terça-feira, dezembro 6, 2022
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Autorias negras: por que estudá-las?

Gostaria de iniciar este texto com uma questão: por quê estudar as autorias negras? Em primeiro lugar, é preciso tentar definir o que seria autoria negra. Se for circunscrito na geografia e na tradição, parece relacionar-se a todo aquele ou aquela nascido/a em África, compartilhando um conjunto de valores e estilos de vida. Ainda que se considere este aspecto – e é bom que se diga isso –, a resposta centrada na geografia e tradição parece ser uma armadilha, considerando que as pessoas negras estão espalhadas pelo mundo e cultivam diferentes costumes, culturas e modos de vida social, configurando o que posso chamar de negritudes abertas, multifacetadas e globais. Logo, as autorias negras têm uma profunda faceta transcontinental, extrapolando África e ligando-se com experiências de gente negra ao redor do mundo, nos muitos pontos da diáspora.

Sendo assim, parece ser uma novidade dizer que o próprio Ocidente é uma experiência impregnada por valores africanos, como diria o escritor afro-americano Richard Wright. Ou ainda, quando Paul Gilroy afirma ser o Atlântico Negro uma geo-política e geo-cultura elaborada no Ocidente! Lembrando a música “Milagres do Povo” de Caetano Veloso, na qual este grande artista brasileiro considera ser o negro um criador de milagres no coração do extremo ocidente, então a provocação de Richard Wright e as assertivas de Paul Gilroy não parecem exageradas. Mas é bom dizer que se trata de uma faceta negra, e africana, forjada no Ocidente.

Pesquisas recentes na área de História, e em outros campos das Humanidades, têm nos informado, por exemplo, sobre a autoria africana na filosofia grega pré-socrática, e que teria tido na Etiópia um espaço de sua irradiação também. Neste mesmo compasso, acerca da presença africana na construção do Ocidente, Valentim Mudimbe nos ensina que o pensamento cristão dos primeiros séculos estava fortemente impregnado pelas ideias de autores/intelectuais do norte da África: Tertuliano, Minúcio, Félix, Cipriano, Comodiano, Arnóbio, Lactâncio e, ainda, Santo Agostinho. Aqui, as autorias no contexto da filosofia etíope e desses pensadores cristãos estavam circunscritas à geografia (África), não à cor da pele.

Na literatura e na música da Europa moderna, por exemplo, as autorias negras assumem concretude maior nas trajetórias de duas célebres figuras, já pelo século XIX: George Polgreen Bridgetower e Alexandre Dumas. Nestes dois casos aqui destacados, a autoria está relacionada à cor da pele de ambos, não mais à geografia, uma vez que eles eram homens negros ainda que fossem também europeus – Bridgetower era polonês e Dumas era francês. Ou seja, percebe-se uma mudança aqui, na percepção das autorias negras no Ocidente, muito em vista dos impactos da escravização moderna e da estruturação do racismo em perspectiva global.

Os séculos de escravismo (XV ao XIX) e as migrações africanas a partir do século XX configuraram processos de penetração negra nos espaços ocidentais, em distintas proporções. As migrações contemporâneas que partiram de África fomentaram outro fenômeno. Levas massivas de africanos e africanas adentrando em territórios euro-americanos refabricou a Diáspora, mas em outros moldes, possibilitando demarcar e construir novas utopias (e realidades) no Ocidente desde estilos de vida afrodiaspóricos. Uma discrepância sociocultural radicalmente negra aos modelos hegemônicos brancos, contestadora da estrutura racista que tenta excluir e marginalizar a população negra, e cujas autorias têm expressado novas agendas de luta anti-colonialista.

Entretanto, ainda que eu tenha até aqui instigado a pensar as autorias negras sob o prisma de uma História em conexão, traçando relações entre a África e as outras partes do mundo, nos é possível – e muito importante – pensar nas (re)criações endógenas do próprio continente negro.

Voltando-me para a potente historiografia africana das últimas décadas, por exemplo, destaco os ensinamentos de Cheikh Anta Diop, Joseph Ki-Zerbo, Elikia M´Bokolo e de outros intelectuais sobre os protagonismos de africanos e africanas e sobre um modo de enxergar a História desde o próprio continente. Tomados pela perspectiva da descolonização teórica nos estudos africanos, esses autores estabeleceram um ajuste de contas (necessário) com a memória da África. Outras temporalidades e cronologias foram formuladas a partir de um diálogo com as diversas historicidades das culturas africanas. Da antiguidade à contemporaneidade, uma variada gama de estados, reinos, cidades e sociedades, urbanas e agrárias, configuraram histórias plurais e multifacetadas do/no continente africano.

Elikia M´Bokolo. BUALA – seção “Cara a Cara”, 11 de março de 2016. Fonte: site do blog.

