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Autocuidado e bem viver: Algo muito distante das periferias refém de Salvador- Bahia

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Tenho ouvido tanta gente falando de autocuidado para pessoas negras que isto tem me feito questionar, o que seria esse autocuidado para pessoas que passam o dia INTEIRO sob a mira de balas de autores diversos?   

Salvador virou uma zona de guerra urbana, onde pessoas com cada vez menos idade tem sido protagonistas das situações mais desumanas e absurdas em suas comunidades. Gerações inteiras de pessoas negras têm crescido ou envelhecido sob constante pressão emocional por conta da ausência do uso de inteligência policial na segurança pública. Bairros minúsculos que com ações estratégicas teriam suas situações de violências eliminadas, seguem com moradores dia e noite sendo reféns do Estado e do tráfico em suas comunidades, sem que NENHUMA SOLUÇÃO seja tomada.

Afinal, em quem confiar quando em qualquer conversa de cinco minutos com os residentes nas comunidades você sabe que a “boca” de tal lugar é dos ‘púliça’, a de tal local é dos políticos e suas diversas vertentes, como relatam moradores em diversos bairros sob ameaça constante da insegurança.  

Sim, como confiar em uma polícia cuja corregedoria que julga ações absurdas, é a mesma que absolve com as punições mais vergonhosas? Ter uma bancada da bala nas esferas partidárias eleita pelo voto das comunidades que vivem diariamente como alvo, é extremamente compreensível quando se passa uma semana nestas comunidades. Não se tem um minuto de sossego, a qualquer instante você pode estar descarregando um carro com compras, e no outro ser surpreendido com tiros seja da polícia em busca de criminosos ou os seus próprios comparsas querendo tomar o “ponto” como tive o horror de vivenciar esta semana. É desesperador ver helicópteros em sua cabeça, enquanto tenta seguir sua vida normalmente entre pessoas armadas tentando se esconder. Para as comunidades de periferia, autocuidado é conseguir se manter vivo em um estado e município que tem falhado há séculos e promovido suas diversas pandemias sobre esses, como bem nos lembra a socióloga Vilma Reis. 

Conviver com a pandemia do genocídio negro, com a omissão do Estado, com o descaso e ausência de políticas públicas que de fato promovam o bem viver, e atualmente o Coronavírus, são adoecimentos constantes que não se resolvem sem um olhar cuidadoso sobre o que estamos chamado de intervenção do Estado na segurança pública e na participação social. 

Estamos falando há mais de oito anos de políticas públicas que têm contribuído para acabar de vez com qualquer motivação dos jovens que viam a escola como um ambiente de alteração de realidade.  O discurso “uma EDUCAÇÃO PÚBLICA E DE QUALIDADE” é algo extremamente distante de nossas comunidades e dos sonhos dos profissionais de educação comprometidos.

Só pode ser uma piada perversa e de mal gosto, determinados nomes falarem sobre formas de promover uma “educação inclusiva”, quando o Estado não deu conta de cumprir tarefas básicas na educação como manter o que encontrou. Quer falar de cidade apartada? Passe uma semana de maneira anônima em bairros como Saramandaia, Pernambués, Cabula ou qualquer outro, e tenha o mesmo sentimento que temos quando somos obrigados a ficar trancados em casa por conta de um modelo de segurança pública que não dá conta de resolver esse problema por meio de um trabalho real nas comunidades que reúna arte e cultura, de forma que o uso da força que coloca em risco cidadãos e os próprios policiais militares, não seja a única forma de atuação. 

Passe uma semana em bairros como Saramandaia onde iluminação pública é lenda, mas as taxas de iluminação e esgoto é uma realidade que constrangeria qualquer pessoa.  Como dialogar e falar de bem viver em comunidades onde os fios de energia que vão para as casas se entrelaçam nos da internet, e quando chove das caixas de luz saem faíscas que o vento mais forte é capaz de produzir tragédias gigantescas nestes locais? Autocuidado para população negra começa por tornar as comunidades dos municípios e estado lugares de moradia humanizada, com equipamentos públicos e educacionais que tragam de volta a esperança de que a educação altera vidas. 

É tornando possível morar em comunidades populares, com os mesmos princípios de respeito de quem não passa cinco minutos sem iluminação pública, a exemplo da Graça, Barra e tantos outros bairros considerados de pessoas brancas. Metade dos moradores de comunidade popular tem acesso e não usam drogas, então por que eles que não alimentam esse mercado são os que mais sofrem o efeito dos bairros nobres consumidores? É preciso trazer de volta um mínimo de respeito e dignidade para quem mora nas periferias de Salvador e paga as mesmas taxas de quem mora em áreas consideradas nobres e com direitos.  Para falar de autocuidado para população negra, é preciso antes de tudo falar de bem viver. 

Falar de bem viver em comunidades que pagam os custos dos bairros consumidores, é algo muito distante destas regiões empobrecidas, mas que enriquece opressores e usurpadores sociais como se ainda fossemos uma capitania hereditária ou colônia de Portugal.

 

Luciane Reis é publicitária, idealizadora do Mercafro, Bolsista do Programa Marielle Franco de lideranças negras, mestranda em Gestão Pública – UFBA e Conselheira do Olodum. Instagram @lucianereys


** ESTE ARTIGO É DE AUTORIA DE COLABORADORES OU ARTICULISTAS DO PORTAL GELEDÉS E NÃO REPRESENTA IDEIAS OU OPINIÕES DO VEÍCULO. PORTAL GELEDÉS OFERECE ESPAÇO PARA VOZES DIVERSAS DA ESFERA PÚBLICA, GARANTINDO ASSIM A PLURALIDADE DO DEBATE NA SOCIEDADE. 

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