Durante três dias, pesquisadores, agricultores familiares, lideranças indígenas, quilombolas, representantes de organizações da sociedade civil e gestores públicos trocaram o auditório pelas estradas do Agreste pernambucano. A segunda edição da Caatinga Climate Week, realizada entre 1º e 3 de julho, nasceu inspirada nas chamadas Climate Weeks promovidas em diferentes regiões do mundo, mas com uma proposta de inverter a lógica que costuma orientar os grandes debates internacionais sobre o clima: em vez de discutir soluções para os territórios sem a presença de quem vive neles, colocar esses territórios como principal assunto da conversa.
Sob o tema “A Caatinga falando para o mundo”, a programação começou no Centro Cultural Cais do Sertão, no Recife, para depois deixar o auditório e percorrer municípios do Agreste pernambucano, aproximando a discussão climática da experiência cotidiana de quem aprendeu a conviver com a seca muito antes de a emergência climática chegar às manchetes do planeta.
Foi nesse percurso que os debates ganharam nome, rosto e memória. Ao relatar sobre sua antiga propriedade no município de Caetés, no interior pernambucano, Seu Simão parecia estar segurando um velho álbum de fotografias. Descreveu o plantio que garantia o sustento da família. Depois discorreu sobre como o cenário havia mudado. A instalação do Parque Eólico Ventos de São Clemente transformou a paisagem da região do Semiárido. Vieram também os problemas de saúde enfrentados por sua esposa e familiares. Permanecer naquela terra se tornou, então, inviável. Seu Simão deixou o local, mas não deixou de carregá-lo por dentro. Como sabiamente escreveu Antônio Bispo dos Santos, em seu livro A Terra dá, a terra quer, “somos apenas moradores quando não temos uma relação de pertencimento, quando estamos aqui, mas partimos na primeira possibilidade que tivermos”.
A narrativa de Seu Simão sobre pertencimento e saberes da terra emocionou Mariana Belmont, assessora de Clima e Racismo Ambiental de Geledés – Instituto da Mulher Negra, que participou da Caatinga Climate Week. Para ela, a visita sintetizou o verdadeiro sentido do encontro. “A Caatinga Climate Week foi um encontro com a memória, a vida e os territórios”, resume. “Estar no Semiárido, ouvir as histórias de quem vive e luta pela terra reforçou que a crise climática não acontece apenas nos documentos ou nas salas de negociação. Ela acontece no cotidiano das pessoas, nos vínculos construídos com seus territórios e nos modos de vida que resistem há gerações.”
Belmont foi chamada para mediar o painel “Entre a evidência e a vivência: ciência e saberes no Semiárido”, porém confirmou que nenhum plenário é capaz de transmitir o significado de uma cisterna construída coletivamente, de um banco comunitário de sementes ou de um quintal produtivo como faz a visita ao território de quem depende dessas tecnologias para seguir vivendo.
Durante décadas, a Caatinga foi apresentada quase exclusivamente como um território de ausências: pouca chuva, baixo desenvolvimento econômico, longos períodos de estiagem. O encontro propôs exatamente o contrário. Mostrar que o único bioma exclusivamente brasileiro também é um dos maiores laboratórios vivos de adaptação climática do mundo.
A palavra “caatinga”, de origem tupi, significa “mata branca”, referência ao aspecto assumido pela vegetação durante os períodos secos. Espalhado por cerca de 11% do território brasileiro, abrangendo dez estados nordestinos e parte do norte de Minas Gerais, o bioma abriga uma biodiversidade singular e uma longa história de convivência entre pessoas e clima. Muito antes de organismos internacionais falarem em resiliência, adaptação ou soluções baseadas na natureza, agricultores, povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais já desenvolviam tecnologias capazes de armazenar água, recuperar solos, preservar sementes e produzir alimentos em um ambiente marcado pela irregularidade das chuvas.
As histórias escutadas por Belmont no Semiárido desmontam uma das narrativas mais difundidas sobre a transição energética. A expansão da energia eólica costuma aparecer como um símbolo da economia de baixo carbono. Mas, diante daqueles agricultores, surgia outra pergunta: de que adianta uma energia considerada limpa se ela produz conflitos fundiários, deslocamentos e insegurança para quem sempre cuidou do território? “A história de Seu Simão nos lembra que não existe transição energética justa sem justiça territorial, participação social e respeito aos direitos humanos”, afirma a representante de Geledés. “A transformação que precisamos construir passa por escutar aqueles que historicamente cuidam da terra e constroem, a partir de seus saberes, caminhos para enfrentar a crise climática.”
A palavra “escuta” seria o principal motor dos três dias deste encontro. Não como um recurso retórico, mas como método político. Antes de propor soluções, era preciso compreender as soluções existentes. Essa percepção orientou a leitura feita por Adriana Ramos, diretora-executiva do Instituto Socioambiental (ISA). Para ela, a segunda edição da Caatinga Climate Week consolidou uma ideia que começou a surgir já na primeira edição: a Caatinga deixou de ser apenas um lugar sobre o qual se fala para se tornar um território de onde emergem respostas concretas para uma crise que agora desafia o globo. “As inúmeras iniciativas que visitamos demonstram que a força dos coletivos organizados é um elemento central para a construção de estratégias de adaptação”, observa ela. “A partir de experiências e tecnologias sociais desenvolvidas coletivamente, as comunidades encontram caminhos próprios para reduzir suas vulnerabilidades e enfrentar situações de clima extremo.”
