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Brasileirão 2017 – Retrato dos comandantes na série A e série B do Campeonato brasileiro de futebol

No futebol brasileiro é comum escutarmos histórias do inicio do século XX, com referência a participação de negros no esporte. Afirmam alguns historiadores de que o Vasco da Gama – Rio de Janeiro, foi o primeiro clube a permitir a participação de jogadores negros em seu elenco, algo contestado por alguns. O certo é que o Vasco foi o primeiro time brasileiro a ser campeão estadual com seu elenco composto por negros, em 1922, na segunda divisão e 1923 na primeira divisão do Estadual carioca.

por Rodnei Jericó para o Portal Geledés

Tal fato, a época, gerou nos demais clubes cariocas uma revolta grande, a ponto de se forma outra liga com a exclusão do Vasco da Gama, sob a alegação de que a equipe não tinha estádio.

Assim, inicia-se uma trajetória gloriosa do futebol brasileiro, onde o ambiente propiciava um acirramento racial no discurso e nas atitudes  e que por conta dos resultados nos anos que se seguiram, os clubes foram praticamente obrigados a trabalharem com atletas negros.

No entanto, o fato de hoje termos muitos clubes por todo o globo, com jogadores negros, ainda temos em algumas funções e atividades diretamente ligadas ao futebol, pouco espaço para profissionais negros.

Em pesquisa rápida feita no site da Confederação Brasileira de futebol, nas séries A e B do Brasileirão 2017, a representação de negros em posição de comando de comissão técnica é muito baixo, o que é paradoxal, dado que temos muitos atletas negros no futebol do país, assim era de se esperar que houvessem também técnicos negros em percentual maior.

Tanto assim, que dos 40 clubes, 20 na séria A e outros 20 na série B do Brasileirão 2017, temos menos de 10% de comandos técnicos negros, isto tomando apenas o critério fenotípico para tentarmos traçar um perfil. Objetivamente na série A, temos 2 treinadores negros, e na serie B apenas um.

Assim, porque será que mesmo com reconhecimento tão grande de jogadores negros no país, temos um numero tão baixo de comandos no mesmo perfil ? Será que grandes jogadores não conseguem ser grandes comandantes técnicos ?

Me recordo de um comandante técnico que tive quando ainda era atleta da Central Brasileira de Cotia, time da segunda divisão a época, no inicio dos anos 90, Professor Tulio Tangione Neto, de personalidade forte e de um conhecimento do futebol enorme, posso ainda me recordar de outro, meu querido amigo Joao Francisco Marçal, sempre muito estudioso do futebol, e tecnicamente um dos melhores com quem trabalhei ao longo de minha curta carreira como profissional. Ambos não tiveram muito sucesso como treinadores, não por sua ausência de capacidade técnica, mas certamente porque a cor de pele era um impeditivo.

Em uma oportunidade conversando com Marçal ao telefone, ele me afirmará que as oportunidades para técnicos de futebol negros no Brasil eram e ainda são limitadas, e pude perceber que não apenas nas comissões técnicas, as informações dos profissionais do futebol no site da CBF tem um perfil majoritariamente branco, isto se replica nos demais esportes por certo. Não quero aqui afirmar que os negros são melhores em tais funções, mas também não posso garantir que os não negros o são.

Creio que é necessário oportunizar e assim como o próprio esporte futebol o é, pluralizar os comandos técnicos, dando a cara de um Brasil plural em raça/etnia, criando novos ídolos para além das quatro linhas de campo de jogo, e tenho certeza de que isto faria um bem enorme ao esporte em geral.

Rodnei Jericó – advogado do SOS Racismo e articulista esportivo.

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