terça-feira, outubro 4, 2022
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Aspectos de uma obra: O feminismo negro africano de Chimamanda Adiche

Chimamanda Ngozi Adiche é uma das maiores referências da literatura mundial contemporânea(1), escritora nigeriana que pode ser inserida na tradição literária de seu país(2) em desenvolver narrativas que para além de uma estilística puramente artística, que acabam por refletir e problematizar as tensões, os conflitos, as interações, as complexidades e potencialidades da Nigéria. Tradição esta que perpassa as obras de autorias tão díspares, mas que mesmo por isso acabam por nos fornecer um cenário amplo, diverso e pulsante da sociedade nigeriana ao longo das últimas décadas, desde – pelo menos – seu processo de resistência e libertação anticolonial, até as divergências políticas internas, baseadas numa dicotomia entre um fervor revolucionário radical e uma sociedade militarizada de castas, mediadas por um – distópico? – nacionalismo africano, visando a construção de uma Nigéria moderna e contemporânea, inserida ao cenário político e econômico mundial.

Em outras palavras, literatura na Nigéria não é “apenas” uma forma de arte, uma produção-expressão cultural focada em si e por si, mas interage e se constituí enquanto consequência das interações e disputas culturais, políticas e econômicas do mundo a sua volta. Não é apolítica, e por esse sentido, não é alienada, mas reflexo direto das “coisas de seu tempo”, dos “sentidos de sua época”. É uma expressão-manifestação artística, literária, política de fato, mas não panfletária que reflete como os seus autores reinterpretam as realidades em que se encontram inseridos, para à partir delas, desenvolver suas autorias narrativas, suas imagéticas.

Adiche, membro da cultura Igbo, é oriunda e representante dessa tradição nigeriana, podendo a sua obra ser definida, muito a grosso modo, em vista da qualidade e exuberância da mesma, enquanto produção literária que utiliza fatos históricos e políticos da Nigéria, mesclado a experiências pessoais ou familiares e laços ancestrais, para construir suas narrativas lúdicas, mas ao mesmo tempo socialmente críticas, de recorte feminista africana, de igualdade de gêneros, antirracista e pró democracia. “A cultura não faz as pessoas. As pessoas fazem a cultura. Se uma humanidade inteira de mulheres não faz parte de nossa cultura, então temos que mudar a nossa cultura.” (ADICHE, 2015b: 48)

O que nos explica a sua condição de se manifestar publicamente para além do papel social de escritora, mas sim enquanto mulher africana, intelectual e feminista negra (ADICHE, 2017; 2015b), portadora de uma refinada e sofisticada perspicácia analítica das questões políticas e históricas que envolvem as interpretações e usos, literalmente, da África ao longo dos séculos e como isso acabou por afetar, e ainda afeta, aos cotidianos e possibilidades transformadoras não só da Nigéria, mas como de todo continente, para superação de suas inequidades sociais. Como isso perpassa a descaracterização dos valores referenciais, fundantes das sociedades africanas, oriundas das etnias locais – por uma perspectiva e problematização que passa ao largo, longe dos estereótipos e deturpações racistas e preconceituosas etnológicas e antropológicas desenvolvidas e perpetuadas através do (neo)colonialismo – de igualdade de gêneros, das especificidades sociais, culturais-religiosas e econômicas das mulheres como sustentação das sociabilidades africanas e dos equilíbrios que ali se faziam (fazem) por constituir. Dessa forma questionando, se opondo e buscando, através de suas produções literárias e reflexões intelectuais, contribuir para a constituição de alternativas inerentes as realidades históricas-políticas que se manifestam no continente, sendo esta a base de seu africano negro feminismo.

