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As Máscaras de Gelede

As energias que se tornam visíveis na dança Gęlędę, valorizadas pelos trajes, têm um paralelismo na fascinante imaginária de suas máscaras. Ao retratar praticamente tudo o que pode ser visto no universo iorubá, as máscaras Gęlędę documentam e comentam o domínio das mães, isto é, o mundo.

Apesar da enorme diversidade das imagens em Gęlędę , a forma ou morfologia das máscaras pouco varia. Em contraste, a morfologia das mascaradas noturnas de Ęfę, tais como Arabi, as mães noturnas ou Ọrọ Ęfę, variam significativamente de uma região a outra e até mesmo entre as comunidades.

Reconhecimento dos papéis

Os Iorubá dividem todas as máscaras Gęlędę em categorias masculinas (akǫgi) e femininas (abogi), algumas vezes baseadas no tema retratado na máscara. Por exemplo, uma máscara com um penteado feminino seria denominada abogi (literalmente “madeira feminina”); uma que usasse um gorro masculino seria identificada como akǫgi (literalmente “madeira masculina”). Um tema relacionado ao masculino, na super-estrutura, pode indicar um akǫgi , mas não é raro que uma cabeça com um turbante feminino possa apresentar um motivo associado ao masculino, por exemplo, a caça; um traje feminino pode ser combinado com uma máscara masculina. Porém, muito além da mera identificação de mulheres e homens, os penteados, adornos e objetos, em associação com os semblantes das máscaras, definem muito mais os papéis específicos desempenhados por esses dois amplos grupos.

As modas não apenas valorizam a aparência física de uma pessoa, como refletem e interpretam a vida iorubá, na medida em que expressam e mantêm a identidade social – o posicionamento ou desempenho da vida em termos de ocupação, educação, herança, religião ou riqueza. O adorno da cabeça é um meio importante de expressar a identidade social (Houlberg 1979). É preciso lembrar, além disto, que a cabeça (ori), consiste de aspecto físico, externo (ori ode) e de aspecto interno, espiritual (ori inu). De acordo com a crença iorubá, a cabeça é o a sede da essência, do potencial e do destino de uma pessoa. Os adornos da cabeça exterior de alguém, nas ocasiões rituais, comunicam algo do eu espiritual, interno da pessoa. Por exemplo, certos sacerdotes de Xangô, a divindade do trovão, trançam seu cabelo como se fosse um penteado de noiva, comunicando que suas cabeças foram preparadas para um relacionamento especial com a divindade. Quer sejam do sexo masculino ou feminino, tais sacerdotes, frequentemente denominados esposas de Xangô (iya Șango), são dotados do poder de aplacar e acalmar a divindade, assim como as mulheres têm o poder de acalmar seus maridos. Assim, as representações dos adornos de cabeça, nas máscaras Gęlędę, possuem conotações sociais e espirituais. Os penteados, jóias e turbantes femininos sugerem papéis desempenhados pelas mulheres, os penteados e adornos masculinos sugerem papéis desempenhados pelos homens.

(…) Uma bela máscara Gęlędę da localidade de Șawǫnjo (prancha 101) ilustra como os adornos de cabeça especificam um papel cultural – posição, ocupação, religião, idade. Ela retrata uma devota de Nana Bùkú, a divindade associada à terra e à doença. O penteado usado pelas iniciadas desta divindade assinala devoção e, particularmente, uma cabeça ritualmente preparada para receber a divindade durante o transe de possessão (M. T. Drewal 1977).

Os temas encontrados nas máscaras Gęlędę são extremamente diversificados, mas fundamental, em toda a imaginária Gęlędę, é sua preocupação com a humanidade, com o ser humano encarado em seu relacionamento com outras criaturas vivas, animais, plantas, bem como com os habitantes sobrenaturais que se deslocam à vontade entre este mundo e o além. A partir desta visão, muitas crenças e atitudes, específicas mas variadas, podem ser detectadas na imaginária Gęlędę. Quando os informantes iorubá afirmam que “Gęlędę é o deus da sociedade”, eles estão expressando não apenas a natureza comunitária do culto, mas também seu impacto concreto sobre questões sociais. Não é de admirar que as máscaras Gęlędę contrastem dramaticamente com as dos Egungun. Gęlędę enfatiza a presença humana na constância dos traços da parte inferior, a cabeça de um homem ou uma mulher.

