segunda-feira, setembro 20, 2021
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Canto de sereia? Alienação racial e social da sociedade brasileira, representada na expressão: “Eu não me deixo abalar pelo racismo.”

Uma das maiores crueldades das relações sociais no Brasil é a naturalização das suas desigualdades e contradições, e dos conflitos que delas se originam, no sentido de ignorar ou relativizar as mesmas, sem problematizar por qual motivo delas existirem e ocorrerem em nossos cotidianos. Como que para preservar um ideário de que vivemos em uma sociedade idílica, livre de preconceitos e (ultra)conservadorismos de qualquer espécie, um verdadeiro exemplo de harmonia social. Construção ideológica de sociedade que busca na verdade por inibir toda e qualquer forma de contestação ou afrontamento a ordem social vigente, aos padrões de controle e alienação que ocasionam o comando de nossas elites perante as camadas populares de nossa população, uma estruturação política-ideológica que se perpetua ao longo dos séculos de nossa história.

O que nos explica uma das razões da permanência do racismo e machismo enquanto elementos presentes e característicos dos conjuntos de nossas relações sociais tanto estruturais, quanto familiares. Nos perpassando e caracterizando enquanto sociedade, de fato, historicamente racista e machista, mas que se apresenta enquanto portadora de discurso civilizatório que nega essa condição. Nega e culpabiliza quem propõe o contrário, ridiculariza e desqualifica quem denúncia a nossa falácia enquanto povo sem preconceitos ou máculas.

Exemplo contemporâneo dessa situação é o uso da expressão “eu não me deixo abalar pelo racismo” que permeia uma grande quantidade de comentários e repercussões de matérias que abordam e denunciam manifestações de racismo e injúrias raciais, principalmente quando decorrentes no Brasil. Em que ao invés de se contrapor ao ato hediondo e criminoso do racismo e preconceitos em suas mais variadas expressões e significados, é desenvolvida condenação, quando não total desprezo e ojeriza, a quem se propõe enfrentar tal realidade. Numa postura de culpabilizar as vítimas e aqueles que a elas se solidarizam, e não aos que promovem, estimulam e se beneficiam desses atos nefastos. Numa linha muito similar ao conceito de “se eu não falar de racismo, ele deixará de existir” que era promulgado e repetido como forma de oposição as posturas políticas antirracistas dos movimentos negros brasileiros, por setores da sociedade que propunham uma postura isenta e “apartidária”, “não ideológica” e não conflitiva para se buscar combater, “sem excessos”, os casos de racismo no país. Muito mais preocupado em demonstrar uma não intenção em romper ou contradizer a “normalidade social brasileira” de harmonia e confraternização entre diferentes povos, culturas e tradições, do que de fato buscar contribuir para o combate e superação de nosso racismo sistêmico.

A sociedade brasileira, de maneira geral, se posiciona de maneira cega, surda e torpe perante o racismo, preferindo dirigir suas forças contra quem não compactua com tal comportamento, ao qual consideramos acintoso, embora condizente com os padrões elitistas e arcaicos que moldaram e nos caracterizaram enquanto sociedade desigual e excludente, que não aceita, e nem respeita, as pessoas, aos grupos humanos e conjuntos de ideias que vão ao desencontro dos valores e sentidos promulgados pelas nossas classes dirigentes, pelas nossas elites.

Realidade tão embutida em nosso meio, que vemos pessoas negras, por vezes grupos afrodescendentes, que repetem ao infinito, enquanto mote que denunciar e confrontar o racismo é se deixar abalar pelo mesmo, entrando em confronto direto não com aqueles que geram/manifestam o racismo, mas sim contra os sujeitos que dele não aceitam compactuar ou se deixar submeter. Não dirigindo por vezes nem uma palavra de condenação aos tantos atos desse tipo de crime que cada vez mais se tornam mais e mais divulgados e, portanto, mais frequentes e comuns as discussões diárias, as rodas de conversas decorrentes em nossas sociabilidades cotidianas.

