segunda-feira, setembro 20, 2021
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“As pessoas querem ser escutadas” , diz Cherizar Crippen, líder do Black Lives Matter

Cherizar Crippen é uma das jovens negras líderes do movimento Black Lives Matter (BLM) que está fazendo ferver os Estados Unidos em protestos antirracistas em 50 Estados do país, espalhando a pólvora da indignação pelo mundo, após o assassinato de George Floyd, em Minneapolis. Cherizar é ativista em sua cidade Greensboro, na Carolina do Norte, e o afro-americano Marcos Deon Smith, foi morto pela polícia em 2018.

Cherizar, que veio ao Brasil representando o BLM em duas ocasiões, com uma delegação em 2017, e no Fórum Social Mundial, em 2018, conversou com a coluna Geledés no debate após participar de protestos em Greensboro. A jovem estudou no Centro de Pesquisa e Educação Highlander, uma escola de treinamento em liderança em justiça social, e hoje trabalha em cinco organizações diferentes, todas ligadas ao Black Lives Matter. “Meu trabalho inclui advocacia juvenil, comunicação, logística, educação popular, facilitação de estratégias emergentes, coordenação”, conta ela.

Nesta entrevista, ela fala sobre como o Black Lives Matter se organiza, suas aspirações e a defesa da extinção do sistema prisional.

Geledés – Quando eclodiram as primeiras manifestações pedindo justiça pelo crime cometido contra George Floyd em Minneapolis, dando início ao que se tornou uma das maiores manifestações contra o racismo de todos os tempos nos EUA, com expansão para 50 estados americanos, países da Europa, América Latina, incluindo o Brasil, vocês imaginavam que haveria essa repercussão?  A quais fatores atribui essa onda gigantesca contra o racismo?

Este era um barril de pólvora. Nossos governantes eleitos permitiram que um vírus perigoso (coronavírus) atingisse dezenas de milhares de pessoas. Eles demoraram a tomar qualquer atitude para nos proteger e alguns até nos disseram para não nos preocuparmos quando deveríamos saber dos perigos. Embora os ricos tenham aumentado sua riqueza nesse período participando do capitalismo pandêmico, as pessoas da classe trabalhadora perderam empregos, moradia e acesso à educação. Trabalhadores essenciais foram elogiados como heróis, mas a verdade é que eles foram sacrificados em nome do capital. Eles (profissionais da Saúde) seguem como pessoas mal remuneradas. Se o governo se importasse, não teria nos desrespeitado com um contracheque de US $ 1.200, equivalente ao salário mínimo de 40 horas por um mês, às pessoas que não têm condições de trabalhar fora por mais de três meses. Essas pessoas foram trancafiadas longe de seus entes queridos assistindo a uma população adoecer e morrer. O pedágio e o trauma causados na saúde nunca será totalmente calculado. Em meio de tudo isso, a supremacia branca não tirou um dia de folga.

“As pessoas usam o que têm à disposição, seja uma pedra ou um voto. A privação de voto da votação gera mais pedras. A verdadeira violência é a colonização global, o policiamento irresponsável, os desertos alimentares, o racismo na saúde e muito mais.”

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Foto: Jason Grimes

Geledés – Nas mais de 50 cidades americanas em que acontecem as manifestações, as ruas são tomadas de várias formas e em diversos momentos do dia, inclusive rompendo o toque de recolher. Às vezes, de forma mais pacífica, às vezes de forma mais violenta. Como analisa os grupos que participam das manifestações?

Marther Luther King afirmou que os motins são a língua dos inéditos. As pessoas querem ser escutadas e isso pode ser assumido de várias formas. Por padrão, os canais governamentais costumam ser inacessíveis ao cidadão comum e quase inexistentes aos migrantes sem documentos que precisam vir até os Estados Unidos para escapar de situações que levam à morte, comumente verificadas na colonização global. As pessoas usam o que têm à disposição, seja uma pedra ou um voto. A privação de voto da eleição gera mais pedras. A verdadeira violência é a colonização global, o policiamento irresponsável, os desertos alimentares, o racismo na saúde e muito mais.

A infiltração da força policial nos Estados Unidos pelo KKK e pelos supremacistas brancos é bem documentada pelo FBI. Cointelpro (Programa de Contra Inteligência implantado e executado pelo FBI para desestabilizar protestos entre as décadas de 50 e 70 nos EUA ) foi apenas o começo das infiltrações nos movimentos. A segurança é de extrema importância para os organizadores da libertação negra. Por que não é o mesmo para o nosso governo? Porque a supremacia branca está no coração desse governo. E os Estados Unidos é um país edificado em cima dela.

