quarta-feira, agosto 10, 2022
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Candidata à vice-prefeita de SP, Erundina tem pressa: “A velhice não impede o sonho”

Luiza Erundina viveu para a política. Ou melhor, “tem vivido”, ela mesma corrige. Aos 85 anos, a então deputada federal por São Paulo pelo PSOL é pré-candidata na chapa do mesmo partido com o líder do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) Guilherme Boulos à prefeitura da maior cidade da América do Sul.

Aceitou a empreitada primeiro porque era condição de Guilherme para se lançar à disputa, depois porque tem pressa em mudar as coisas. A atual situação do país, segundo ela, “sob uma ditadura fruto de uma eleição democrática”, a empurra em seguir trabalhando no que nasceu para fazer, “política”.

São 50 anos como moradora de São Paulo e 64 a serviço da gestão pública – seu primeiro emprego na área foi aos 24 anos, como diretora de Educação e Cultura da Prefeitura de Campina Grande. Nascida em Uiraúna, sertão paraibano, perdeu as contas das madrugadas em que migrou com a família por conta da seca e da fome. Quando jovem, se comprometeu com a reforma agrária e foi perseguida pela ditadura. Veio para a capital paulista por conta dessa perseguida pelo regime militar. Na cidade, se tornou sua primeira prefeita, cumprindo o mandato de 1989 a 1992, e ajudou a fundar o Partido dos Trabalhadores (PT).

Sua gestão, até hoje lembrada, foi marcada pela forte participação popular e por figuras emblemáticas como Paulo Freire, na pasta da Educação, e Marilena Chauí, como secretária da Cultura. A conjuntura da capital paulista do fim dos anos 80 e a de agora, embalada pela pandemia da Covid-10, têm semelhanças. “Os problemas estruturais permanecem os mesmos”, diz a deputada, que está em seu sexto mandato na Câmara. Naquela época, o Brasil também experimentava uma crise profunda de desemprego, recessão, manifestações populares e insatisfação com a classe política.

Nesta entrevista, concedida por videoconferência de sua casa em São Paulo, ela faz críticas ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido), o culpando por ser irresponsável e omisso quanto aos impactos do novo coronavírus, e ao atual prefeito de São Paulo, Bruno Covas (PSDB), “que não difere em nada de Dória”. Luiza ainda fala do que mudou em ser mulher na política nas últimas décadas e do “novo preconceito” que enfrenta, inclusive dentro do próprio partido, o de “envelhecer e ousar não parar”.

(Foto: Sérgio Lima/ÉPOCA)

Marie Claire. Sobre as críticas à sua idade: dizem por exemplo que passou da hora da senhora se aposentar da política, que deveria ceder lugar para gente mais nova. Qual é sua resposta para esse tipo de comentário?

Luiza Erundina. Que se danem! Estou vivendo meu tempo, minha saúde e inteligência, minha experiência. Estou fazendo mal para alguém? Não estou. E quero que mulheres com a minha idade também se sintam assim, que sejam contagiadas pela minha vivência e vontade de seguir trabalhando. E, para aqueles aqueles que se sentem incomodados, desejo que tenham a sorte de chegar onde cheguei com a energia e convicção que tenho. Sabe, se você perde seu projeto de vida, tudo perde o sentido. E meu projeto de vida não termina no meu tempo. Meu projeto é sonhar com outro futuro. Não quero só mudar São Paulo e Brasil, quero mudar o mundo. O meu sonho, de uma sociedade socialista, fraterna e igualitária, infelizmente não vai acontecer no meu tempo, tenho consciência disso. Mas se eu não fizer minha parte agora, esse modelo de sociedade não vai acontecer nunca. A velhice não é doença, não é defeito, a velhice não impede o sonho. Portanto o sonho que me move, em relação às transformações que a sociedade precisa, não envelheceu.

“Quero que mulheres com a minha idade sejam contagiadas pela minha vivência e vontade de seguir trabalhando”
Luiza Erundina

MC. Do preconceito em relação à idade, teve alguma manifestação que surpreendeu a senhora?