Mesmo quando a cabeça é a de um animal, seu significado deve ser visto em sua relevância para os seres humanos. Egungun, por outro lado, enfatiza o outro mundo e seus aspectos não humanos, ao alterar profundamente a forma humana e incluir imagens e recursos que enfocam a vida após a morte e o sobrenatural, mais do que a própria vida.

(…) A preocupação com a humanidade se expressa nos atos de prestar homenagem, ingrediente essencial em todos os atos iorubá, seja quando se derruba uma árvore, seja quando se apela às mães. O homem opera num mundo de poderes em competição e todos estes possuem uma força vital. Ele precisa aprender a manipular as forças a sua disposição a fim de realçar sua própria existência e a das pessoas de seu entorno. Para invocar e utilizar amplamente tais forças, é preciso conhecer seus nomes, que muitas vezes são fórmulas esotéricas ou secretas. Um provérbio iorubá explica que “não basta matar um elefante, é preciso conhecer o nome que o louva”. Esses nomes de louvação (oríkì) constituem uma parte extremamente importante da literatura oral iorubá, na qual nomes, lugares e imagens, poéticos e frequentemente obscuros, se dispõem de maneira serial e encaixam pessoas, coisas ou divindades num sistema cósmico maior. A elocução de tais louvações constitui as invocações ou a homenagem conhecida como ijuba, semelhante àquelas exprimidas pelo Ǫrǫ Ęfę como prelúdio compulsório a sua performance. Reconhecer e honrar os seres vivos, aqueles que se foram antes de nós, aqueles mais poderosos do que nós ou aqueles a quem se cultua são essenciais para que qualquer ato ritual seja bem sucedido. Assim como os oríkì e o ijuba proporcionam louvações verbais, muitas máscaras Gęlędę, devido a sua completude e sua adequação a conceitos estéticos iorubá, prestam homenagem e oferecem louvação visual a pessoas ou grupos, vivos ou falecidos.

Entre aqueles que são honrados nas máscaras incluem-se artistas e artesãos – escultores, decoradores de cabaças, ferreiros, tatuadores, os que trabalham com couro, ceramistas, tecelões, bordadeiros, tanoeiros e os que trabalham com miçangas. Suas ocupações, a exemplo de muitas da Iorubalândia, são basica mas não exclusivamente hereditárias. A paciência, a concentração, a previsão e a perseverança são consideradas requisito para o sucesso de um artista, pois a arte, ǫnà, envolve o conceito, a decoração ou o embelezamento de um objeto e “aqueles-que-criam-arte” (oníșǫnà) se distinguem por sua habilidade na execução do meio que escolheram.

(…) Devido aos poderes espirituais das mulheres iorubá, não é surpreendente que muitas máscaras Gęlędę homenageiem sacerdotisas e devotas de várias divindades. Uma máscara (prancha 115) da região de Ketu representa uma devota da divindade do arco-íris, Òșùmàrè, cujos símbolos básicos, serpentes reais, formam um arco duplo sobre sua cabeça – Òșùmàrè “que permanece no céu, o qual ele cobre com seus braços” (Verger 1957: 237). As direções opostas das duas serpentes celestiais equilibram a composição e a duplicação e o posicionamento delas sugerem as faixas coloridas de um arco-íris.