Geledés – Quem são os líderes do Black Lives Matter e quais suas principais demandas?

É complexo, pois existem muitos líderes. Não podemos mais nos dar ao luxo de olhar para uma única cabeça ou uma face singular do movimento. Até porque, eles matam nossos líderes. Faço parte de uma nova formação liderada por negros em minha cidade chamada Greensboro Rising, na histórica cidade de Greensboro, onde o movimento Sit In começou. As demandas localizadas são de suma importância. Entre elas estão impedir que a polícia possa comprar armas militarizadas e de ser violenta com a população negra; que a polícia trate com dignidade as pessoas trans e intersexuais e de gênero LGBTQ,  que tratem as pessoas em situação de rua com dignidade e parem de criminalizá-las, que cessem as detenções por apreensão de maconha e que haja um Conselho de Revisão da Comunidade Policial para responsabilizar a polícia por seus atos ilícitos.

Geledés – Com exceção de algumas cidades, como Camden, em New Jersey, nas últimas duas décadas, muito pouco foi feito para reabilitar os departamentos de polícia dos EUA, acusados ​​de abusos sistêmicos. Por que esperar que isso vá mudar agora?

Estamos em um momento sem precedentes. Nunca antes na história do mundo houve protestos em todos os 50 Estados Unidos e em todos os continentes. A mudança está no ar. As pessoas estão despertando para o fato de que tudo o que lhes foi prometido em torno da mobilidade ascendente no capitalismo global e da segurança geral era uma mentira. É inegável nesta pandemia.

Geledés – Black Lives Matter surgiu em 2013 como um movimento para protestar contra a absolvição de George Zimmerman, um segurança de bairro, acusado de matar Trayvon Martin, um jovem negro. De lá para cá, como atua a instituição e de que forma ela se organiza? Neste sentido, como as redes sociais ajudam na configuração de movimentos como Black Lives Matter?

Os movimentos foram construídos em uma escala imensa, que antes do aparecimento das mídias sociais era impossível. Podemos alcançar pessoas com vídeos de educação política, memes, gifs, artigos, com chamamentos às atividades, etc, levando-as a um novo entendimento com apenas um clique de um botão. Pessoas vulneráveis não precisam mais se sentir sozinhas. Nós vemos você e você nos vê. Os jovens, é claro, utilizam mais as mídias sociais. Temos notícias, contato e apoio a esses jovens de diversas maneiras como nunca aconteceu antes. Como defensora da juventude, sou constantemente lembrada de que nunca teríamos um movimento por direitos civis sem essa juventude. Os jovens entendem o mundo e são criativos com suas soluções. O julgamento (de George  Zimmerman) nos trouxe até aqui, mas o que virá a seguir? Estamos de olho.

Estamos lutando contra a colonização mundial para que a solidariedade global e o compartilhamento de estratégias, táticas, vitórias e lições sejam extremamente importantes e tragam mudanças sustentáveis. Não faz sentido eu ser liberta nos Estados Unidos, podendo viajar para várias cidades brasileiras e permanecer em comunidades com os organizadores e líderes negros do candomblé, se o outro não for liberto também. A liberdade não é verdadeira para mim se eu não puder visitar meu terreiro sem ter que vivenciar a experiência da supremacia branca em um aeroporto. Somos uma diáspora negra, somos uma família.

Foto: Jason Grimes
Foto: Jason Grimes

Geledés – A frase “Não consigo respirar” é remetida ao racismo estrutural estabelecido nos Estados Unidos durante quatro séculos e que se vê claramente agora durante a pandemia. De que forma essas duas temáticas racismo e pandemia se interseccionam nos EUA?

Seria negligente não mencionar Marcus Deon Smith (afro-americano morto pela polícia em 2018) aqui. Ele não conseguia respirar quando procurava ajuda, mas estava preso em Greensboro, ou seja, a polícia quebrou sua própria regra e o matou. A polícia nos Estados Unidos e em muitos outros lugares do mundo usa armas químicas, gás lacrimogêneo, artifícios que nem podem ser usados em guerras. Nossa prefeita, Nancy Vaughn (de Greensboro, na Carolina do Norte), declarou toque de recolher, que foi um catalisador para a polícia usar essas armas em manifestantes. Isso também levou às primeiras prisões nos protestos de quase exclusivamente manifestantes negros.