LE. Quando sofri esse preconceito dentro do próprio partido. Companheiras que usaram essa condição de eu ser idosa contra mim. O fato de eu ter composto essa chapa com Boulos não agradou algumas pessoas não. E não fico atingida, pelo contrário. Isso me dá mais motivo pra eu dizer para os contemporâneos da minha geração que a velhice não é uma doença. Eu não preciso de cuidadora. Não sou dependente. Eu só não estou na Câmara agora porque sou grupo de risco. Lamento não estar nas ruas fazendo um embate contra o governo Bolsonaro. Essa limitação por conta do vírus me frustra. Mas meu escritório político não está desativado, pelo contrário, está mais ativo do que nunca. Porque a população vem nos procurar mais nesses momentos de crise. Minha idade não mudou em nada minha atuação. Tenho pressa em usar intensamente esse tempo que me resta. E tenho consciência que não terei muito mais tempo. Por isso a pressa. Isso do preconceito de idade é injusto, cruel, tira a dignidade e a autoestima da pessoa. Daí ela se entrega, adoece. Imagina considerar uma pessoa aos 60 anos inválida. Eu era jovem aos 60. E o próprio tratamento que é dado à pessoa idosa na família é esse de que ela incomoda, de que é chata, de que deve ser isolada. Mas ela não é isso, isso é o que fizeram dela.

MC. A senhora disse em uma entrevista no final de 2019 para o jornalista Leonardo Sakamoto que não se candidataria mais à política institucional, porque havia tomado “consciência que estava na hora de sair”. O que fez mudar de opinião e aceitar concorrer na chapa com Boulos?

LE. Foi exatamente a acentuação da conjuntura obscurantista no país. Depois, o potencial que tem o Boulos como candidato, uma jovem liderança emergente, formada na luta dos setores populares, sobretudo aqueles que não dispõe de uma moradia como direito básico. Eu falei isso de “institucional” naquela entrevista por entender que quando a gente tem a vocação política, quando a gente nasceu para fazer política, a gente não deixa nunca essa atividade.

MC. O próprio Guilherme Boulos fez questão da sua parceria?

LE. Num certo sentido sim. Ele chegou a me dizer, “se você não se dispor a se candidatar à vice, vou rever a minha decisão de ser candidato a prefeito”. Cedi e estou integrada plenamente à campanha e ao projeto que estamos construindo juntos para São Paulo.

MC. Quando Guilherme Boulos concorreu à Presidência da República e tinha Sônia Guajajara como vice, ela dizia que não se considerava uma “mera” candidata à vice-presidência, mas à copresidência. Para a prefeitura de São Paulo agora, vale o mesmo conceito?

LE. Não tenho nenhuma pretensão de dividir a prefeitura nesse modo de coadministração. Serei a vice, ciente de que ele tem plenas condições de assumir as responsabilidades que o cargo de prefeito exige. Vou estar a sua disposição e me empenhar, colocando toda a minha experiência como ex-prefeita da cidade, além de minha experiência legislativa como vereadora e deputada federal.

MC. Se eleita, há algo da sua gestão como prefeita em 1989 que gostaria de repetir? Aliás, há no plano de governo seu e de Boulos alguma inspiração naquela gestão?

LE. Faz 32 anos que saí da prefeitura e aquela gestão hoje é mais lembrada e saudada do que foi logo após a minha saída. Isso porque havia um verdadeiro ministério na gestão da cidade. Marilena Chauí na Cultura, Paulo Freire na Educação, Paul Singer no Planejamento, Lúcio Gregório nos Transportes, Eduardo Jorge na Saúde. Foi uma gestão radicalmente democrática e até revolucionária num certo sentido, considerando os modelos tradicionais. Depois de três décadas, muita coisa mudou e a ideia não é exatamente transplantar aquelas experiência do jeito que se deram nos dias de hoje. Porém, o método de gestão, a forma de exercer o poder de forma radicalmente democrática, e valorizando aquilo que existe na sociedade civil organizada, sim, queremos. E queremos governar junto com essas pessoas. Mudar a forma de exercer o poder, a partir da concepção de que o poder não pertence a quem mantém o mandato, mas ao povo, a sociedade civil.

MC. Paulo Freire é hoje um dos nomes mais criticados pela extrema direita. Como chegamos até aqui, deputada? Em um governo federal que, por exemplo, fala em escola sem partido?

LE. Na teoria de Paulo Freire, o educando aprende e ensina. Foi exatamente pela concepção, pela prática, ética, pela filosofia da educação que Paulo Freire representa, e por isso passou exilado mais de 15 anos pela ditadura militar, e com a ascensão do conservadorismo, do autoritarismo, é que ele é a figura mais atacada. Tem inclusive três projetos de lei em uma das comissões da Câmara pedindo a cassação do título dele de patrono da educação brasileira, que foi resultado de um projeto que apresentei. É como se quisessem levá-lo de novo ao exílio. Num momento em que o fascismo se coloca com tanta força em nosso país, o atraso em todos os aspectos, o desrespeito à diversidade, os ataques às mulheres e à comunidade LGBTQ. Paulo Freire é meu conterrâneo, sou paraibana e ele pernambucano, aprendi com ele a lidar com a educação fundamental. É um prestígio ter tido a adesão dele ao meu convite pra que fosse secretário de Educação do nosso governo. A minha trajetória de vida política e pessoal se cruzou em muitos momentos com Paulo Freire. Bebo nas obras dele. E me reconheço muito naquilo que foi, pregou e praticou.

