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Do Brasil africano à África brasileira

Do Brasil africano à África brasileira

Em 1963, Alberto da Costa e Silva assistiu a sir Hugh Trevor-Hoper, famoso professor de Oxford, afirmar para um auditório que “não havia uma história da África subsaariana, mas tão-somente a história dos europeus no continente, porque o resto era escuridão, e a escuridão não é matéria da história”. Uma infeliz afirmação porque, três anos depois, a editora da Universidade de Cambridge começaria a publicar, sob a direção de Roland Oliver e J.D.Fage, The Journal of African History, uma revista que tratava só de história.

Por Adelto Gonçalves, do Correio do Brasil 

Mas, antes mesmo da observação do professor inglês, Costa e Silva, ex-embaixador do Brasil em Portugal e depois presidente da Academia Brasileira de Letras, já vinha procurando desmentir aquele disparate um tanto consensual àquela época, como se pode constatar no livro que a editora Nova Fronteira, do Rio de Janeiro, acaba de editar, Um rio chamado Atlântico: a África no Brasil e o Brasil na África, em que recolhe textos publicados desde 1961 em jornais e revistas ou lidos em seminários sobre a história do continente africano.

Pelo menos cinco desses ensaios o leitor português mais atento já deve tê-los lido em O vício da África e outros vícios (Lisboa, Edições João Sá da Costa, 1989), mas há ainda 11 textos mais recentes e igualmente imperdíveis para quem participa destes vícios africanos. No ensaio que abre o livro, “As relações entre o Brasil e a África Negra, de 1822 à Primeira Guerra Mundial”, por exemplo, incluído no livro de 1989, o leitor pode logo descobrir que não é de hoje que, nas relações internacionais, manda quem pode e obedece quem tem juízo.

Lá está que, na segunda década do século XIX, a Grã-Bretanha, depois de encorajar o tráfico negreiro por longos anos, passou a condená-lo. Precisou impedir que a mão-de-obra africana ajudasse o crescimento da produção açucareira do Brasil, que oferecia preços mais baixos do que os das Antilhas britânicas. Valeu-se, então, de um sentimento altruísta para impor o fim do comércio de escravos por meio da Convenção de 1826, que atingia a soberania do Brasil, pois dava aos navios ingleses o direito de uma visita aos barcos brasileiros e permitia o apresamento daqueles que se dedicassem ao tráfico.

Apesar do intenso debate que a então nascente nação sul-americana teve de travar com a arrogância inglesa, a lei do mais forte prevaleceu. Episódio bem parecido com a chamada Lei do Bioterrorismo, assinada por Bush II e que vai entrar em vigor a partir do dia 12 de dezembro, pisoteando a soberania dos demais parceiros comerciais. Tal como há 177 anos, não haverá como deixar de se sujeitar à lei do mais forte. Desafiá-la será virar as costas para um mercado de US$ 1,4 trilhão por ano.

A propósito da prepotência inglesa, em outro ensaio, “O Brasil, a África e o Atlântico no século XIX”, Costa e Silva observa que o Oitocentos foi o século em que o Reino Unido procurou fazer do Atlântico um mar britânico. E que essa ameaça fez renascer o interesse português pela África. E tanto Portugal quanto a França, a Alemanha e a Itália trataram de responder às pretensões britânicas. Portugal só não contava com a réplica arrogante de seu aliado de tantos séculos, com o ultimatum de 1890, que obrigou Lisboa a abandonar ao Reino Unido terras que integrariam mais tarde o Maláui, a Zâmbia e o Zimbabué.

A prepotência inglesa, porém, é uma presença marginal nestes ensaios que discutem, isso sim, a importância do Atlântico e o trânsito de escravos e mercadorias que transformou as culturas de ambos os continentes. E não só deixou uma marca indelével na formação brasileira, como também influenciou a história da África Ocidental, graças ao tráfico negreiro e ao refluxo de ex-escravos e negros libertos ao continente de origem que para lá levaram os modos brasileiros.