A própria postura em se posicionar e fazer ouvir, notar-se enquanto intelectual, figura pública e influente aos debates e rumos políticos de sua sociedade, em defesa das pessoas que considera enquanto suas irmãs e irmãos, é uma ação de denúncia e não aceite a uma normalidade social ocidentalizada imposta as relações sociais nigerianas que acabaram por naturalizar, normatizar e reproduzir cotidianamente a invisibilidade, o apagamento das mulheres nigerianas da história de seu próprio país, enquanto personagens históricas e políticas autônomas, enquanto lideranças e representações de excelência militares, políticas, intelectuais, religiosas e familiares. Em detrimento de uma prevalência patriarcal unilateral, alienada de sua africanidade, reprodutora e copista do machismo e sexismo – primeiramente de origem islâmica (graças a influência comercial e religiosa árabe desde o século IX até meados do século XVI) e posteriormente de origem cristã, com a chegada dos colonizadores europeus as suas terras por volta do século XV – que acabam por atuar enquanto elementos fundantes da dominação europeia em terras de África.

Ao procurar romper as estruturas racistas e alienantes da sociedade nigeriana desse tipo de organização social – um modelo de dominação, com as suas respectivas particularidades, imposto em todas as colônias europeias no continente – Chimamanda Adiche procura colocar em prática os saberes ancestrais, as sapiências e potencialidades já existentes e comuns a normatividade africana, que as mulheres de sua família passaram de geração em geração enquanto forma de resistência a um padrão de dominação imposto tanto ao país, e ao conjunto de diferentes sociedades e culturas, que nele coabitavam, quanto, principalmente, as mulheres nigerianas. Nas suas palestras e escritos não literários, é melhor esmiuçado o quanto a sua obra é radicalmente política, de acordo com os anseios e perspectivas de sua autora. Fazendo-se revelar não existir a mínima condição de complacência da autora com os desmandos e absurdos que se fizeram constituir no decorrer do (neo)colonialismo, mesmo que num primeiro momento possa ficar escondido, pela sutileza de sua escrita, essa característica de sua verve. Por este aspecto, podemos dizer que sua produção intelectual fora da literatura acaba por funcionar até como bússola para uma melhor compreensão das particularidades e potências que acabam por vezes não devidamente destacadas quando suas obras são postas em destaque. Pois em geral, o que se dá é uma ênfase ao fenômeno do extraordinário – “quase” no sentido usual de similaridade ao exotismo – de “algo” fora da normalidade prevista-imposta, de uma autora africana apresentar uma série de romances tão “exóticos” por suas construções literárias e discussões-narrativas “surpreendentes”, como se a excelência de sua escrita fosse algo incomum, quando não impossível de ser atingido por ela, devido a sua condição humana de mulher negra e africana.

Uma condição de discriminação e preconceito ao qual a escritora já vivenciava antes de sua inserção ao cenário literário internacional, pois tal premissa já se apresentava como barreira a ser superada na própria Nigéria, enquanto sociedade marginal, colonizada que reproduz os valores e ideário conservador, machista e racista oriundas da Europa. Mas, influenciada, empoderada pela consciência de sua condição de mulher africana e feminista pela história de vida da sua bisavó – “Ela resistiu, protestou, falou alto quando se viu privada de espaço e acesso por ser do sexo feminino. Ela não conhecia a palavra ‘feminista’. Mas nem por isso ela não era uma. Mais mulheres deveriam reivindicar essa palavra” (ADICHE, 2015b: 49) – e de sua tia Chinwe – que lhe influenciou em sua decisão de “viver minha condição de mulher com toda sua glória e complexidade. De me negar a que falassem ‘porque você é mulher’ como razão válida para qualquer coisa. De me esforçar para ser a pessoa mais sincera e humana possível, mas sem nunca renunciar a mim mesma para buscar o aplauso do mundo.” (ADICHE, 2015a) – Adiche tomou como práxis combater e destruir o sexismo e racismo de maneira direta, sem jargões complicados, para numa linguagem direta se fazer melhor compreender e dialogar com as complexidades e diferentes perspectivas que formam e caracterizam o viver em sociedade. Condizente com a característica africana de buscar conviver e equilibrar as diferenças para construir um bem comum a todos, que se faz presente em sua práxis política ao afirmar que seu feminismo não é excludente ou sectário aos homens, mas sim forma de reeducar os mesmos e libertá-los de sua condição alienante, que o feminismo é também emancipatório e libertário para os homens entrarem em contato com a sua verdadeira essência humana, de igualdade e paridade. Em outras palavras, para Chimamanda não há liberdade africana sem feminismo, não há humanidade, sem o “nós” sentido e vivido plenamente, sem o feminismo para ambos os gêneros, e que por isso o mesmo, é inerente – independente de sua denominação – as filosofias e ancestralidades africanas. Dessa forma realizando um alargamento do conceito de feminismo, que perpassa as próprias noções de feminilidades e masculinidades a que estamos tradicionalmente submetidos e acabamos por reproduzir e defender, por vezes, de maneira involuntária.