(…) As mulheres desempenham importantes papéis em todos os cultos. No culto a Ọrunmila, divindade que preside o sistema de adivinhação por Ifá, um dos objetos rituais mais sagrados e secretos é o apere igbà odú ou apere Ifá (o “recipiente-que-contém-a-cabaça-dos-segredos-da-adivinhação). A prancha 118 mostra-o sendo carregado por uma mulher. Unicamente aqueles que atingiram o grau mais elevado entre os sacerdotes que se dedicam à adivinhação, conhecidos como olodù (“aqueles que têm odu”), possuem tal recipiente. Quatro recipientes menores – tradicionalmente cocos vazios, mas aqui garrafas – contêm remédios sagrados, preparados com lama, carvão, argila e camwood, que, segundo se diz, representam os quatro principais versos da adivinhação. Tais recipientes, mantidos em altares domésticos de Ifá, algumas vezes são usados como banquinhos pelos adivinhos e são carregados em público por certas mulheres durante os festivais anuais de Ifá.

(…) A máscara Gęlędę feminina na prancha 120 (à esquerda) retrata uma sacerdotisa ajoelhada. Seus colares e braceletes assinalam seu status. Leva na cabeça uma bandeja com quatro receptáculos e uma cabeça humana. Sua posição de joelhos, replicada em quatro mulheres menores, que a rodeiam, é um gesto de súplica, humildade e respeito, apropriados para a apresentação de oferendas rituais. O ato de segurar os seios, presente nas figuras femininas menores, ajoelhadas, indica reverência e generosidade, ao se solicitar o apoio da divindade.

(…) Os homens, assim como as mulheres, se envolvem com os ritos tradicionais e também são honrados por manterem a fé de seus ancestrais. Como demonstram estudos de caso de indivíduos envolvidos com Gęlędę , na região dos Egbado, as pessoas são frequentemente tocadas por várias forças divinas e isto se reflete em seus rituais. Assim, durante a noite de Ęfę , o Ọrọ Ęfę honra um mascarado da sociedade Egungun, uma sociedade pan-iorubá que presta homenagem aos espíritos dos ancestrais masculinos e femininos.

(…) Devotos de outras religiões, cristãos e especialmente muçulmanos, são comemorados nas máscaras Gęlędę . Pelo menos desde o século XVIII o Islã tem exercido amplo e significativo impacto sobre a cultura iorubá. Os primeiros a marcar sua presença, provavelmente Nupe, Bariba e Hausa, vieram como comerciantes. Foram seguidos por artesãos especializados em trajes, bordados, artesanato de couro e clérigos que ensinavam o árabe, adivinhavam e preparavam amuletos e talismãs (Adamu 1978: 123-134). O modo como praticavam o culto deve ter fascinado os Iorubá, cuja reação ao Islã provavelmente se situava entre a curiosidade ou respeito e a diversão ou crítica. A mesma mescla de atitudes pode ser observada nas artes de Gęlędę nos dias de hoje, pois os muçulmanos se incluem entre os temas mais comumente representados. Por um lado, os Iorubá admiram o artesanato de couro e os padrões dos tecidos dos habitantes do norte muçulmano, conforme se vê nos trajes do Ọrọ Ęfę e nas mascaradas de Egungun. Também respeitam a capacidade dos muçulmanos de adivinhar e de preparar remédios protetores, conforme se evidencia nas frequentes representações de amuletos em estojos de couro, presentes na escultura iorubá. Os Iorubá, reconhecendo que diferentes povos, sejam eles muçulmanos ou cristãos, manipulam forças sobrenaturais de sua própria maneira, adotaram e adaptaram certas práticas rituais que atendessem suas próprias necessidades. Por outro lado, os muçulmanos ainda eram “estranhos” que faziam coisas excêntricas e algumas vezes divertidas, que podiam evocar uma reação bem humorada nos versos de Ęfę, nos toques dos tambores ou nas próprias máscaras. Não se sabe mais qual atitude precisa inspirou determinadas máscaras Ęfę , mas a imaginária é informativa e reflete as agudas observações dos escultores iorubá.

(…) Embora muitos dos exemplos anteriores provavelmente prestaram homenagem a membros vivos da sociedade Gęlędę e a outros grupos e personalidades importantes na comunidade, alguns desses exemplos podem ter servido para comemorar os mortos. Além de se apresentar em festivais anuais, bienais e em ritos especiais quando ocorrem desastres comunitários, Gęlędę glorifica os mortos. (…) Com frequência é encomendado um par de máscaras Gęlędę para os funerais e, com frequência, uma representação da pessoa falecida comparece na máscara, numa atividade ou atitude características.

