Bela, recatada e do lar: matéria da ‘Veja’ é tão 1792

A intenção é enaltecer Marcela Temer como a mulher que todas deveriam ser, à sombra, nunca à frente

por Djamila Ribeiro, do Carta Capital 

Felipe Larozza/VICE

Nesta semana a revista Veja fez uma matéria com Marcela Temer, esposa de Michel de Temer e, logo na manchete, a definiu assim: bela, recatada e do lar. O texto soava elogioso ao fato de Marcela ser discreta, falar pouco e usar saias na altura do joelho. Para boa feminista, meia imposição basta.

Fica evidente a tentativa da revista de fazer uma oposição ao que Dilma representa. Uma mulher aguerrida, forte, fora do padrão imposto do que se entende que uma mulher deve se comportar. Mais, é como se dissessem: mulher boa é a esposa, a primeira dama, a “que está por trás de um grande homem”.

É evidente a misoginia da qual a presidenta Dilma vem sendo alvo. Um homem no lugar dela não teria a capacidade questionada e nem sofreria ataques tão violentos como os que Dilma vem sofrendo daqueles que não respeitam a legalidade.

O discurso criminoso de Jair Bolsonaro, no dia da votação ilegítima do impeachment na Câmara, mostra isso. Bolsonaro fez alusão a Ustra, homem que comandou o DOI-Codi, e o chamou de “pavor de Dilma”, que foi torturada na ditadura. Independentemente das críticas que se tenha ao governo, é evidente que ela vem sendo vítima de uma sociedade machista.

A matéria de Veja confirma isso ao enaltecer Marcela Temer como a mulher que todas deveriam ser, à sombra, nunca à frente. Destaco que não critico aqui Marcela e mulheres que possuem estilo parecido. O problema é julgar que esse modelo deve ser o padrão.

É não respeitar a mulher como ser humano, alguém que pode estar num lugar de liderança, e que tem o direito de ser como quiser sem julgamentos à sua moral ou capacidade.

Quando li a matéria me lembrei das revistas “femininas” da década de 50 que criavam estereótipos da dona de casa feliz, porém sempre arrumada e maquiada. Mas aí também lembrei que em 1792, Mary Wollstonecraft, escritora, já criticava essas imposições no livroReivindicação dos direitos da mulher”, considerado um clássico feminista e publicado recentemente pela Boitempo Editorial.

Sobretudo no capítulo intitulado “Censuras a alguns dos escritores que têm tornado as mulheres objetos de piedade, quase de desprezo”, Wollstonecraft critica o modo pelo qual alguns escritores e pensadores retratam a mulher. Mesmo aqueles considerados iluministas, em relação à mulher não faziam uso da razão.

Em um trecho no qual critica o filósofo Rousseau, diz: “(…) passa a provar que a mulher deve ser fraca e passiva, porque tem menos força física do que o homem; e, assim, infere que ela foi feita para agradar e ser subjugada por ele e que é seu dever fazer agradável a seu mestre – sendo este o grande fim de sua existência”.

O lado bom da reportagem foi a campanha virtual que feministas lançaram logo após a matéria ir ao ar. Várias estão postando fotos fazendo coisas que a sociedade acredita não serem para uma mulher com a hashtag bela, recata e do lar.

Há fotos com mulheres bebendo, no bar, trabalhando, com roupas curtas, com o objetivo de mostrar que lugar de mulher deveria ser onde ela escolhe estar. Percebe-se como, apesar de alguns avanços que tivemos, a mentalidade machista perdura e é ainda tão 1792…

+ sobre o tema

‘Sempre fui a única preta ali’: caçadora de mistério do Universo é premiada

Caçula de oito irmãos, Rita de Cássia dos Anjos...

Prefeitos eleitos não assinam pacto da ONU por igualdade de gênero

O programa Cidade 50-50, da ONU Mulheres, tem por...

SEMDF participa do Encontro das Trabalhadoras da CTB

Desenvolvimento, autonomia e igualdade foi o tema que conduziu...

Anencefalia: com placar de 5 a 1, STF retoma hoje julgamento

Brasília – Com placar de 5 a 1 a...

para lembrar

Pandemia amplia canais para denunciar violência doméstica e buscar ajuda

Entre as consequências mais graves do isolamento social, medida...

Brasil tem compromisso muito baixo em dar fim ao racismo – por Fátima Oliveira

Brasil tem compromisso muito baixo com erradicação do racismo Herança...

10 sinais de que seu marido é gay (segundo a internet)

Há todo tipo de coisa escrita no Google a...

Homofobia e racismo serão punidos em estádios de futebol de SP

Os clubes de futebol e seus torcedores poderão sofrer...
spot_imgspot_img

Meninas negras de até 13 anos são maiores vítimas de estupro no Brasil; crime cresceu 91,5% em 13 anos

O número de estupros no Brasil cresceu e atingiu mais um recorde. Em 2023, foram 83.988 casos registrados, um aumento de 6,5% em relação ao ano anterior....

Eugênio Bucci, Marilena Chaui e Sueli Carneiro são finalistas do Prêmio Jabuti Acadêmico; confira a lista completa

A Câmara Brasileira do Livro (CBL) anunciou, nesta quinta-feira (18), os finalistas do Prêmio Jabuti Acadêmico, que contempla obras científicas em 29 categorias, como Artes,...

Brasil registra um crime de estupro a cada seis minutos em 2023

O Brasil registrou um crime de estupro a cada seis minutos em 2023. Com um total de 83.988 casos de estupros e estupros de...
-+=