As periferias em luta pelo direito à vida

União e troca de experiências podem conter violência

Por Edna Jatobá, Eliana Sousa Silva, Jaime Crowe, da Folha de S.Paulo

 

Membros da CNDH (Comissão Nacional de Direitos Humanos) visitam e e conversam com moradores do conjunto de favelas da Maré, na zona norte do Rio – Douglas Lopes – 04.set.19/Redes da Maré

O conjunto de favelas da Maré, no Rio de Janeiro, tem o tamanho de uma cidade média, com 139 mil habitantes espalhados em 16 comunidades. Historicamente, a região tem sido vista pelos governos e por parte da população apenas como um local perigoso, onde o que se sobressai é a atuação de integrantes de redes ilícitas e criminosas envolvidas em confrontos armados entre si e com agentes da segurança pública.

O resultado dessa visão distorcida é que, na Maré, como em outras periferias brasileiras, os moradores sempre precisaram lutar em defesa da própria vida. Foram muitas conquistas, como, por exemplo, uma ação civil pública em que a Redes da Maré, uma instituição da sociedade civil, articulou junto com a Defensoria Pública do Rio e outras organizações locais para que, durante as incursões policiais na região, não houvesse invasão de casas, a não ser com mandados judiciais; fossem disponibilizadas ambulâncias para eventuais feridos; e policiais estivessem identificados, entre outras garantias básicas de vida.

A liminar foi concedida em 2017, com resultados imediatos. Os homicídios nas favelas da Maré despencaram, assim como as incursões da polícia, os tiroteios e os dias sem aulas nas escolas. O atual governador do Rio de Janeiro, no entanto, briga para suspender a ação civil pública da Maré.

Outras periferias brasileiras vivem dramas parecidos. O Estado chega somente como força de guerra, usando violência desmedida, como se invadisse um território inimigo, deixando a população acuada entre as balas do crime e da polícia. É preciso resistir e agir contra esses abusos. As periferias brasileiras precisam trocar experiências e irem unidas para o debate sobre como garantir a vida nesses bairros. É o único caminho para sair dessa trilha suicida que vivemos.

Neste sábado (2), as Redes da Maré, do Rio de Janeiro, o Fórum em Defesa da Vida, organização das periferias da zona sul de São Paulo, e o Gabinete de Assessoria Jurídica às Organizações Populares (Gajop), de Pernambuco, entre outros grupos, promoverão em seus territórios atos em defesa de políticas que promovam a vida.

A escolha da data se inspirou na experiência do Jardim Ângela, que reagiu depois de ter sido apontado em 1996 como o bairro mais violento do mundo. Já são 24 anos de caminhadas em defesa da vida e da articulação de uma rede em torno do Fórum em Defesa da Vida, que nesses anos pressionou pela chegada de um hospital na região, por melhorias em escolas e serviços de assistência social e para a construção de três bases de policiamento comunitário.

Pernambuco e os demais estados do Nordeste e do Norte, que atualmente estão com elevadas taxas de homicídio, vivem a urgência de reverter o quadro, algo que já vem ocorrendo com a ajuda das organizações populares e da sociedade civil local.

A luta pelo aperfeiçoamento das instituições democráticas na garantia dos direitos civis mais sagrados, como a vida, não deve ser apenas das periferias, mas de todo o Brasil. Juntemo-nos em mais essa luta.

Edna Jatobá
Socióloga e coordenadora-executiva do Gabinete de Assessoria Jurídica a Organizações Populares (Gajop), de Pernambuco

Eliana Sousa Silva
Educadora e diretora da Redes da Maré, no Rio de Janeiro

Jaime Crowe
Padre da Paróquia Santos Mártires, no Jardim Ângela (São Paulo), e um dos fundadores do Fórum em Defesa da Vida, que reúne mais de 200 entidades

 

+ sobre o tema

Detenção de Mano Brown exemplifica a mensagem de Cores e Valores

Pedro Paulo Soares Pereira, 44 anos, também conhecido como...

Últimas tropas de combate dos EUA deixam o Iraque

Segundo redes americanas, tropas deixam o país em direção...

Manifestações livres sobre qualquer assunto

Por Leno F. Silva De novo, mais uma...

para lembrar

Justiça cassa 13 vereadores em São Paulo; advogado diz que lei não proíbe doações

Fonte:UOL - A Justiça Eleitoral de São Paulo cassou...

Temer e Terceirização: Empresários batem palmas, trabalhadores pagam o pato

Esta notícia é para você, caro amigo trabalhador, cara...

Procon-SP alerta sobre oferta de produtos nas redes sociais

Cada vez mais usadas como ferramentas para o...

Maioria acha que Obama não mereceu Nobel

Fonte: Blog Sérgio Dávila - Pesquisa Gallup divulgada hoje confirma...

Desigualdade ambiental em São Paulo: direito ao verde não é para todos

O novo Mapa da Desigualdade de São Paulo faz um levantamento da cobertura vegetal na maior metrópole do Brasil e revela os contrastes entre...

Estudo mostra que escolas com mais alunos negros têm piores estruturas

As escolas públicas de educação básica com alunos majoritariamente negros têm piores infraestruturas de ensino comparadas a unidades educacionais com maioria de estudantes brancos....

Quase metade das crianças até 5 anos vivia na pobreza em 2022, diz IBGE

Quase metade das crianças de zero a cinco anos vivia em situação de pobreza no Brasil em 2022, de acordo com dados divulgados nesta terça-feira (9) pelo IBGE (Instituto Brasileiro...
-+=