(…) Outras máscaras Gęlędę preservam histórias ou acontecimentos míticos, além da memória de personagens importantes.

O ridículo

Nem todas as imagens Gęlędę exaltam as virtudes dos vivos e dos que já partiram. Algumas satirizam e criticam elementos anti-sociais ou inimigos, por meio de imagens arrasadoras. Um tema popular de zombaria é a prostituta, așewó (literalmente “fazemos por dinheiro”), personagem que também comparece nas mascaradas Egungun, para diversão dos espectadores (Drewal e Drewal 1978: pl. 9). Algumas vezes as prostitutas podem ser reconhecidas pela maneira indecorosa com que usam seus panos de cabeça e seus trajes. Cenas gráficas de casais copulando ou ações indecentes (prancha 128) condenam um comportamento impróprio. (…) …a imaginária também pode impugnar o caráter dos inimigos ou rivais – uma espécie de guerra psicológica na arte, conforme se evidencia na documentação obtida, relativa a inúmeras máscaras do Museu Etnográfico de Porto Novo, Benin. Uma delas, ao que se diz esculpida pelo mestre Kugbenu de Banigbe, Benin, possui uma enorme superstrutura de um macaco, numa condição pouco elogiosa (prancha 129). O macaco, com elefantíase, ao que se diz representou o símbolo totêmico de um grupo que tentou rivalizar com a sociedade Gęlędę . Esta máscara deve ter divertido muito os membros da sociedade Gęlędę e os espectadores, causando muito constrangimento para aqueles associados ao grupo que estava sendo representado.

As imagens Gęlędę de estrangeiros, de povos não iorubás, algumas vezes se enquadram na categoria da caricatura, ridicularizando aqueles que podem ter afetado adversamente a cultura iorubá tradicional. Os funcionários coloniais são um alvo lógico dessas representações, conforme se nota em uma máscara de Igbesa, provavelmente obra de Nuru Akapo (pl. 130). A exageração de traços físicos não-africanos e o capacete diminuto são uma zombaria do funcionário colonial. As formas amplas, redondas, que geralmente caracterizam as máscaras Gęlędę , aqui são angulosas, rígidas, sobretudo o nariz pontudo, a mandíbula protuberante… (…) O resultado é uma representação cômica de um forasteiro, conforme visto por olhos iorubás.

Forças cosmológicas

Imagens de inovações técnicas e culturais introduzidas por forasteiros podem parecer basicamente humorísticas, mas também sugerem outros temas mais sérios. Na verdade algumas homenageiam aqueles que prosperaram o suficiente para adquirir e manejar objetos tais como bicicletas e máquinas de costura que então, a exemplo de armas e paramentos sacerdotais, tornam-se símbolos de status.

(…) Em um sentido mais amplo, imagens de novos fatores introduzidos no universo iorubá, sejam eles pessoas ou objetos, comentam a mudança social, econômica, política ou religiosa. As máscaras Gęlędę, a exemplo das cantigas de Ęfę, avaliam continuamente o impacto exercido pelo novo sobre a vida iorubá, impugnando os aspectos anti-sociais da prostituição ao mesmo tempo em que elogiam os benefícios sociais propiciados por invenções maravilhosas. E é precisamente a qualidade mágica de tais invenções que nos leva de volta ao impulso básico de Gęlędę – honrar “nossas mães”, que possuem poder sobrenatural.

Para um Iorubá de mentalidade tradicional, as máquinas e seus criadores não africanos possuem estranhas e extraordinárias qualidades. Alguns Iorubás acreditam que tais invenções são o resultado de certos poderes espirituais, possuídos por seus criadores, que foram canalizados numa direção positiva.

(…) Como as mães são tão frequentemente ligadas aos pássaros e outras criaturas aladas, a representação de aeroplanos nas máscaras Gęlędę e Ęfę parecem extremamente apropriadas. A visualização de inovações percebidas como o resultado de um “axé positivo” constitui um apelo direto e explícito às mães, para que usem seus poderes de forma mais construtiva do que destrutiva.

