre a menina feia e esquisita sem nem saber o porquê. Quando tinha que me esforçar duas vezes mais para me sentir bonita, para tentar parecer com a maioria das meninas da classe, quando eu, ainda pequena usava as maquiagens da minha mãe para tentar ao máximo disfarçar a cor natural da minha pele e embranquecer o meu semblante.

Eu sofria racismo quando, ao me relacionar com homens brancos que me liam como morena e mulata, me diziam em tom de chacota que “estava no meu sangue” saber fazer direito, que eles gostavam de mim porque eu era da cor do pecado. Logo eu, a garota mais tímida e desajeitada que já se viu. Claro que ouvia isso e me sentia nas nuvens, afinal, eu não era negra. Eu era aquele meio termo aceitável que satisfaz o desejo mas não cutuca a ferida do racismo velado. Eu era boa para pegar mas não para apresentar aos pais. Ora, se eu fosse a negra, negra retinta, a negra temida e evitada pelos seus grupos, eles nem chegariam perto, afinal, segundo eles, é só uma questão de gosto, nada pessoal.

Fora que, ao perceber essa diferenciação com o passar do tempo e ousar tentar uma nova denominação que realmente me desse uma identidade, eu mal terminava a frase e já era metralhada por uma avalanche de “que negra o que, você é morena, olha como a sua pele é clara!”. Não contestava, mas estranhava o fato de que apenas pessoas indiscutivelmente brancas falavam isso para mim, como que em uma tentativa de amenizar a gravidade do que eu acabara de dizer. Pessoas que, por mais que não tivessem más intenções, não sabiam o que era metade de todos os processos de distinção que eu havia experienciado.

A “morena” que eles tanto amavam falar era, basicamente, a negra aceitável. É a imagem de que não, não passamos mais por um processo de exclusão racial sistêmica mas calma lá que não é bagunça.

Deixa a negra entrar mas, primeiro, checa a largura do nariz, a grossura dos lábios, o tom da pele. A morena é a figura negra que, devido à pacífica miscigenação do nosso país, se parece mais com a figura dominante tanto estética quanto intelectualmente. Ela é o resultado de uma tentativa de embranquecimento fracassada que persiste em carregar seus traços, herança e sua origem através de sua própria existência.

Ela é excluída e privilegiada ao mesmo tempo. Mas como pode isso?

É ai que entra o colorismo – ou pigmentocracia – para justificar ao menos um pouco desta dinâmica.

O que é colorismo?

 Para evitar a fadiga, vamos à definição mais apropriada do termo; o colorismo, termo cunhado na década de oitenta pela escritora e ativista Alice Walker, abre uma discussão sobre a quantidade de privilégios atribuídos a uma pessoa negra cuja tonalidade de pele é mais clara em relação ao preto retinto. Simples, não?

Mas, porque então esse termo ainda enfrenta tamanha resistência no território brasileiro? Talvez por que aqui a leitura de raça seja estruturada em pilares diferentes dos que sustentavam a realidade de Alice.

A regra da gota

Bebendo – bastante – da fonte de diversos criadores de conteúdo excepcionais da web, tais como Soul Vaidosa, Nataly Neri e Spartakus Santiago, introduzo aqui um conceito de diferenciação dos processos de interpretação racial. Alice Walker cunhou a definição de colorismo ao nascer e viver em um país, os Estados Unidos, em que uma única gota de sangue africano já  automaticamente rotulava alguém como negro, o que nos remete à busca por uma raça pura, tão velada quanto o tal do racismo inexistente hoje em dia.

Já aqui no Brasil, a situação é diferente. Tivemos imigrações de diversos povos e etnias, o que torna simplesmente impossível categorizar uma pessoa como negra ou branca apenas por uma parcela de seu DNA ou por algum ancestral perdido em sua linhagem.

Aqui, o que define como um indivíduo será socialmente compreendido são os seus traços, sua pele, seu corpo e seu cabelo. Então, diferentemente dos Estados Unidos, a nossa leitura racial é baseada no fenótipo, ou seja, a manifestação visível e detectável de um traço genético. Enquanto nos Estados Unidos, o genótipo é o que ditará a sua categorização racial: um descendente, uma gota de sangue de um passado escravo –  eles já têm um nome para você.

Isso quer dizer que, em território brasileiro, esta nomenclatura de raça é muito mais confusa. Lábios carnudos e pele clara me fazem o que? Ou, pele mais escura de traços finos? Como se encontrar em um cenário tão arbitrário quanto o nosso?

Pois é.

Esta é a maior questão que assola a identidade de um povo que não é negro retinto mas, com toda a certeza, também não é o caucasiano inquestionável. Mas este ponto eu irei explorar um pouco mais adiante. Agora, falemos sobre privilégios.