Ou seja, no momento em que – graças as atuações dos órgão antirracistas e pró negritudes dos coletivos políticos e sociais negros, assim como das próprias vítimas que divulgam e denunciam os seus próprios casos de racismo e injúrias raciais, através das mídias sociais – a denúncia e enfrentamento ao racismo torna-se pauta pública e constante, não conseguindo mais se fazer mascarado, como um cerne a ser superado para atingirmos um patamar satisfatório de cidadania e de respeito aos direitos sociais e humanos mais básicos, temos uma parcela do grupo alvo desse sistema, que opta em não contestar esse modelo de sociedade que se reproduz e fortalece com as suas próprias mortes. Que defendem um ilusório sentimento de pertença igualitária, de convivência harmoniosa e democrática ante uma realidade que contradiz histórica e cotidianamente essa postura social e racialmente alienante.

Um processo de negação de nosso racismo e de reafirmação dos valores excludentes e discriminatórios deste, que acaba por classificar e rotular enquanto vitimização toda forma de não aceite ante as ocorrências do racismo brasileiro. Assim dando voz e sustentação não as diferentes e plurais formas de práxis antirracistas, mas sim ao discurso conservador e racista que se ampliam em alcance e ressonância, na nossa contemporaneidade em que ódios e intolerâncias são cada vez mais estimulados e defendidos enquanto sinônimos de autenticidade e virtudes.

Nunca defendendo ações coletivas ante ao racismo, mas sempre louvando a postura individual e isolada do “EU não me abalo…”, do “EU não me deixo rebaixar…”, do “EU não me deixo medir…”, do “EU não me deixo definir…”, como se só dependesse de uma vontade própria não se “deixar vencer” pelo racismo. Como se tal fenômeno só ocorresse por culpa das suas vítimas e não enquanto consequência de um sistema socialmente estruturado para dominação e controle das denominadas “populações subalternizadas”, as denominadas “minorias sociais(1)”  por determinado conjunto social, que no Brasil possuí classe, gênero e cor bem definidos. Eu não culpo ou enfrento o sistema, mas sim as vítimas destes…

Vitimismo”, “racismo reverso”, “revanchismo”, são expressões e conceitos que se multiplicam e encontram abrigos, fazem morada nessa atitude complacente e não conflitiva perante nossa sociedade em seu racismo cotidiano. Mas que ao mesmo tempo louva toda e qualquer fala ou atitude, mesmo que por vezes hipócrita, quando algum representante das elites manifesta apoio a luta antirracista, embora condene e execre quando tais ações ou palavras são exercidas por atores políticos ou grupos sociais negros.

Uma postura de esquizofrenia social, que se radicaliza e torna-se mais nítida, quando se faz a ela incorporar elementos de religiosidade fundamentalista. Em que resquícios de uma cristandade medieval passa a ser reproduzido como forma de superioridade moral. Pois renascido ou ungido em Cristo, não me deixo abalar ou não sou atingido pelo racismo. Culpabilizando novamente as pessoas que acabam atingidas por ele, por elas não terem “Cristo em seus corações” se deixam abater e se levar por tais situações, por vezes com uma narrativa em que se faz defender – num resgate teológico medieval – de que você sofrer racismo e passar pelas adversidades que dele se originam faz parte do processo de expurgo de seus pecados e de aguentar de maneira resiliente sua sina, pois toda glória e felicidades estão reservadas em uma vida eterna no Paraíso. Esse discurso alienante é de uma crueldade tão grande, pelo fato dele não negar a existência ou negação do racismo, mas sim de promulgar a sua explícita não contestação e enfrentamento em vida, pois assim a sua vida eterna no Paraíso está assegurada, condenando toda e qualquer ação em contrário como afronta à vontade divina, portanto devendo ser enfrentada e combatida com todo ardor. É uma forma de naturalização de nosso ordenamento social, de nossa estrutura racial que ocorre e se espalha pelas periferias urbanas e que estão na base direta do sectarismo religioso cristão que – literalmente – demoniza o livre exercício das expressões religiosas afro-brasileiras, de suas negritudes, de seus simbolismos e práticas de resistências. Uma forma de deturpação do conceito original de cristianismo, que se tornou peça integrante do processo de alienação racial e social da sociedade brasileira.

