quarta-feira, setembro 28, 2022
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Atletas brasileiros debatem sobre igualdade racial no esporte

O COB (Comitê Olímpico do Brasil) veiculou pelas redes sociais, nesta quarta-feira (19), o 11º painel online e, desta vez, a temática foi a igualdade racial no esporte. O encontro reuniu Etiene Medeiros, da natação, Aline Silva, do wrestling, Ygor Coelho, do badminton, e o ex-lutador Diogo Silva, do taekwondo. A conversa foi mediada pela jornalista e escritora Eliana Alves Cruz e, além do racismo, abordou outros tipos de preconceitos.

Etiene Medeiros comentou sobre a questão racial na natação (YouTube/Time Brasil)

Etiene Medeiros e o preconceito

“Só me descobri como mulher negra de uns três ou quatro anos para cá. A natação não é um esporte para negros, não só no Brasil, mas no mundo inteiro. Não é acessível no nosso país, não chega às periferias. O meu irmão (Jamison) é negro e a minha representatividade era ele. Quando mais novos, os únicos negros da nossa equipe eram eu e ele. Tinha outro negro em outra equipe, mas dava para contar nos dedos”, disse Etiene Medeiros.

“O preconceito está presente. Seja ele por ser mulher, negra ou nordestina. E a fala que escutamos por aí de que piscina não é para preto não é de hoje. O preconceito está em brincadeiras como, por exemplo, na questão do racismo quando dizem: ‘a coisa está ficando preta’. Existe também o menosprezo com a língua do nordestino e a forma pejorativa quando falam que determinada coisa é de ‘baiano’. É um desafio batalhar contra isso todos os dias”, completou Etiene Medeiros, que é recordista mundial dos 50 m costas em piscina curta.

Aline Silva, do wrestling, contou histórias sobre o racismo (YouTube/Time Brasil)

Aline Silva: relação racismo e meritocracia

O bate-papo sobre igualdade racial no esporte apresentou outros momentos relevantes e um deles foi quando Aline Silva, do wrestling, recordou sua infância e os obstáculos que precisou superar para se tornar uma atleta de alto rendimento. “Fui criada por uma mulher autônoma negra. No esporte, eu levei um tempo pra perceber o quanto o impacto dessa estrutura racista fazia a diferença no meu rendimento”, comentou a lutadora.

“Tenho orgulho de ser a única pessoa no Brasil a ter medalha em mundiais no wrestling por ser negra e mulher e, também, por mostrar, mais uma vez, o quanto essa estrutura racista prejudica o esporte e a todos. Esse meu orgulho, às vezes, fica escondido porque sou contra a meritocracia. Muitas vezes me vejo não tão orgulhosa dos meus feitos por acreditar que não foram só por méritos meus. Eu dei sorte por ter tido oportunidades”, destacou Aline Silva.

“O esporte me salvou”

Durante o encontro, Aline Silva contou sobre o momento em que passou por um coma alcoólico na adolescência. “O esporte me salvou. Essa é a verdade. Por minha mãe estar sempre trabalhando, eu acabei sendo muito autônoma e algumas vezes. Tive que me virar em casa, fazer minha comida e cuidar de mim. Sempre fui grandona e me achava adulta, por isso, meus amigos eram mais velhos fui aprendendo o que não deve”, contou

“Eu cabulava aula e passei a experimentar droga, bebida, e fumar cigarro. A minha mãe não fazia ideia disso. Até que um dia ela chegou do trabalho e não me encontrou em casa. Em uma dessas noites que estava aprontando na rua eu tive um coma alcoólico. O esporte transformou minha vida”, concluiu Aline Silva, vice-campeã mundial de wrestling em 2014.

Ygor Coelho, do badminton, relatou seu começo na Dinamarca (YouTube/Time Brasil)

Ygor Coelho: racismo e a falta de oportunidade

Natural do Rio de Janeiro, Ygor Coelho, de 23 anos, disputou os Jogos Olímpicos Rio-2016 e se tornou o primeiro atleta brasileiro do badminton a disputar uma Olimpíada. Além disso, o jogador conquistou a medalha de ouro nos Jogos Pan-Americanos de Lima-2019. Para competir com os melhores da modalidade, Ygor Coelho mora na Dinamarca desde 2016 e sentiu que, no começo, os olhares eram diferentes em relação a ele.

“No começo, por ser negro e brasileiro, eu sentia que eles achavam estranho um brasileiro negro jogar badminton. Mas isso me dava mais energia e vontade de mostrar meu valor. Acho que, por isso, consegui me reinventar e ser o que sou hoje. Eu queria provar diariamente que consigo e que também sei jogar. Falta oportunidade ao negro e, quando a chance aparece, ele também consegue. Existe uma desigualdade de oportunidade”, afirmou Ygor Coelho, no debate sobre igualdade racial no esporte.

Diogo Silva: racismo e representatividade

Diogo Silva destacou a questão da representatividade (YouTube/Time Brasil)

Ex-atleta de taekwondo, Diogo Silva foi medalha de ouro nos Jogos Pan-Americanos Rio-2007 e terminou em quarto lugar nas Olimpíadas de Atenas-2004 e Londres-2012. “Eu não tinha representatividade quando era criança. Eu entro na modalidade e tenho que quebrar inúmeros esteriótipos e tabus. Minha maior dificuldade foi o racismo, pois ele está implicado em vários segmentos, está no meu dia a dia. O racismo não está só nas violências física e verbais, mas também nas imposições”, destacou.

“Ao crescer percebi que o racismo foi crescendo e se modernizando. Precisamos parar de querer ser aceito. Quando paramos de querer ser aceito criamos a nossa própria narrativa. Vamos romper com isso e pararmos de ser aceitos. Nós somos potentes, brilhantes e é assim que vamos conquistar as coisas”, concluiu Diogo Silva.

COB e a igualdade racial no esporte

Com essa live, o COB iniciou as ações para o lançamento do Programa de Prevenção e Enfrentamento do Racismo no Esporte. O primeiro encontro recebeu Etiene Medeiros, Aline Silva, Ygor Coelho e Diogo Silva. Na próxima segunda-feira (24), as ações continuam com mais uma live nas redes sociais da entidade.

O COB reunirá Djamila Ribeiro, escritora, mestre em Filosofia Política pela Unifesp e referência na luta contra a discriminação racial; e a atleta olímpica do basquete Iziane Marques, que esteve nas Olimpíadas de Atenas-2004 e Rio-2016. As duas abordarão o tema: “Racismo e Esporte: Prevenção e Enfrentamento”.

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