“Perdemos muito tempo ensinando as meninas a se preocupar com o que os meninos pensam delas. Mas o oposto não acontece. Não ensinamos os meninos a se preocupar em ser ‘benquistos’. Se, por um lado, perdermos muito tempo dizendo às meninas que elas não podem sentir raiva ou ser agressivas ou duras, por outro elogiamos ou perdoamos os meninos pelas mesmas razões.” (ADICHE, 2017b: 27)

O que gera um fortalecimento de um sistema que acaba por nos limitar e negar enquanto pessoas, enquanto seres humanos.

“A questão de gênero é importante em qualquer canto do mundo. É importante que comecemos a planejar e sonhar um mundo diferente. Um mundo mais justo. Um mundo de homens mais felizes e mulheres mais felizes, mais autênticos consigo mesmos. E é assim que devemos começar: precisamos criar nossas filhas de uma maneira diferente. Também presamos criar nossos filhos de uma maneira diferente” (ADICHE, 2017b: 28)

Através de suas escritas e reflexões Chimamanda tensiona e coloca em xeque até mesmo o quanto o (neo)colonialismo afetou – e ainda afeta – as percepções de que o mundo possuí da África em geral (ADICHE, 2019), usando a sua produção literária e intelectual para romper com essa “normatividade”, como que reafirmando publicamente de que sua obra não é resultante de uma excepcionalidade, mas sim decorrente de uma sociedade efervescente em suas diversidades culturais e sociais, pluralidades e diferenças, tão rica e complexa culturalmente quanto qualquer sociedade “ocidental”, em vista que ela é uma sociedade humana, só havendo motivo para essa perpetuação de espanto, de surpresa, ante as diversas e variadas experiências e manifestações que dali se originam, se eu não as considero, ou não as reconheço, enquanto produzidas por seres humanos. O que, para Chimamanda demonstra o quanto o racismo se faz presente aos destinos dos africanos e seus descendentes pelo mundo, sendo sua obra oposição sistêmica e consciente contra esta realidade. Na esperança de vir a influenciar as gerações vindouras africanas, para que desde jovens tomem ciência de tal realidade e a partir daí possam contribuir para a sua superação e transformação desta em nova sociedade, em nova organização social livre dos elementos ideológicos colonialistas que acabam por em risco os seus destinos e vivências. Uma práxis intelectual duplamente insurgente, por desafiar um tradicionalismo patriarcal em que se normaliza uma inferioridade social estrutural em que não se concebe a possibilidade de uma mulher se afirmar enquanto ser humano sem seguir os padrões sociais hegemônicos vigentes, muito menos por buscar afirmar a sua condição humana através da luta de gênero por um viés africanista, deocolonialista, enquanto escritora e ativista intelectual-política.

“[…]decidi parar de me desculpar por ser feminina. E quero ser respeitada por minha feminilidade. Porque eu mereço. Gosto de política e história, e adoro uma conversa boa, produtiva. Sou feminina. Sou feliz por ser feminina. Gosto de salto alto e de variar os batons. É bom receber elogios, seja de homens, seja de mulheres (cá entre nós, prefiro ser elogiada por mulheres elegantes). Mas com frequência uso roupas que os homens não gostam ou não “entendem”. Uso essas roupas porque me sinto bem nelas. O ‘olhar masculino’, como determinante das escolhas da minha vida, não me interessa.” (ADICHE, 2015b: 42).

