terça-feira, dezembro 6, 2022
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Cotidiano, ofícios e lutas negras no Rio de Janeiro do Oitocentos

Uma pergunta que povoou minha pesquisa de mestrado pode parecer retórica, mas ainda é muito necessária: quem construiu as cidades escravistas como Rio de Janeiro, Recife, Salvador, Havana e tantas outras? Por meio das investigações que realizei, pude concluir que esses braços eram de pessoas negras, africanos e seus descendentes escravizados nas Américas. A partir disso, busquei analisar a presença desses sujeitos no Rio de Janeiro e os ofícios por eles realizados – como de ferreiro, carpinteiro, marceneiro etc. –, que marcaram as dinâmicas dessa cidade e imprimiram feições negras em sua cultura, tanto material quanto imaterial.

As cidades, vilas e povoações brasileiras formadas ao longo do período de colonização, e expandidas durante o século XIX, são hoje objetos de pesquisa em variadas disciplinas que se debruçam acerca do presente, do passado e do futuro da experiência urbana no Brasil, seja das nossas grandes metrópoles, seja das pequenas e médias cidades. A História, a Arqueologia e os campos do Patrimônio e da Memória buscam, através dos resquícios materiais e imateriais de culturas urbanas, desvelar tempos/cronologias, experiências e expectativas de vida que se acumularam sobre os espaços urbanos, ontem e hoje. Aqui, busco apresentar alguns desses resquícios do passado e suas dimensões no presente que estão marcados nas ruas da cidade do Rio de Janeiro, bem como de outras cidades do “Novo Mundo” que conviveram, durante séculos, com a escravização de povos indígenas e de africanos e seus descendentes.

O Rio de Janeiro, um dos maiores portos de entrada de africanos escravizados ao longo do século XIX, tem profundas marcas desse passado negro oitocentista em sua paisagem urbana e cultura. Ao olharmos para a cultura material legada nas cidades, podemos defini-las enquanto um conjunto de experiências depositadas nas coisas e lugares e também a condição para (re)criar novas práticas sociais, políticas e culturais, como afirmou Milton Santos ao definir o conceito de rugosidades. São práticas que podem nos apontar para tempos históricos e as nuances do passado e revelar questões ainda contemporâneas no desenho urbano e suas muitas dinâmicas. Por isso, devemos considerar a cultura material nos/dos espaços urbanos como produtora de riquezas e parte importante na construção das cidades, nações e estados, bem como auxiliar na investigação de como estes se constituíram, do que foram no passado e dos próprios silêncios da História, aqui especialmente falando da gente negra – livre, liberta e escravizada.

As histórias de oficiais, operários, serventes e tantos outros trabalhadores negros urbanos – fossem eles escravizados, reescravizados, libertos ou livres – apontam para inúmeras violências vivenciadas por estes sujeitos, ligadas ao processo de escravização e ao dito preconceito de cor, através de mazelas acometidas por eles e relacionadas a condições insalubres de trabalho, devido a castigos físicos ou por conta das muitas epidemias, as quais estiveram no cotidiano das pessoas ao longo do Oitocentos, especialmente nos centros urbanos. Nesse período, os surtos de varíola e febre amarela e as doenças causadas por traumas – de fundo reumático e psíquico – acometiam severamente a população do Rio de Janeiro, sobretudo a escravizada. Isso ocorria, em grande medida, devido ao rápido crescimento demográfico causado por movimentos de entrada de africanos escravizados (de forma ilegal após 1831), pela migração interna e pela imigração. Se em 1821, por exemplo, as freguesias urbanas do Rio de Janeiro contavam com 79.321 pessoas, por volta de 1870 o número populacional na cidade mais que duplicou, indo para a casa dos 191.002 habitantes.

Contudo, o Rio de Janeiro enquanto capital do Império do Brasil era também uma cidade negra, cujas rugosidades da presença desses sujeitos impunham novas realidades. Por exemplo, a dinâmica cotidiana na cidade fazia demolir, aos poucos, a instituição do trabalho escravo, como afirmou Sidney Chalhoub. As estratégias e ações eram muitas: por meio da compra da alforria, da possibilidade de reunir pecúlio, de fugas e outras formas de agenciamento da vida cotidiana no espaço urbano. Isso demonstra a possibilidade das pessoas negras, através de lutas suas diárias, terem visibilidade e pautarem demandas políticas e por justiça social. Sobretudo numa sociedade em que a instrução era voltada às elites e vedada aos cativos, de maneira legal; enquanto que para livres e libertos, a escola formal tornava-se um real obstáculo dado o racismo existente. Assim, aprender um ofício foi utilizado estrategicamente pela população negra para conquistar maior autonomia e liberdade durante os Oitocentos.