(…) Pode-se afirmar que a enorme diversidade da imaginária visual Gęlędę avalia tudo aquilo que existe – homens, mulheres, ancestrais, divindades, animais, plantas e objetos -, no âmbito das mães, as “proprietárias do mundo”, em termos de sua influência sobre os vivos, que são os “filhos das mães”. Papéis e personagens vistos como contribuidores para a estabilidade e coesão da sociedade iorubá são festejados, enquanto aqueles prejudiciais à comunidade são denunciados e ridicularizados em imagens grotescas. As forças em competição, que operam no cosmos iorubá, sejam elas religiosas ou sociais, são evocadas em cenas de múltiplas figuras humanas ou de animais no ato de devorar.

Uma tal imaginária pode também exercer funções didáticas, enquanto provérbios, histórias ou mitos visualizados. Assim, a herança do passado é preservada e reafirmada, ao mesmo tempo em que inovações positivas são encorajadas e incorporadas. Todas essas idéias têm por objetivo honrar e agradar as mães. Tendo criado imagens apropriadas e realizado os ritos necessários, os vivos vivem com segurança, na crença de que enquanto continuarem a agir de acordo com as normas aceitas, eles receberão os benefícios propiciados pelo poder das mães, canalizados para fins positivos.

Mascaradas das mães durante o crepúsculo

A revisão e análise das máscaras Gęlędę, acima, inclui todo tipo de máscaras, com exceção de uma, aquela que é o clímax das apresentações, significando assim o sucesso desses espetáculos propiciatórios. Ela sintetiza as divindades femininas, as ancestrais, as sacerdotisas e, na verdade, é a epítome das mães. Esta mascarada de encerramento possui muitas das mesmas qualidades das mascaradas noturnas das mães, porém a máscara, o traje, a dança, a música, o canto, bem como o cenário transmitem diferentes dimensões, outros potenciais dos poderes espirituais das mulheres, com respeito a seus filhos, a sociedade.

(…) Tomadas em grupo, as mascaradas da mãe, à tarde, compartilham alguns traços com as mães noturnas. No entanto, ao retratar os poderes da mulher, elas acentuam os aspectos positivos, criativos e minimizam os aspectos destrutivos. A exemplo do que ocorre com as mães noturnas, movimentos lentos, majestosos, comunicam idade e, portanto, a sabedoria e o extraordinário poder das mulheres mais velhas que reinam como os “deuses da sociedade”. Em todas essas manifestações das mães expressam-se o ocultamento e a calma e moderação das cabeças interiores das mulheres e a pureza ritual de seu estado pós-menopausa. Além disso, os cabelos brancos revelam sua inusitada longevidade, o que em si é um testemunho de suas capacidades sobrenaturais. Aqui, porém, terminam as semelhanças. Ao ligar as mascaradas do crepúsculo à sua progenitora, a comunidade enfatiza seu laço biológico com sua mãe e invoca os poderes regenerativos que produziram e sustentaram essa comunidade. As cantigas que as acompanham são repletas de alegres elogios à “Mãe-de-Muitos-Filhos”, em profundo contraste com as temíveis referências noturnas à “Aquela-Que-Matou-Seu-Marido-Para-Assumir-Um-Título”. Estão igualmente ausentes as referências visuais a um poder temível, aquela barba extraordinária ou o bico vermelho como sangue. Aqui, à luz do dia e diante de todos, a comunidade inteira, os filhos e os mais velhos, mulheres e homens, apinham-se em torno da mãe criativa e protetora. Ela, simbolicamente, acrescenta sua própria força vital e abençoa seus “filhos” com seu chocalho sagrado, que soa como uma benção: axé, axé, axé (“que assim seja, que assim aconteça). A sacerdotisa ancestral divinizada envolve-se, assim, no calor do respeito e da devoção de seus filhos. Sua aparição lhes assegura que os suntuosos espetáculos “mimaram” com sucesso as mães e as convenceram a usar seus poderes em benefício da sociedade.

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