Diante disso, uma nova indagação se coloca: sob o prisma da escrita, seria a autoria uma experiência relacionada à assinatura ou então a uma cultura livresca? Falar em autorias negras conduz, inevitavelmente, o nosso olhar a pensar apenas na dimensão do registro gráfico. A partir desse horizonte, Valentin Mudimbe indica que os primeiros autores africanos são dos séculos VI e VII – respectivamente Antar (550-615) e Abu Dulama Ibn al-Djaun (720-777). No entanto, sob a influência dos estudos africanos e afrodiaspóricos, críticos do colonialismo, pode-se conceber a oralidade como uma modalidade de saber preciosa para a fundação e organização das sociedades africanas. Para o mesmo Mudimbe, essa “experiência oral tradicional dos africanos negros […] remonta à própria fundação das comunidades humanas”. Algo que Anthony Appiah sugere fortemente ao pensar ser a oralidade um tipo de conhecimento muito antigo e duradouro.

Ao conceber a oralidade como uma forma de autoria negra, seria razoável avalizar as artes, danças e músicas nesse conjunto? Se seguirmos a sugestão do ensaísta negro Édouard Glissant, tudo leva a crer que sim. Foi este autor quem afirmou ser a dança e a música as expressões mais significativas da vida negra nas Américas, substitutas da retórica valorizada no/para o Ocidente. Assim, foi pela via das artes que nós, negros e negras, forçamos nossa entrada na modernidade, configurando estilos de vida muito específicos na contramão do colonialismo europeu.

Tenho dito que a música pode ser considerada o meio mais poderoso e vigoroso de afirmação de nossa dignidade humana na história da Diáspora. O filósofo Cornel West pontua que a música e os esportes nos impediram de “descer até os esgotos” e sermos invisibilizados, ainda que ideologias supremacistas e nazistas proponham a escuridão como o único “mundo” possível para a gente negra. O escritor James Baldwin nos ensina que não foi pela via do rancor que afro-americanos construíram suas vidas. Se por esta via fosse, teriam muito provavelmente desaparecido. No caso do Brasil, o escritor e capoeirista Muniz Sodré concluiu, ao estudar os modos de vida dos iorubás, que a base do seu pensamento seria a alegria. Sendo assim, a alegria é uma forma de autoria negra?

Como se pode notar, até aqui, são muitas as portas e caminhos que levam à autoria negra. Diante dessa complexidade, qual o melhor caminho? Talvez, na minha opinião, seja aquele dos movimentos negros do século XX. Entenda por movimento uma rede de pessoas estabelecendo formas de interlocução e de luta coletiva, sendo aqui os negros e negras protagonistas na formulação de ações críticas ao racismo e responsáveis por narrativas de emancipação da população negra. Sendo assim, acompanho Kabengele Munanga: o negro/a sai de uma condição de objeto e projeta-se como sujeito, de fato, da produção de conhecimento.

Muitas foram as ações de gente negra nesse circuito afrodiaspórico, no campo das artes, do ativismo político e da cultura: Harlem Renascence, Negrismo cubano, Indigenismo haitiano, Negritude, Panafricanismo e movimentos negros no Brasil. Em linhas gerais, esses movimentos artísticos e político-culturais fizeram renascer a ideia de África e de “negro/a” como potência e presença. Negro como humano e sujeito de/da História, numa perspectiva totalmente avessa a visão colonialista. O debate inaugurado por estes movimentos se arrastou ao longo do século XX e continuou a tangenciar o debate sobre Negritude no século XXI. Sob esse prisma, é negro todo aquele que reivindica para si essa identidade. Portanto, a negritude é uma reivindicação política!

Muito se fala do esgotamento dessa reivindicação, pautada como um “identitarismo”, considerando a pessoa negra como “prisioneira” de sua própria cor, quando esta deveria reivindicar sua humanidade. Os precursores da Negritude – Leopold Senghor, Aimé Césaire e Leon Damas – afirmavam ser tal ideia algo provisório, e finito. O que importa mesmo é sua condição humana, já intrínseca ao seu Ser. Poderia se duvidar desse meu apego ao substantivo “negro”. De fato, não é algo que traduz a humanidade dos povos de pele escura e marrom, mas a afirmação da negritude no contexto pós-colonial ainda se fazia necessária. Como enfatizado por Eduardo de Assis Duarte: “Em 1987, por ocasião da Primeira Conferência Hemisférica dos Povos Negros da Diáspora – Negritude, Etnicidade e Culturas Negras nas Américas, realizada em Miami, Aimé Césaire fez um balanço do movimento do qual foi um dos fundadores. Em seu conhecido Discurso sobre a Negritude, configura o empreendimento como uma “reflexão sobre o destino do homem negro no mundo moderno” e, como tal, “uma das formas de humanismo criadas pela história”. Esse gesto propicia inicialmente uma “tomada de consciência da diferença, como memória, como fidelidade e como solidariedade””.