No ensaio “Os sobrados brasileiros de Lagos”, o autor percorre o chamado “Brazilian Quarter” da capital da Nigéria em busca de ruínas de construções do século XIX, as chamadas casas coloniais brasileiras, construídas sob um tipo de arquitetura introduzido no país por hauçás e iorubas que, tendo vivido no Brasil, como escravos ou libertos, regressaram posteriormente à África.

Desta margem do Atlântico, Costa e Silva em “Um chefe africano em Porto Alegre” conta muitas histórias de africanos de linhagem que foram vendidos como escravos por causa de brigas pelo poder em suas nações. Um desses príncipes africanos chegou ao Brasil em 1864 não como escravo, mas como homem livre desterrado da pátria. Adotou o nome brasileiro de José Custódio Joaquim de Almeida e ignoram-se as razões pelas quais veio para o Brasil, embora o mais provável é que tenha sido expulso por algum conflito político.

Ficou conhecido entre os moradores de Porto Alegre como Príncipe de Ajudá, mas sua ligação com essa localidade africana não é provada. Talvez tenha sido esse o porto pelo qual deixou a África. Com mais de 1m83, forte, extrovertido, Custódio Joaquim morou numa mansão com cinco filhas e três filhos, sem que se saiba que tenha sido casado. Falava inglês e francês com fluência, mas tropeçava no português. Vestia-se de acordo com a moda européia, mas usava trajes africanos em ocasiões especiais. O Príncipe de Ajudá morreu em 1935, supostamente com mais de cem anos de idade.
Costumava ajudar outros africanos num Estado, o Rio Grande do Sul, conhecido pela forte discriminação contra os negros. Nunca se soube a origem de sua riqueza.

Para Costa e Silva, estudar a África, além de explicar o Brasil, é fundamental para compreender o continente vizinho, do qual veio quase a metade dos antepassados dos brasileiros. Para ele, não justifica que a história da África continue a ser tratada como matéria exótica. “Ainda que disto não tenhamos consciência, o obá do Benim ou o angola a quiluanje estão mais próximos dos brasileiros do que os antigos reis da França”, afirma.

Diplomata, poeta e historiador, Alberto da Costa e Silva, 72 anos, serviu como diplomata em Washington e várias capitais européias, antes de ser embaixador na Nigéria, Benim, Portugal, Colômbia e Paraguai. Tem duas paixões: a poesia e a África. Como poeta, publicou em 2000 Poemas Reunidos (com os trabalhos de oito livros anteriores), pela Nova Fronteira, que também editou, em 1994, suas memórias da infância, Espelho do Príncipe.

Em 2002, publicou pela Academia Brasileira de Letras uma coletânea de ensaios literários, O Pardal na Janela, que reúne textos incluídos em O Vício da África e outros vícios. Como historiador da África, publicou pela Nova Fronteira A Enxada e a Lança: a África antes dos Portugueses (1992, 1996) e A Manilha e o Libambo: a África e a Escravidão, de 1500 a 1700 (2002), vencedor do Prêmio Jabuti de 2003 da Câmara Brasileira do Livro. É doutor honoris causa pela Universidade Obafemi Awolowo, da Nigéria.
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UM RIO CHAMADO ATLÂNTICO: A ÁFRICA NO BRASIL E O BRASIL NA ÁFRICA, de Alberto da Costa e Silva. Rio de Janeiro, Editora Nova Fronteira/Universidade Federal do Rio de Janeiro, 288 págs. e-mail: [email protected]

Adelto Gonçalves, jornalista, trabalhou no Estadão, Folha de São Paulo, Editora Abril e A Tribuna de Santos. Professor universitário, doutor em Literatura Portuguesa pela USP, autor dos livros Os Vira-latas da Madrugada, prêmio José lins do Rego, da José Olympio Editora; Gonzaga, um Poeta do Iluminismo, Barcelona Brasileira, Bocage – o Perfil Perdido e Tomás Antônio Gonzaga. Ganhou em 1986, o prêmio Fernando Pessoa, da Fundação Cultural Brasil-Portual. Professor universitário de literatura em Santos, na Universidade Paulista, Unip, e na Universidade Santa Cecília, Unisanta.

 

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