Os negros têm morrido com esse vírus em taxas muito mais altas do que outras raças. O racismo na saúde está em jogo. Meu próprio pai quase morreu deste vírus duas vezes quando lhe foram recusados os devidos cuidados e testes e, em vez disso, ele foi acusado de ser usuário de drogas. O vírus causa sudorese e preconceitos raciais os levaram a acreditar que os sintomas de meu pai estavam relacionados a drogas, embora ele pedisse explicitamente um teste COVID-19 na chegada ao hospital. Não fizeram nada além de olhar para ele e sua pele negra. Nunca perdoarei este país por defender o tipo de racismo institucionalizado que quase levou meu pai embora. Ele já estava sofrendo com a morte de causas naturais de sua mãe e nem conseguimos fazer um funeral para ela. Isso dói muito e estou carregada de fortes emoções. Eu tenho a certeza de quem é a culpa de tudo isso. Desde a propagação da pandemia não conseguimos chorar por nossos mortos, e a causa da raiz desse problema é muito evidente para mim, a começar pelos médicos que se recusam a nos ajudar a nos mantermos vivos. A questão central é a estrutura capitalista racista projetada para nos matar de mil maneiras. Essa estrutura é global e precisa ser interrompida.

Geledés – A prisão e detenção de milhares em todo o país aumenta o risco de disseminação de coronavírus entre a população negra? Como vê essa questão?

Na prisão, eles não conseguem se distanciar socialmente, espalhando efetivamente o vírus. Nossa prefeita alegou que o toque de recolher era por medida de segurança. Mas essas armas são conhecidas por causar problemas respiratórios, como é o COVID-19. A combinação é aterrorizante. É também irresponsável permitir o uso de armas químicas em manifestantes. Sabemos que o toque de recolher foi realmente promulgado para proteger a propriedade. Janelas podem ser substituídas, a vida humana não.

Nós devemos abolir as prisões. O primeiro livro político que li foi a Bíblia. Eu entendo que Jesus foi um revolucionário negro lutando por liberdades religiosas. Ele foi preso e colocado no corredor da morte pelo Estado. O segundo livro político que li foi “Are Prisons Obsolete” (“São as prisões obsoletas?”), de Angela Davis. O livro me fez questionar o propósito do policiamento e da prisão e se realmente ajuda ou prejudica a sociedade. Comecei a examinar as causas do “crime” e a pensar em soluções sem a polícia. Os policiais são apenas apanhadores de escravos de uniforme. Se você rouba uma comida porque está com fome, não é mais fácil, mais barato e mais sustentável obter comida? Quando sair da prisão, não continuará com fome? Se você faz algo violento, não faz mais sentido examinar por que você reagiu dessa maneira e obter terapia e ferramentas para gerenciar suas emoções? Colocá-lo em uma cadeia, lugar historicamente violento, não o tornaria mais violento ainda?

Você se sente seguro se seu filho crescer em um sistema em que ele não é amado e ainda é rejeitado? Se as crianças forem rejeitadas, não se tornarão violentas também? Existem muitas alternativas que podemos usar e decretar. Então, por que isso não é uma prioridade para este governo? Precisamos abolir prisões e policiamentos. Se tivéssemos feito isso, não haveria dúvida sobre como nos proteger de um vírus em gaiolas.

Foto: Jason Grimes
Foto: Jason Grimes

“Dizem que temos duas Américas aqui nos EUA. Uma para os brancos e outra altamente opressiva para os negros, não negros, e indígenas. Por que saudar ou celebrar um país que nada fará para impedir minha morte? É importante chamar a atenção para essa justaposição em nível nacional. “

Geledés – O ato de ajoelhar-se remete ao gesto de Colin Kaepernick, ex-jogador da NFL, que quando estava no San Francisco 49ers ficava agachado durante a execução do hino dos Estados Unidos, em virtude das desigualdades sociais e raciais nos Estados Unidos. O principal motivador do quarterback era a brutalidade policial contra jovens negros americanos. O que esse gesto significa e qual a importância de ser resgatado nesse momento?

