quinta-feira, maio 26, 2022
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Brasil, EUA e África do Sul, por Sueli Carneiro

Aconteceu de 29 de maio a 1º de junho deste ano, na Cidade do Cabo, África do Sul, o lançamento do relatório ‘‘Para Além do Racismo: Abraçando um Futuro Interdependente”, que contou em sua abertura com a presença de Nelson Mandela.

Esse relatório é uma das várias publicações produzidas pela Iniciativa Comparada de Relações Humanas, um projeto da Southern Education Foundation sob a coordenação da dra. Lynn Huntley, que consistiu num estudo comparativo que, durante quatro anos, investigou as relações raciais no Brasil, EUA e África do Sul. O projeto foi desenvolvido em parceria com instituições brasileiras e sul-africanas e enlaçou nessa tarefa pesquisadores, ativistas, personalidades, políticos e membros de governo, negros e brancos dos três países.

A iniciativa partiu das seguintes constatações a respeito de Brasil, EUA e África do Sul: ‘‘Todos possuem um governo democrático; todos são poderosos regionalmente e em termos globais e possuem recursos humanos e financeiros significativos; todos têm uma população diversa racial, étnica e culturalmente; em todos, pessoas de descendência africana foram objeto de escravidão , ou segregação através da lei e carecem de reconhecimento de direitos iguais; em todos, uma parte desproporcional dos pobres são pessoas de descendência africana ou não-brancos; em todos, há problemas de relações intergrupo, que assumem uma variedade de formas em cada um deles; todos enfrentam o desafio contemporâneo de tentar promover melhores relações intergrupo e desenvolver estratégias e políticas que possam alocar oportunidades para todos de maneira mais justa e com mais credibilidade”.

O projeto propiciou o aprofundamento e análise crítica dos processos políticos de encaminhamento da questão racial nesses países: o movimento de direitos civis nos EUA; a luta contra o apartheid na África do Sul; a desmistificação da democracia racial brasileira. Avaliou o impacto do processo de globalização sobre as populações negras dos três países e a dimensão racial das novas contradições colocadas pela atual ordem econômica: feminização da pobreza, ampliação dos níveis de exclusão social; desemprego estrutural; flexibilização do mercado de trabalho; diminuição da rede de proteção social, a xenofobia entre outros problemas. Examinou os estágios diferentes em que o combate ao racismo se encontra nos três países e as prioridades políticas colocadas para cada um deles.

Os afro-brasileiros têm o desafio de conquistar políticas públicas que possam promover relações raciais igualitárias e reverter as desigualdades historicamente acumuladas; os afro-americanos que atingiram o maior grau de desenvolvimento entre os negros da diáspora africana defrontam-se com a necessidade de enfrentar os limites das conquistas obtidas pelo movimento de direitos civis e os negros sul-africanos que derrotaram o apartheid e conquistaram o poder político de seu país têm a missão de superar a desigualdade racial produzida pelo brutal regime sul-africano.

Esse estudo concentrou-se também em determinar as condições necessárias para a criação de um círculo virtuoso de mudança em contraposição ao círculo vicioso estabelecido pelas hierarquias de poder com base em raça, gênero, cor e aparência, estabelecendo como premissas básicas para a criação de uma sociedade para além do racismo: garantias legais de igualdade e medidas efetivas para eliminar a discriminação; promoção de oportunidades educacionais, econômicas, empresariais, de emprego e treinamento; participação política; solidariedade dos meios de comunicação para a eliminação de estereótipos; defesa intransigente dos direitos humanos; utilização da força das artes para atingir corações e mentes.

Por fim, a iniciativa diagnosticou as ‘‘tendências globais que estão atuando na moldagem do futuro (…) no qual normas de inclusão e interdependência serão necessidades econômicas e práticas”.

Na mesma direção das preocupações da iniciativa está em visita a várias capitais do Brasil, para encontros com órgãos governamentais e organizações da sociedade civil, a advogada internacional Gay MacDougall, diretora executiva do International Human Rights Law Group e membro do Comitê para a Eliminação da Discriminação Racial das Nações Unidas e uma das figuras de proa da Conferência de Racismo convocada pela ONU para o próximo ano na África do Sul. Esses eventos indicam que, enfim, o problema racial brasileiro entrou na agenda internacional.

A primeira lembrança que tenho de Gay MacDougall, essa extraordinária mulher negra defensora dos direitos humanos, internacionalmente respeitada, é de sua expressão de júbilo ao acompanhar Nelson Mandela no momento de seu primeiro voto, nas primeiras eleições gerais da África do Sul, resultado de um processo de luta e negociação pela derrubada do apartheid no qual ela, entre muitos, teve participação expressiva. Que a visita de Gay MacDougall a nosso país seja o prenúncio de novos e melhores tempos para os negros brasileiros.
Suely Carneiro, pós-graduanda em Filosofia da Educação pela USP, é pesquisadora do CNPq e diretora de Geledes – Instituto da Mulher Negra

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