Autoria que também acaba tornando-se referência antirracista, quando inserida ao contexto afrodiaspórico contemporâneo, em que sua obra literária e política ganham novas potências e camadas interpretativas através das diferentes e diversificadas recepções das populações afrodescendentes nas Américas e Europa. Ao expor a existência de uma África plural em suas realidades, diversidades e potencialidades, que rompe com os perigos e preconceitos gerados pelo conceito de “história única” que sempre acaba por gerar concepções e ideários negativos e depreciativos em relação ao continente africano e suas populações locais ou diaspóricas. Em outras palavras, a obra de Adiche, ao desenvolver produção intelectual-política de recorte feminista negra e africana, também constituí nova forma de se perceber, valorizar e destacar a existência de formas de historicidades que fogem a “normatividade intelectual europeia”, como que rompendo o véu de invisibilidade que é jogado sobre a condição humana que também se faz inerente as razões e vivências de origem afro, que é também comum ao as populações africanas. Sendo sua obra uma forma, literária ou não, de valorização política e de resgate histórico, pois:

“As histórias importam. Muitas histórias importam. As histórias foram usadas para espoliar e caluniar, mas também podem ser usadas para empoderar e humanizar. Elas podem despedaçar a dignidade de um povo, mas também podem reparar essa dignidade despedaçada.” (ADICHE, 2019: 32)

A obra de Chimamanda Adiche, em seu conjunto, é exemplo de obra socialmente consciente e historicamente compromissada em contribuir para a alteração da realidade-mundo que a cerca e caracteriza enquanto tal, por esse recorte visando a construção de uma sociedade baseada em igualdade de gêneros, justiça social e democracia radical, tendo como referências, para além de valores filosóficos-morais europeus, os modelos de organizações ancestrais africanas e suas centralidades sociais organizativas de viés matriarcal, enquanto poder referencial e moderador para novas sociabilidades contemporâneas que rompam as influências, os efeitos do patriarcado e do racismo aos países e povos da África, além das populações afrodispóricas (ADICHE, 2019).

Nota de Rodapé:

(1) Obra literária constituída, até o momento, pelos romances “No seu pescoço” (2017), “Meio Sol Amarelo” (2017), “Americanah” (2014) e “Hibisco Roxo” (2011).

(2) Tradição literária-intelectual nigeriana que têm com exemplos dessa forma de autoria ACHEBE, Chinua (1930-2013); EMECHETA, Buchi (1944-2017); NWAPA, Flora (1931-1997) e SOYIWKA, Wole.

Referências Bibliográficas:

ADICHE, CHIMAMANDA NGOZI. O perigo de uma história única. Tradução: ROMEU, Julia. 1. Edição – São Paulo: Companhia das Letras, 2019.

ADICHE, CHIMAMANDA NGOZI. Para educar crianças feministas: um manifesto. Tradução: BOTTMANN, Denise. 1. Edição – São Paulo: Companhia das Letras, 2017.

ADICHE, CHIMAMANDA NGOZI. Chimamanda Ngozi Adichie: Crônica de um grande erro. EL PAÍS (31/12/2015). In: https://brasil.elpais.com/brasil/2015/11/30/cultura/1448903356_819239.html, acessado em 06/11/2020.

ADICHE, CHIMAMANDA NGOZI. Sejamos todos feministas. Tradução: BAUM, Christina. 1. Edição – São Paulo: Companhia das Letras, 2015b.

 

Christian Ribeiro (Arquivo Pessoal)

 

Christian Ribeiro, mestre em Urbanismo, professor de Sociologia da SEDUC-SP, doutorando
em Sociologia pelo IFCH-UNICAMP, pesquisador das áreas de negritudes, movimentos negros
e pensamento negro no Brasil.

 

** ESTE ARTIGO É DE AUTORIA DE COLABORADORES OU ARTICULISTAS DO PORTAL GELEDÉS E NÃO REPRESENTA IDEIAS OU OPINIÕES DO VEÍCULO. PORTAL GELEDÉS OFERECE ESPAÇO PARA VOZES DIVERSAS DA ESFERA PÚBLICA, GARANTINDO ASSIM A PLURALIDADE DO DEBATE NA SOCIEDADE. 

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