Atletas negros, como pessoas altamente visíveis, têm se manifestado sobre a justiça desde a era dos direitos civis. Hoje todo mundo tem uma plataforma e se ajoelhar é uma maneira de demonstrar solidariedade. As mulheres negras historicamente lideram o discurso em torno da raça. Os homens negros têm sido historicamente líderes mais visíveis por causa do patriarcado, um subproduto da supremacia branca. E isso está por trás de sua percepção e do hino nacional (que tem letras racistas em sua forma original) que não ressoa com a experiência dos negros nos Estados Unidos. O hino parece uma mentira. Dizem que temos duas Américas aqui nos EUA. Uma para os brancos e outra altamente opressiva para os negros, não negros e indígenas. Por que saudar ou celebrar um país que nada fará para impedir minha morte? É importante chamar a atenção para essa justaposição em nível nacional. O movimento alcançou pessoas que como eu e ampliou o discurso nacional sobre violência policial.

Geledés – O presidente Donald Trump invocou a lei de 1807 para usar as Forças Armadas contra os manifestantes. Em que medida as reações do presidente fazem com que o cenário piore e como isso impacta nas próximas eleições?

Estamos vendo a tirania em ação, não muito diferente do que os negros no Brasil estão enfrentando sob o governo Bolsonaro. Quando um corpo está morrendo, ele se contrai e faz movimentos bruscos. Acredito que estamos vendo as contrações de uma era agonizante da supremacia branca. Ele está em pânico como deveria, tendo se alinhado e incorporado à supremacia branca. Eu não pretendo desdenhar dos perigos. As pessoas estão vivendo em zonas de guerra, independentemente de vê-la explicitamente. A polícia é militarizada, muitos são veterinários militares. Trump simplesmente pulou o programa habitual e foi direto à fonte da violência. Devo admitir que tenho travado uma batalha local e não assistido intensamente ao debate das eleições nacionais. Não sei o que acontecerá nas eleições de novembro. Eu sei que o sistema divido em duas partes é uma falha imensa. As pessoas estão sendo solicitadas a escolher entre alguém que lutou pela segregação e é acusado de agressão sexual e alguém no cargo que, como proprietário de propriedades, sustentou a segregação e foi acusado de agressão sexual. É uma escolha ofensiva e essas não são nossas únicas opções. Em minha opinião, nossos dois partidos, democrata e republicano, são apenas dois lados da mesma moeda. Estou em constante debate de princípios com meus camaradas sobre o que deve ser feito. Elegemos alguém que achamos que podemos influenciar sem garantias, políticas, e uma história de prejudicar os negros por meio de políticas e pessoas de risco, pensando que as coisas estão bem e voltando ao “normal”? Ou mantemos alguém que está atualmente e ativamente nos prejudicando de maneiras inegáveis que estão galvanizando as pessoas? Não desejo que meu povo sofra para obter nossa liberdade. Revira meu estômago pensar nessas “opções”, então continuo me afastando das autoridades locais. Eu gostaria de ter uma melhor análise ou resposta.

Geledés – No dia 4 de junho, um juiz estabeleceu a fiança de US$ 1 milhão para três dos policiais de Minneapolis acusados de cumplicidade na morte de George Floyd. Como alcançar a justiça?

Somos um povo que trabalha em um sistema enquanto luta para mudá-lo. Se eu acho que prender resolve? Não. Mas tenho outra opção nesse momento? Também não. Eu desejo mudanças? Sim. Então, quando algo assim acontece, vejo o desejo de as pessoas buscarem justiça através dos canais disponíveis. Eu as vejo querendo que os policiais tenham as mesmas consequências que os cidadãos. Eu sei que tipo de segurança vem dos policiais pelo fato de serem demitidos ou presos, quando nós tiramos a licença deles para matar. Mas, com ou sem uniforme, dentro ou fora da cadeia, eles ainda me odeiam de forma implícita ou explícita. Eles ainda encontrarão maneiras de atacar meu povo, mesmo que estejam em uma cela. Portanto, não estamos verdadeiramente seguros. Isso exige uma mudança social e essa é minha principal razão para trabalhar com os jovens. Que esta geração seja a última a desvalorizar a vida negra. Axé!