A representante do ISA lembra que esse aprendizado é discutido no momento em que o país debate a construção de políticas nacionais de adaptação às mudanças climáticas. Enquanto diferentes setores procuram modelos para enfrentar secas mais prolongadas, ondas de calor e eventos extremos, principalmente com a aproximação de El Niño, muitas respostas estão presentes nas comunidades do Semiárido.
As tecnologias sociais apresentadas pelas comunidades não envolvem inteligência artificial nem equipamentos sofisticados. São cisternas construídas em mutirão, bancos comunitários de sementes, sistemas agroflorestais adaptados ao Semiárido, barragens subterrâneas, quintais produtivos e formas de manejo da vegetação desenvolvidas e repassadas de geração em geração. Soluções aparentemente simples, mas sofisticadas ao nasceram da observação paciente da natureza e da experiência acumulada por quem nunca teve outra opção além de aprender a conviver com a seca.
Na avaliação de Ramos, é justamente aí que reside a principal contribuição da Caatinga para o debate climático. “Quando a gente olha para essas experiências com os recortes de gênero e raça, vê que são as mulheres, mulheres negras e indígenas as principais lideranças dessas frentes de inovação e construção de alternativas. É a partir do esforço dessas mulheres que muitas famílias veem suas vidas transformadas”, afirma. Segundo ela, são essas agricultoras, indígenas, lideranças comunitárias e guardiãs das sementes que articulam as redes de solidariedade, organizam a produção de alimentos, difundem tecnologias sociais e fortalecem a capacidade das comunidades de enfrentar períodos prolongados de estiagem.
A visita ao território do povo Xukuru ampliou ainda mais essa compreensão. Para Ramos, a experiência demonstrou que as comunidades indígenas também vêm construindo respostas próprias diante da emergência climática. “As mulheres indígenas e suas comunidades mostram que, mesmo em situações de maior vulnerabilidade, conseguem fortalecer estratégias não apenas de sobrevivência, mas de construção de novas formas de permanecer nesses territórios.” Em outras palavras, adaptar-se às mudanças do clima não se traduz em apenas resistir aos impactos ambientais, mas preservar modos de vida, culturas e formas coletivas de organização.
Mariana Belmont observa que, embora utilizassem linguagens diferentes, as falas dos agricultores, das mulheres quilombolas, das lideranças indígenas e dos pesquisadores convergem para um mesmo ponto: a crise climática não pode ser enfrentada apenas como um desafio tecnológico. Ela também é uma questão de direitos humanos, de justiça racial e de distribuição desigual dos impactos ambientais.
Ao aproximar ciência e saberes tradicionais, Belmont defende que não existe hierarquia entre esses conhecimentos. Pelo contrário. “Os territórios produzem evidências que muitas vezes chegam antes da ciência”, afirma. Os agricultores percebem mudanças no comportamento das chuvas, na fertilidade dos solos e nos ciclos das plantas muito antes de esses processos aparecerem em relatórios técnicos. Ignorar essa experiência significa desperdiçar um patrimônio de conhecimento construído ao longo de séculos.
Carlos Magno, coordenador no Centro Sabiá e um dos idealizadores da iniciativa, prefere nem definir a Caatinga Climate Week como um evento. “Ela é uma plataforma”, resume. A palavra aparece diversas vezes enquanto ele tenta explicar o que está sendo construído em Pernambuco. Para Magno, a força da iniciativa reside na possibilidade de ser criado um espaço permanente de visibilidade para quem vive no Semiárido.
E assim como Adriana Ramos, ele acentua o recorte de gênero e raça dessa população. “A grandíssima maioria dessas populações é racializada e mais da metade são mulheres. São elas que vivem nesse bioma, construindo soluções e se adaptando a um clima que muda há muitos anos. A Climate Week cria um lugar para que o país enxergue a capacidade de transformação dessas pessoas.”
Magno diz que, ao longo desta segunda edição, outro tema acabou atravessando todas as atividades: a cultura. Não apenas a cultura entendida como uma produção artística, mas como uma forma de viver, produzir e se relacionar com o território. Para explicar melhor essa ideia, ele recorre a uma imagem da infância sertaneja. Lembra da antiga tradição da pega de boi no mato, prática, como explica, diferente da vaquejada realizada em pistas de areia. Na pega de boi, o animal corre dentro da vegetação nativa da Caatinga, onde conhece cada curva e cada espinho melhor do que o vaqueiro. “Ela só existe porque existe o bioma. Se acabar a Caatinga, acaba também essa prática. Preservar a cultura passa necessariamente por preservar o território.”
Para Magno, a crise climática também é resultado de mudanças culturais marcadas pelo consumo desenfreado e pela ruptura das relações entre a sociedade e a natureza. Ao mesmo tempo, muitas vivências culturais do Semiárido caminham na direção oposta: valorizam o uso coletivo dos recursos, a convivência com os ciclos naturais e a proteção da vegetação nativa. Defender essa cultura é, para ele, uma estratégia de adaptação climática.
Foi esse elo entre cultura, território e clima que, segundo Magno, deu identidade à segunda edição da Climate Week. Dos painéis realizados no Recife às oficinas, passando pelas visitas de campo, a programação procurou mostrar que o Semiárido não é apenas um lugar onde as mudanças climáticas produzem impactos. É também um lugar onde se encontram as respostas.