O trabalho manual era visto como degradante entre as elites. Mas era revestido de outros sentidos para os povos africanos e seus descendentes nas Américas. Por exemplo, o caso dos ferreiros e fundidores de ferro é exemplar sobre os significados que continha a transformação do ferro nas sociedades africanas, para a construção de ferramentas, instrumentos musicais, artefatos religiosos, amuletos etc., produzidos para fins rituais e com uma intencionalidade específica, como afirmou Nilma Accioli em pesquisa recente sobre as culturas religiosas de matriz africana no Rio de Janeiro do Oitocentos. Os ferreiros, ao transformarem a natureza em cultura, uniam em sua atividade o mundo material e espiritual, ligada também à fertilidade e ao poder de cura. Uma “bricolagem etnogênica”, como apontam pesquisas recentes, que deram origem a novos simbolismos e grupos culturais, a exemplo da Macumba.

Afinal, não esqueçamos, esse contingente populacional trazia consigo, em suas bagagens culturais, uma diversidade de costumes, crenças, valores, práticas de cura, religiosidades, técnicas e saberes. Entre 1800 e 1840, segundo as pesquisas, aportaram na cidade do Rio de Janeiro uma média de 600 mil africanos e africanas escravizados, dos quais metade vieram da África Centro-Ocidental, de regiões como o norte de Angola e o Congo Norte. Em menor número, mas com grande impacto na formação sociocultural da diáspora, havia os classificados como “minas” (África Ocidental) e os “moçambiques” (África Oriental). É a partir dessa grande diversidade sociocultural que africanos e seus descendentes vão (re)desenhar agências, formas de luta e sociabilidades.

As revoltas escravas que sacudiram o Vale do Paraíba, como a de Manoel Kongo, têm lastro nesses processos de agenciamento negro; além de ser também evidência do papel que os artesãos do ferro têm nas sociedades africanas e nos cultos aqui criados e recriados sob o guarda-chuva das religiões de matriz africana. Sobre esse aspecto, podemos analisar numa óptica de longa duração o racismo religioso que se manifestava a partir do próprio Estado imperial, e depois do Estado republicano, ao perseguir tais manifestações negras. O aumento demográfico causado pela permanência do tráfico transatlântico e pelo tráfico interprovincial tinha como outra face dessa moeda, conforme afirmou Ynaê Lopes dos Santos, o controle sobre corpos, moradias e práticas culturais – como a capoeira, o batuque, as casas de dar fortuna, os zungús etc.

Além do conjunto de tecnologias trazidas por esses africanos e que auxiliaram na produção de bens de capital manufaturados, é possível focalizar saberes e práticas ancestrais que estavam ligados a aspectos sagrados e/ou litúrgicos. Dentre essas dimensões, destaco as tecnologias de cura que foram transportadas para cá junto dos africanos escravizados e fizeram-se (e fazem-se) presentes em territórios negros diversos, entre terreiros, tendas e barracões das religiões de matriz africana. Esses modos tradicionais de curar faziam os seus conhecedores – curandeiros, sangradores, dentistas, parteiras etc. – terem importantes ocupações desde os tempos da Colônia. Casos como o de Estevão são exemplares desses possíveis começos e dos muitos protestos ao sistema escravista, nesse caso por meio da fuga, que estavam presentes nas ações de tais sujeitos.