MC. A senhora já passou por diferentes fases do poder brasileiro. E viu muita coisa. Qual é sua avaliação sobre o atual momento?

LE. É um momento de resistência, há uma ditadura que foi lamentavelmente fruto de uma eleição democrática. Ou não tão democrática, porque as fake news e plataformas digitais foram usadas criminosamente para viabilizar a vitória desse presidente que está pondo em risco a vida de milhões de brasileiros. Ele se recusa a cumprir aquilo que é responsabilidade sua. Ele nega as orientações dos cientistas e isso está gerando um genocídio. E o potencial de destruição de vidas ainda está muito forte, por omissão, descaso, irresponsabilidade e perversidade desse governo, que inclusive combate governadores e prefeitos que estão na linha de frente contra a pandemia. E ainda tem as ações desse governo, as mudanças que vem fazendo contra os interesses e as conquistas do povo brasileiro, particularmente as dos trabalhadores… Eles odeiam os pobres, odeiam os indígenas. Eu era criança na época da ditadura de [Getúlio] Vargas e já sofria com os meu familiares e minha comunidade as restrições que aquele regime impunha. E depois a ditadura militar, que resisti à ela, como estudante e depois como profissional. Enfim, tudo isso me dá condição de avaliar a derrota que vivemos agora, do ponto de vista do que se construiu e se conquistou ao longo dos séculos neste país. Portanto, não esperava terminar meu tempo de vida numa realidade como a de agora.

MC. Em uma entrevista recente para Marie Claire, Tabata Amaral (PDT-SP) lembrou de governantes que acabaram transformando o poder dentro do poder, citou a Hungria. A senhora se preocupa com Jair Bolsonaro terminar o mandato? E quanto a uma reeleição em 2022?

LE. Não acredito que tenha condições de se reeleger, seria a desgraça maior que poderia ocorrer. Mas acho que deveríamos antecipar o fim do sofrimento que sua presença na Presidência da República representa. Já são mais de 40 requerimentos de impeachment encaminhados à mesa diretora da Câmara. Só que o presidente da casa, por razões que desconheço, até hoje não tomou nenhuma iniciativa. Mais dois anos desse governo seria um prejuízo irreparável para a história do nosso povo. O país está em pleno retrocesso civilizatório.

“A esquerda ainda não conseguiu no Brasil construir uma proposta unificadora, refletida e construída junto com a sociedade”
Luiza Erundina

MC. Alguns críticos culpam uma mobilização errada das esquerdas lá em 2018, além da ação nas plataformas digitais que a senhora citou. Dizem que os campos progressistas não se uniram devidamente para uma oposição mais efetiva em relação à ascensão de Jair Bolsonaro. A senhora concorda? Se sim, quais são os erros que não podem ser repetidos em 2022?

LE. Primeiro evitar que esses erros se repitam agora, nas eleições municipais. Porque a base da sociedade são as cidades. E estas eleições municipais se dão em um quadro dantesco de gravidade. Há uma responsabilidade em se acertar nos candidatos e programas, nas estratégias que vierem a adotar. Tudo é uma antecipação do que poderá ocorrer em 22. As disputas municipais são muito mobilizadoras. Espero que as forças democráticas progressistas se juntem ao menos no segundo turno delas. E no primeiro turno, como for possível, se aliem. No mais, até agora não surgiu um projeto que unifique essas forças. A esquerda ainda não conseguiu no Brasil construir uma proposta unificadora, refletida e construída junto com a sociedade. Então, a dificuldade nossa é essa: no dia que a gente tiver uma compreensão, uma unidade, em torno de alguns pontos, que possa ser uma pauta nacional, com reflexos nas instâncias estaduais e municipais, aí fica mais fácil essa unificação.

MC. O que a senhora tem a dizer sobre a gestão de Bruno Covas na prefeitura de São Paulo? E quanto a essa gestão durante a pandemia?

LE. A gente conseguiu através do Ministério público apartamentos em pensões e hotéis para a população de rua durante a pandemia e ele não cumpriu. Foi uma decisão do judiciário, e mesmo assim ele escapou dela. Parece que [a prefeitura] criou inicialmente cem vagas. Tem 25 mil pessoas nas ruas! Esse é um exemplo. Outro: ele chegou a demitir do programa MOVA [Movimento de Alfabetização de Jovens e Adultos, criado na gestão de Paulo Freire e agora renomeado como Eja (Educação de Jovens e Adultos)], professores, alegando que não há aulas presenciais nesse período. O contrato deles foi suspenso. Foi preciso uma ação da Justiça para que essa medida fosse revogada. Quem está na defesa da vida não poderia nunca afastar profissionais da educação por conta de não serem efetivos. O prefeito segue a linha do [governador João Dória], não vejo diferença entre eles. É o mesmo atraso que o tucanato vem adotando ao longo dos anos em São Paulo.