A polícia tem sido violenta desde o início. O sistema de policiamento não está falido, mas opera da maneira pela qual foi projetado para atuar. Eles assassinam, estupram e roubam recursos. As taxas de violência doméstica para a categoria dos policiais estão entre as mais altas de qualquer profissão. Os policiais tomam remédios para ficarem acordados em seus turnos e não são testados regularmente. Eles chegam em casa vindo de zonas de guerra e praticam a mesma violência das ruas. Eles até viajam ao exterior para treinar soldados em outros países para prejudicar seu povo. A polícia dos EUA é globalmente violenta. Aqui, eles capturam pessoas e as fazem trabalhar sem quase nenhuma compensação, para que a economia possa se beneficiar desse trabalho. Costumávamos chamar isso de escravidão. Eles matam pessoas em prisões, especialmente pessoas trans. Eles são especialmente perigosos porque as pessoas os amam. Aqui são feitos filmes de amigos fofos sobre eles e brinquedos são inspirados neles. Raça não importa. Policiais negros têm a mesma probabilidade de matar pessoas negras. Não há reforma que conserte o que não está quebrado, mas é a mão direita da tirania agindo. É por isso que devemos defini-los e aboli-los agora.

Foto: Jason Grimes
Foto: Jason Grimes

Geledés – Segundo pesquisa Ipsos, 64% dos americanos apoiam as manifestações. Por quanto tempo imagina que vão durar as manifestações e o que pode sair delas como um real avanço para a sociedade americana?

Uau, eu não sabia disso! É incrível. Estamos diante de uma pandemia que pode durar até 2021 e uma eleição que será seu próprio barril de pólvora. Também estamos vendo mudanças materiais em todos os lugares. A polícia está sendo expulsa das escolas, e a responsabilidade pela violência está finalmente acontecendo. Conversas sobre recursos para comunidades negras estão acontecendo em todo o país. Ajuda às comunidades e o debate sobre o socialismo são o que salvarão muitas pessoas do desespero absoluto e elas estão começando a questionar se o capitalismo realmente as serve. Não há como voltar ao que pensávamos ser verdade antes da pandemia. O véu foi levantado. Então, quando eu juntar tudo isso, posso dizer que espero que a mudança aconteça rapidamente E eu sinto que as pessoas estão nessa jornada de longo prazo. E certamente não irei a lugar algum até alcançarmos o que buscamos.

“O sistema de policiamento não está falido, mas opera da maneira pela qual foi projetado para atuar. Eles assassinam, estupram e roubam recursos.”

Geledés – Você esteve no Brasil e pode observar como o racismo estrutural também opera. Existe inter-relação entre o racismo em seu país e no Brasil?

Certamente! Os Estados Unidos são o que eu chamaria de um canário na mina de carvão. Durante os tempos de mineração, os mineiros de carvão levavam um pássaro para as minas e, se ele morresse, saberiam sair, porque o oxigênio estava acabando. Alguém no Brasil me disse que quando a América peida o mundo inteiro cheira. Então sim, sim, sim, estamos todos atados pelo quadril. Estive no Brasil pela primeira vez em 2017. Conversei muito com jovens negros brasileiros que me contavam suas histórias. Não me lembro dos nomes de todos os candidatos, mas vocês tinham Bolsonaro, ligado à direita como Trump, outro candidato atrelado aos liberais que se autodenominava candidato de pessoas ricas e pobres (o que para mim é impossível), semelhante a uma Hillary Clinton, e ainda outro com visões mais progressistas e socialistas, nas quais as pessoas tinham medo de votar porque acreditavam que não iria vencer, parecido ao nosso Bernie Sanders. As eleições foram quase idênticas às de 2016. Da mesma forma que você e eu podemos compartilhar táticas, estratégias, lições e vitórias, o direito também pode tramar contra seu povo. É por isso que a solidariedade global entre a diáspora é tão importante.

Outra maneira de ver isso é através das formas pelas quais o candomblé é demonizado pela religião dominante, ao mesmo tempo em que é incorporado à religião dominante. Sincronicidade também é uma marca registrada da igreja negra. Religiões de raízes africanas como Ifá ou Santeria, em Cuba, foram preservadas logo abaixo da superfície. As divindades africanas estavam escondidas em figuras como Maria Madalena. Este foi um ato de resistência para os negros escravizados. A colonização exigia conversões e procurava fazer com que as religiões não convencionais parecessem demoníacas para promover essa causa. Mas Iemanjá está na sua xícara Starbucks, não importa para onde você viaje pelo mundo. ( a rede americana Starbucks proibiu seus funcionários de usar qualquer símbolo em seus uniformes relacionado ao movimento).

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