Um negro de pele clara recebe sim tratamentos diferenciados. Tem uma voz mais ativa, uma chance de inserção nos grupos mais restritos da sociedade e, principalmente na questão estética, são absurdamente beneficiados. Eles são literalmente a junção dos traços brancos à pele da cor do pecado que é tão almejada. Que combinação perfeita, não?

Justamente por estar mais próximo ao padrão estético imposto socialmente, um negro de pele clara irá desfrutar de um universo de coisas que o negro de pele escura não terá acesso. Ou ao menos, não de primeira. Ele terá que lutar duas, três, dez vezes mais para chegar lá. Já o negro de pele clara, bom, ele nasce com meio caminho andado.

Ele ganha salários maiores, ele tem mais oportunidades, ele tem mais chances de usufruir de benefícios socioeconômicos designados aos brancos mas que, dado o momento, eles podem abrir uma brecha e deixar uma pessoa de fora entrar e fazer parte. Fazer parte assim, daquele jeito.Você não é um de nós mas o aceitamos, sabe?E claro, temos que acenar a cabeça em sinal de gratidão por tamanha benevolência.

Ironias à parte, a verdade é uma só: em relação ao negro de pele escura, o negro de pele clara é amplamente beneficiado. Estereótipos grosseiros e animalescos não são atribuídos à sua figura e, de modo geral, ele sempre estará um passo à frente na esfera social. E porquê? Por que ele nos remete mais à figura do branco. Mas é exatamente este ponto que também traz o seu quêproblemático na questão.

Da semelhança à invisibilidade

Por se parecer mais com o branco, especialmente em um país tão carente de definições precisas do que é ou não é ser membro de determinada etnia, o negro de pele clara frequentemente passa por um processo de deslocamento desde o nascimento. Como exemplifiquei em meus relatos acima, podemos ouvir e aturar atitudes racistas, mas não somos socialmente negros o suficiente para delatá-las.

A mulher negra em especial é a que mais vive esta experiência. Ela é a mulata, a morena de exportação. É vista como bela por apresentar traços que nos remetem a mulher branca mas a sua pele mais escura a condena para sempre: exótica, este é o seu adjetivo final e determinante. Sensual pela parcela de negritude mas aceitável pela parcela branca que age como seu cartão de visita. E chamá-la de morena só torna isso mais e mais real.

Chamá-la de morena, parda ou mulata, termo cuja origem embrulha o estômago de qualquer pessoa com o mínimo de bagagem sobre a história do nosso país, apenas invalida suas experiências com o racismo e tenta apaziguá-las ao dar um tapa nas costas e dizer que somos todos iguais. Chamar tanto ela quanto ele, o homem negro de pele clara de “moreno” só torna a ideia de uma identidade historicamente representativa ainda mais distante do que já é.

É preciso então entender que o embranquecimento no Brasil não é uma prática que ficou esquecida no século XX, quando intelectuais da época preenchiam páginas e mais páginas sobre a superioridade biológica do homem branco, ou quando políticas públicas eram feitas para atrair imigrantes europeus e concedê-los terras a preço de banana em nosso chão para que a sua reprodução resultasse em uma raça pura, digamos, hoje, meados de 2018. Nada disso parou por ai. Assim como o racismo se esgueira pelos menores atos e falas do nosso dia a dia, do mesmo modo age o embranquecimento racial.

Ele joga vivências dolorosas debaixo do tapete, ele cria nomes e nomes para uma categorização simplesmente inexistente. Ele pisa e esmigalha a própria definição de etnia, a qual é pautada pelo conjunto de bagagens socioculturais para a criação de nomenclaturas de identidade. Ele esquece o seu, o meu, o nosso passado e ignora o nosso presente para que nossos símbolos de resistência sejam encaixotados e categorizados como mais um ícone de uma cultura que não é nossa. Ele cria um nome simplesmente do nada e nos diz que é belo e que estamos livres para criar a sua história.

Mas eles também esquecem que história é orgulho, é marca de guerra, é cicatriz de dor. Dor da própria mestiçagem do qual o país tanto fala que todos, de repente, parece ter resolvido esquecer a verdadeira origem.

Nos negam a identidade e nos consolam com artifícios que, supostamente, deveriam nos lisonjear. Afinal, é mais fácil controlar e, aos poucos, exterminar um povo que não se denomina, se identifica, não se une, não é mesmo? Se o preto acha que é pardo, ele vai tomar o nosso lado graças à falsa conveniência que temos o mostrado a vida toda.

Se o preto acha que é pardo, nós cuidamos do preto retinto e, com o negro embranquecido, nós lidamos depois. Nós continuamos a dizer que fazem parte do nosso grupo mas nunca os deixamos esquecer quem eles são. Os mestiços, os mulatos, as crias de cruzamentos do animal de carga com o homem preto. Enquanto eles acharem que isso é elogio, não teremos nada com o que nos preocupar.

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