Mais um elemento a se somar a nossas características de incompletude enquanto nação, de nossas contradições e absurdos naturalizados de culpabilizar as vítimas por suas dores, sofrimentos e mortes. São as lógicas malditas que naturalizam e reproduzem como verdades absolutas que:

  • são as mulheres culpadas pela nossa misoginia e machismo;
  • são as populações LGBTQ+ culpadas pela nossa homofobia
  • são os pobres culpados por nossa exploração social;
  • são os negros e indígenas culpados pelo nosso racismo estrutural.

Em tempos tão difíceis e pesados, que por vezes transparecem não haver esperança de vivermos novos tempos, se faz necessário confrontar e radicalizar as práxis racistas e discriminatórias atuantes em nossa sociedade. Nesse sentido sendo necessário compreendermos e buscarmos superar os efeitos que tais fenômenos causam internamente, no sentido de alienação de pertença, aos grupos humanos que são diretamente atingidos, vitimados por nossa estrutura social arcaica e elitista – de cunho racista e machista – de viés classista.

Confrontar e superar nosso racismo sistêmico, ao mesmo tempo que superamos os efeitos que o mesmo causa no seio das populações afro-brasileiras é desafio posto que se apresenta, mais uma das armadilhas que se fazem comum nas trajetórias das lutas antissistêmicas no país. Um conjunto de desafios que se apresentam a contemporaneidade da luta antirracista e pró negritude, que deve ser encarado de frente, sem medo ou pudores para que se possa de fato inserirmos as populações negras enquanto sujeitos-cidadãos de fato e de direitos da sociedade brasileira. Culpabilizando e cobrando devidamente quem se deve por nossa desigualdade secular e não aqueles que lutam pelo seu direito de serem reconhecidos em sua plena condição humana. Para romper tal perversidade, se faz imprescindível a continua recuperação e valorização das historicidades, dos saberes ancestrais, dos ensinamentos políticos, das trajetórias de lutas e resistências que foram constituídas e se mantiveram – contra todas as perspectivas e interesses que visavam o extermínio completo da população negra em território nacional entre o final do século XX e começo do século XXI – como referências para constituição de novas formas e expressões de resistências afrodescendentes.

Não caiamos na falácia de que “racismo não se discute”, ou de que o “racismo só existe para quem acredita nele”, são novos cantos que a sereia entoa para continuar a nos controlar. Para manter tudo como sempre está…

Nesse sentido, se fazendo necessário sermos cada vez mais e sempre “maus cidadãos” por excelência, pois o bom comportamento e o respeitar aos limites da ordem, é a vitória e perpetuação desse sistema maldito que, em diferentes formas, nos separa, aliena e mata a séculos! 

Notas Explicativas: 

(1) Conceito sociológico, referente a precariedade e exercício aos direitos sociais e cidadãos de determinados grupos humanos, assim como ao apartamento destes dos processos de constituição e gestão decisórios da sociedade em que se encontram inseridos, em detrimento a grupos socialmente hegemônicos. Não sendo, portanto, conceito necessariamente relacionado ao quantitativo populacional de um grupo humano perante outro.

Christian Ribeiro, mestre em Urbanismo, professor de Sociologia da SEDUC-SP, doutorando em Sociologia pelo IFCH-UNICAMP, pesquisador das áreas de negritudes, movimentos negros e pensamento negro no Brasil.

** ESTE ARTIGO É DE AUTORIA DE COLABORADORES OU ARTICULISTAS DO PORTAL GELEDÉS E NÃO REPRESENTA IDEIAS OU OPINIÕES DO VEÍCULO. PORTAL GELEDÉS OFERECE ESPAÇO PARA VOZES DIVERSAS DA ESFERA PÚBLICA, GARANTINDO ASSIM A PLURALIDADE DO DEBATE NA SOCIEDADE. 

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