Nesse sentido, podemos considerar que as autorias negras estão articuladas a esse debate da Negritude, atribuindo assim protagonismo histórico a negros e negras, no presente e no passado, em qualquer continente e cultura, seja em África, seja nos muitos pontos da Diáspora. Diante desse percurso, ao ancorar agora na realidade brasileira, gostaria de enfatizar sobre o que considero ser um dos paradigmas das autorias negras em nossa contemporaneidade: o Movimento Negro. Olhando em retrospectiva, observa-se uma multifacetada movimentação negra ao longo do século XX. No entanto, considero ser no período específico das décadas de 1970 e 1980, considerando haver uma virada de página do movimento negro brasileiro. Uma geração de ativistas e intelectuais engajados na crítica da desigualdade racial e da violência contra a população negra no Brasil. É a partir dessa agenda que podemos considerar o surgimento, em 1978, do Movimento Negro Unificado Contra o Racismo e a Discriminação Racial – MNU, na cidade de São Paulo.

Lélia Gonzalez. Fotografia por Cézar Loureiro, antes de 1994.(Foto: Cezar Louceiro / Reprodução)

Interessa-me aqui reforçar a narrativa questionadora que o MNU inaugurou naquele momento – meados dos anos 1970 – e que ainda ecoa nos dias de hoje. Uma autoria negra coletiva (obra de ativistas, professores, pesquisadores, políticos e artistas negros e negras) que aponta para um projeto inconcluso de Abolição e o enraizamento do racismo, cujos desdobramentos impuseram a nós, gente negra, uma condição de subalternidade que tem sido fortemente questionada. Essa interpretação ressoa de muitas vozes potentes: Beatriz Nascimento, Lélia Gonzalez, Abdias do Nascimento, Milton Barbosa (Miltão do MNU), Gevanilda Santos, Luiza Bairros, Sueli Carneiro e tantos outros e outras. Esses atores, em sua maioria ligados aos movimentos sociais, fizeram agonizar a ideia de um Brasil mestiço, harmônico e sem racismo. Questionaram a ideologia da democracia racial, porque essa obra nunca passou de um mito, ainda que se almejasse chegar a ela. E fundaram outra perspectiva, deslocando-se do prisma eurocêntrico do lusotropicalismo.

Alguns paralelos podem ser feitos com os EUA. Lá, segundo expõe Isabel Wilkerrson, existe uma espécie de “sistema de casta” que naturalizou o lugar dos negros na sociedade, desde uma condição intrínseca de subalternidade. Para a escritora, esse sistema criou raízes nos Estados Unidos desde o século XVIII, sendo a escravidão a “pedra de toque” desse modelo. Impossível não pensar no Brasil, quando a exclusão da população negra se revela numa situação semelhante, ainda que com uma História dessemelhante. Tal sistema colou na pele negra os estigmas da inferioridade, servilismo, preguiça, irresponsabilidade. Estigmatizado pela sua aparência, os negros e as negras no Brasil tiveram que tocar suas vidas no pós-abolição, muitos e muitas contando com a própria sorte. Emparedados pelo racismo, eles foram empurrados para a miséria, o abandono, o esquecimento e a degradação social.

As perspectivas e questionamentos daquela geração do movimento negro brasileiro ainda se fazem presentes hoje em dia. Podemos considerar alguns avanços sociais importantes – a criação e institucionalidade da Fundação Palmares, em 1988; a eleição de pessoas negras para cargos públicos desde a redemocratização (seja em nível municipal, estadual ou federal); a Lei 10.639/2003, que obriga o ensino de História da África e História e Cultura Afro-brasileira; a aprovação do Estatuto da Igualdade Racial, em 2010; a Lei de Cotas aprovada em 2012 e 2014 etc. –, mas os desafios continuam enormes quando se consultam dados sobre renda, educação, trabalho e moradia. A dívida com a população negra ainda permanece. Logo, ressalto, a segunda abolição é um projeto urgente! Para um país com imensa maioria negra, esse acerto de contas significa não só justiça social e histórica, mas uma ampla política de reparação. Essa é a nova utopia negra no século XXI, que reverbera desde as autorias negras, suas reflexões e narrativas questionadoras da realidade contemporânea. Uma utopia construída a muitas mãos!

Assista ao vídeo do historiador Amailton Magno Azevedo no Acervo Cultne sobre este artigo:

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Nossas Histórias na Sala de Aula

O conteúdo desse texto atende ao previsto na Base Nacional Comum Curricular (BNCC): 

Ensino Fundamental: EF09HI03 (9º ano: Identificar os mecanismos de inserção dos negros na sociedade brasileira pós-abolição e avaliar os seus resultados); EF09HI04 (9º ano: Discutir a importância da participação da população negra na formação econômica, política e social do Brasil).

Ensino Médio: EM13CHS102 (Identificar, analisar e discutir as circunstâncias históricas, geográficas, políticas, econômicas, sociais, ambientais e culturais de matrizes conceituais (etnocentrismo, racismo, evolução, modernidade, cooperativismo/desenvolvimento etc.), avaliando criticamente seu significado histórico e comparando-as a narrativas que contemplem outros agentes e discursos).

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