Após alta na letalidade em SP, PM ‘assassina’ o português na escola

06/02/26

Um policial militar reformado que atua como monitor de uma escola cívico-militar em Caçapava (SP) escreveu “descançar” e “continêcia” na lousa durante uma aula inaugural. A cena, gravada pela TV Vanguarda, filiada à Globo, viralizou feito rastilho de pólvora.

O governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) é um dos principais entusiastas do ensino desse tipo de escola. Do outro lado, há anos educadores e pesquisadores da área vêm criticando esse modelo, alertando que trazer pessoas despreparadas para a sala de aula iria rebaixar a qualidade. Não era uma aula de matemática, mas é cabível o CQD (como queríamos demonstrar). Certamente, os pais vão conseguir “descançar” em paz.

PM monitor de escola cívico-militar em Caçapava (SP) escreve ‘descançar’ e ‘continêcia’Imagem: Reprodução/TV Vanguarda

Claro que já surgiram homens e mulheres de bem nas redes criticando as reclamações, ironizando que progressistas falam tanto de “preconceito linguístico” e agora estão apontando o dedo para os policiais. A justificativa é insustentável porque a partir do momento em que uma pessoa assume a função de educador ou educadora, precisa saber que o que fizer terá impacto na formação das crianças e adolescentes.

Agora, imagine se professores fossem colocados para atuar como policiais e, diante de um assalto, não soubessem manusear uma pistola? As mesmas pessoas iriam passar pano ou reconhecer que cada profissional precisa exercer a função para a qual foi treinado.

Não cito o nome dos envolvidos porque a intenção não é execrar alguém por um erro, mas usar o caso para tentar repensar os rumos da política educacional.

Dados publicados pela Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo, na última sexta (30), mostram um aumento no número de mortes provocadas pela polícia em 2025. Ao todo, 834 pessoas foram mortas por policiais civis e militares, em serviço e de folga. Foram 21 vítimas a mais do que no ano anterior, que já havia sido marcado por operações letais.

Agora, vemos que nem a língua portuguesa escapou.

Um dos principais argumentos de Bolsonaro para a promoção de unidades de ensino regulares em escolas cívico-militares durante seu governo foi uma suposta doutrinação ideológica de esquerda em sala de aula, além da falta de disciplina de estudantes e de segurança nas dependências das instituições. Na cabeça de Jair, era necessária uma intervenção na educação como parte de sua guerra cultural de extrema direita.

Ironicamente, reclamações sobre opressão surgiram em escolas cívico-militares. Ao longo de sua implementação, professores e estudantes criticaram a censura em assuntos que incomodavam os policiais (em sua maioria, bolsonaristas), assédio moral de militares sobre professores e até adolescentes levados à delegacia por desacato em vez de buscar soluções dentro da escola.

Em um momento em que faltam recursos para o pagamento de profissionais qualificados para a educação, o que ajuda de fato a transformar a realidade do ensino básico, há recursos sendo destinados a pagar policiais — que, por mais bem-intencionados que sejam, não são treinados para dar aulas em escolas do ciclo básico, mas para a guerra.

Pelo menos, a “continêcia” era à bandeira nacional e não à dos Estados Unidos, como no 7 de setembro bolsonarista na avenida Paulista.

Enquanto isso, o governo Tarcísio gastou R$ 28,9 milhões em um material didático de geografia que dizia que a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) aconteceu na década de 1950. O conteúdo é voltado à 2ª série do ensino médio e foi distribuído pela Secretaria de Educação do Estado — que solicitou a sua retificação e atualização. Os valores foram revelados por Carlos Petrocilo, no Painel, da Folha de S.Paulo.

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