Estevão era ao mesmo tempo ferreiro, serralheiro, sangrador e dentista. Segundo consta no anúncio de sua fuga, ele havia fugido de Minas Gerais, em dezembro de 1846, e circulava desde então pelo Vale do Paraíba, mais especificamente pela região de Valença, dirigindo-se para o centro de Minas. Ao que tudo indica, Estevão fazia circular, com seus saberes, uma tradição de cura e de transformação da natureza em cultura pelos campos enegrecidos do Vale do Paraíba. Barbeiros-sangradores, como talvez fosse o caso de Estevão (que também era ferreiro), e outros tipos de curandeiros estavam presentes no cotidiano urbano do Rio de Janeiro, apresentando alternativas de cura por mãos negras para uma população carente de serviços médicos. Retratos desses sujeitos (barbeiros-sangradores) foram pintados por artistas que passaram pela capital do Império ao longo do século XIX, como Jean-Baptiste Debret. Na imagem abaixo, por exemplo, podemos observar e analisar parte do cotidiano de tais barbeiros, sangradores e dentistas que realizavam seus ofícios nas ruas do Rio de Janeiro, como o trabalho entre dois negros, uma criança e um homem adulto, e a presença de quitandeiras que movimentavam uma economia monetária na cidade.

Boutique de barbiers. Pintura de Jean-Baptiste Debret, Rio de Janeiro, 1835. Fonte: Jean-Baptiste Debret (desenhista), 1768-1848. Voyage pittoresque et historique au Brésil. Tome deuxième. p. 13 .

Ou seja, os ofícios foram uma importante ferramenta da população negra para articular formas de emancipação e autonomia, sobretudo no cotidiano das cidades escravistas. O trabalho ajudava, assim, a reproduzir saberes, práticas e tecnologias negras trazidos de África, apesar das duras penas e da desumanização impostas pela escravização. Mas o trabalho manual não era o único meio de inserção desses sujeitos, com lutas sociais também em torno da instrução. Em vista disso, e em meio aos debates atuais sobre a Lei de Cotas, acrescento que um olhar histórico sobre os empecilhos e barreiras criados para que pessoas negras (pretas e pardas) não acessassem o ensino superior ou a educação básica – o qual foi, ao longo do tempo, um projeto de exclusão dessa parte da população – ajuda a iluminar e redimensionar um dos começos desse longo processo de reivindicação e reparação histórica e as diversas estratégias da gente negra para ter acesso à educação formal, sobretudo nas cidades, deixando marcas na paisagem urbana e suas memórias em disputa.

Assim, ao pensar na cidade enquanto patrimônio com dimensões materiais e imateriais – aqui especificamente falando da cidade do Rio de Janeiro –, podemos utilizá-la como um objeto curricular em discussão nas salas da Educação Básica, sobretudo nas aulas de História, de modo a problematizar certos lugares sociais ligados a branquitude e assinalar as marcas de uma cultura material deixada pela população negra, como é o caso da Pequena África ou de Madureira. A problematização dessas rugosidades afrodiaspóricas deverá levar em consideração a participação de africanas, africanos e seus descendentes na construção desses espaços a partir de seus saberes e tecnologias; além de focalizar a mobilização política (silenciosa ou aberta) desses/as agentes contra a escravidão e em favor de suas liberdades e de políticas de inclusão social. Tal legado de origem africana é parte fundamental da cultura brasileira, em suas ligações com a diáspora negra no país, que ainda é negado cotidianamente pela força do racismo estrutural em nossa sociedade. Mas tais rugosidades e legados negros ajudam a desvelar incontornáveis camadas de um passado que se faz muito presente em nosso cotidiano, e que soma-se às demandas atuais da população negra por reconhecimento, respeito, dignidade, equidade e direitos à própria cidade.

Assista ao vídeo do historiador Antonio Ramos Bispo Neto no Acervo Cultne sobre este artigo:

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Nossas Histórias na Sala de Aula

O conteúdo desse texto atende ao previsto na Base Nacional Comum Curricular (BNCC): 

Ensino Fundamental: EF09HI04 (9º ano: Discutir a importância da participação da população negra na formação econômica, política e social do Brasil); EF09HI26 (9º ano: Discutir e analisar as causas da violência contra populações marginalizadas – negros, indígenas, mulheres, homossexuais, camponeses, pobres etc. – com vistas à tomada de consciência e à construção de uma cultura de paz, empatia e respeito às pessoas).

Ensino Médio: EM13CHS101 (Identificar, analisar e comparar diferentes fontes e narrativas expressas em diversas linguagens, com vistas à compreensão de ideias filosóficas e de processos e eventos históricos, geográficos, políticos, econômicos, sociais, ambientais e culturais); EM13CHS104 (Analisar objetos e vestígios da cultura material e imaterial de modo a identificar conhecimentos, valores, crenças e práticas que caracterizam a identidade e a diversidade cultural de diferentes sociedades inseridas no tempo e no espaço).

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