Brasil volta a debater integração de negros com cotas no funcionalismo

 

As recentes iniciativas para estabelecer uma cota para negros em concursos públicos reabriram o debate sobre a falta de acesso desta parte da população no país, que tem mais da metade da população de autodeclarados afrodescendentes.

“(O Brasil) pretende ser uma democracia, um Estado de direito em que a igualdade é significativa, mas esta realidade não se aplica aos negros”, explicou à Agência Efe José Vicente, reitor da Universidade da Cidadania Zumbi dos Palmares, destinada a promover a educação superior dos negros no Brasil.

Nesta semana a presidente Dilma Rousseff apresentou no Congresso um projeto de lei que pretende reservar 20% das vagas de concursos públicos para a população negra. Os deputados também analisam uma iniciativa que reserva cadeiras para os negros.

Na opinião de Vicente, defensor de propostas de igualdade racial, este tipo de iniciativas são “necessárias” e são uma resposta ao “racismo institucional” que existe no país, “que historicamente só premiou um único grupo (o dos brancos)”.

A medida não só gerou debate na sociedade acadêmica, mas também entre a população, que diverge sobre a necessidade ou não deste tipo de medidas, consideradas pelo governo “ações afirmativas” para acabar com a discriminação “racial e social”.

“Acho que os negros são integrados. Não acho justas estas medidas. O trabalho tem que ser conquistado por mérito e não por cotas”, criticou Fabiana Santana da Silva, que em seu registro de nascimento é considerada parda.

Na mesma linha, a estudante de jornalismo Luiza Mesquita argumentou que “a cor da pele não é o que vai definir se uma pessoa tem capacidade ou não” e acrescentou que embora seja consciente que “historicamente os negros não tiveram condições de estudar, quem quer consegue e se esforça igual aos outros”, acrescentou.

João Vitor de Souza Costa, por outro lado, acredita que sua condição de negro representa um “inconveniente” para alcançar postos de relevância no interior de uma empresa, já que “ainda há muitas dificuldades para se integrar na sociedade e nos estudos”.

No ano passado o governo regulamentou uma lei que determina uma reserva proporcional à população nas universidades federais brasileiras de vagas para afrodescendentes, unificando uma política já adotada por muitas instituições há mais de uma década.

Em outra ação afirmativa, a organização do Fashion Rio, que termina neste sábado, aceitou recomendar uma cota de 10% de modelos negros e indígenas em seus desfiles. Na quarta-feira, primeira noite de desfiles, cerca de 40 modelos negras tiraram a roupa na entrada da semana de moda carioca para defender um aumento da representatividade da cor nas passarelas brasileiras.

Apesar de representarem 50,7% da população brasileira, segundo dados do Censo 2010 divulgados pelo governo, os altos cargos, tanto políticos como empresariais são, na imensa maioria, ocupados por pessoas brancas.

Na história do Brasil, são poucos os nomes de personagens negros que transcenderam as fronteiras nacionais, e a maior parte delas está nos setores esportivo ou artísticos.

No ano passado a presidência do Supremo Tribunal Federal foi assumida pela primeira vez por um negro, o magistrado Joaquim Barbosa, proveniente de uma família humilde do interior do estado de Minas Gerais.

 

Fonte: Terra

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