MC. Como vai ser fazer campanha em pleno isolamento social?

LE. Vai depender do desdobramento da pandemia. Mas estou acreditando que isso se dará sempre de forma virtual. A gente mesmo não quer submeter a população a riscos. Nem acho que os candidatos devem. Porque isso seria um desestímulo aos que submetem à ciência.

MC. Fala-se muito hoje sobre o lugar das mulheres na política. Temos cotas, tanto para recursos quanto para candidatura. Mas a senhora viveu num tempo em que mulheres na política institucional era coisa rara. Quero saber das diferenças entre ser uma mulher na política há 30 anos e agora. Está mais fácil?

LE. Não diria mais fácil. O machismo continua. A exclusão da mulher, sobretudo nos espaços de poder, continua. O silenciamento continua, as agressões continuam. Os homens, com exceção de alguns poucos aliados, em nenhum momento modificaram a sua opressão. Tivemos uma única mulher presidente da República e foi retirada sem crime formal. Depois de 80 anos do voto feminino, a primeira mulher presidente deste país foi impichada. O que melhorou agora é que uma ofensa feita a uma mulher participante da política é reprimida por todas as outras, e supra partidariamente, o que é bonito de ver. Isso não existia antes. Outra coisa da atividade parlamentar: os projetos de lei de interesse das mulheres são discutidos independentemente das ideologias e dos partidos. As diferenças ficam em segundo plano. A gente se junta e a gente aprova. Tanto é que a bancada feminina conquistou o direito de ter o tempo de voz como tem os líderes [dos partidos]. Se as coisas mudaram de 30 anos para cá para as mulheres que estão na política é por conta das mulheres, não porque os homens melhoraram. Eles não cedem minimamente. E raramente nos apoiam. Por quê? Uma mulher a mais nos espaços de poder, é um homem a menos. E essa lógica prevalece e atravessa os anos. Quem quer poder não quer ceder o poder.

“O que melhorou agora é que uma ofensa feita a uma mulher participante da política é reprimida por todas as outras, e supra partidariamente”
Luiza Erundina

MC. A senhora não teve filhos e não se casou. Por quê?

LE. Fiz aquilo que tinha mais apelo sobre mim. Me casei com a política. Não teria condições de manter filhos ou marido e me entregar à política como fiz. Sétima de dez filhos de um agricultor e uma vendedora de bolos, entendi que só conseguiria estudar e sair da situação de miséria se não me casasse. O Estado brasileiro não amadureceu o suficiente para garantir que toda mulher tivesse as mesmas oportunidades que os homens têm. Eles se dedicam à política com folga porque as estruturas todas funcionam à serventia deles. Com as mulheres nunca foi assim.

MC. Sentiu falta em algum momento da vida dessas escolhas que não fez?

LE. Não, nunca. Mas porque sou muito realizada no que faço e fiz. O que a política me deu compensou e muito essas outras coisas que eu poderia ter tido. Mulher, nordestina, solteira, de esquerda, trabalhando com favelado… Fui perseguida por ser quem sou. Derrotei [Paulo] Maluf, derrotei [José] Serra [na eleição de 1988 para a prefeitura de São Paulo]. Derrotei os caciques da política. Fui prefeita da maior cidade da América do Sul. Fui extremamente recompensada pelas escolhas que fiz.

MC. Em outras entrevistas, a senhora contou que quando prefeita de São Paulo era comum ouvir a pergunta “quem é o homem que governa por você?”. Esse tipo de investida mexeu com a sua atuação na época? Se sim, como?

LE. Diziam que eu era uma fantoche e que por trás de mim havia um administrador, homem, claro. As críticas eram persistentes, achavam que eu era uma ignorante, desmiolada e despreparada. Se mexeu comigo, mexeu me dizendo que eu deveria ser ainda mais forte. Mulheres são sujeitos históricos e têm que se reconhecer como tais. A política não pode simplesmente dispensar metade da população. O Estado de direito, a democracia, supõe que todos os cidadãos são sujeitos históricos, fazem a história, não só sofrem a história que os outros fazem. A Michelle Bachelet, ex-presidente do Chile, tem uma expressão interessante: “Quando uma mulher entra na política, muda a mulher. Quando muitas mulheres entram na política, muda a política”.

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