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Cantora Bia Ferreira fala sobre música como “artivismo”

Feminismo, antirracismo, religião e arte como posição política são alguns dos temas abordados nesta entrevista exclusiva

Por Bruna Caetano e Marcos Hermanson, do Brasil de Fato

Bia Ferreira (Foto: Lubs Meireles)

Bia Ferreira tem 26 anos e vive da sua música há dez. Recentemente, estourou com canções como “Cota Não é Esmola”, “Diga Não” e “Não precisa ser Amélia”. A potência de sua voz e o conteúdo de suas letras são um soco no estômago de qualquer um.

Nascida em Carangola, Minas Gerais, passou boa parte da vida em Aracaju (Sergipe), e por isso costuma se apresentar como “cosmopolita”, e não como mineira. Antes de se fixar no Rio de Janeiro, morou em ocupações urbanas em São Paulo e fazia bicos para sobreviver. No Parque da Água Branca, onde foi entrevistada pelo Brasil de Fato, às vezes lavava os vasilhames da barraca de suco de uma feira de orgânicos para tirar 80 reais no final do dia.

Durante a conversa, ela se define como “artivista” e fala que não vai se calar, custe o que custar. A cantora aborda também o tema da música como uma forma de fazer a revolução e “ensinar tecnologias de sobrevivência” ao povo preto e LGBT.

O lançamento de seu novo disco, “Igreja Lesbiteriana: um Chamado”, ocorre no dia 13 de setembro nas plataformas digitais. No dia 21, ele será apresentado ao vivo em um show no SESC Pompéia, em São Paulo.

Confira a íntegra da entrevista abaixo:

Brasil de Fato: Muita coisa mudou desde que você escreveu “Cota Não é Esmola”, em 2011. Parece que esse pensamento que você tenta combater na sua música tomou outras proporções de lá para cá. Como você vê o fato de isso ainda ser uma luta, e que talvez tenha que ser travada até mais intensamente agora?

Bia Ferreira: Eu acho que esse posicionamento contra as cotas é fruto da desinformação e da falta de oportunidade. A informação é o que liberta mentes, faz com que as pessoas queiram a mudança, e querer a mudança é um problema muito grande para esses homens que detém o poder.

Fico triste de ainda precisar falar de cotas hoje em dia, mas entendo que o processo de descolonização de mentes pretas é muito recente. A abolição aconteceu há 132 anos. Quando penso nisso, lembro que meu bisavô era escravo. Não tive acesso ao nome dele, não tive acesso a quem foi o pai dele, os irmãos dele.

Meu avô está com noventa anos. Meu avô é fruto do ventre livre. Eu queria não falar sobre isso, mas se eu não falar as pessoas não vão ter acesso a informação, e eu acredito que a informação transforma.

Em algumas entrevistas você diz que, no começo, não se sentia representada pelo movimento feminista. Por quê?

O feminismo não chegou na favela em que eu morava. Era uma parada da academia. Agora é moda estudar preto. É foda falar o que eu tô falando, mas é moda. Agora ninguém quer ser racista, ninguém quer ser branco. Imagino que deve ser horrível ser branco. Quando você é branco e entende como foi criada essa sociedade…é “escroto” você saber que foi o seu bisavô.

Por que, se uma mulher preta tiver apanhando na rua do marido, a galera fala assim “ah, deve ser briga de marido e mulher”? Se for uma menina loirinha e o cara deu um grito com ela, já tem cinco em cima dele. É porque o corpo da mulher preta não é enxergado na sociedade como o de uma mulher.

Quando eu vejo movimento de mulheres indo pra rua mostrar os peitos, eu não me sinto contemplada, porque o meu corpo sempre foi exposto, sempre foi mostrado como um pedaço de carne, e nu. Era assim que a gente era vendida. É assim que a gente é vendida. Esse ano foi o primeiro em que a Rede Globo colocou a Globeleza de roupa.

Quando eu entendi que existe muita mulher preta que já está pensando a revolução e tecnologias de sobrevivência para a vida e manutenção de mulheres pretas nessa sociedade, eu entendi que existe sim uma luta pela vida dessas mulheres.

É um feminismo sim, mas ele é interseccional. Não é um feminismo que fala só das mulheres brancas. Fala das mulheres brancas, pretas, indígenas, trans, travestis. É sobre a vida das mulheres. Por isso eu me sinto contemplada.

Tem quem diga: “a Bia Ferreira não gosta de branco”. Não é que eu não gosto de branco. Eu não gosto de um sistema chamado branquitude, que foi construído para acabar com a minha vida e com a vida dos meus. E o indivíduo reproduz o sistema e o sistema reproduz o indivíduo.

Não é contra as mulheres brancas, não é contra o feminismo. É a favor de um feminismo que não olha só para o seu umbigo. É um feminismo que pega seu carro e vai na favela buscar as manas que não tem a grana do busão.

Para eu segurar a mão de uma pessoa branca na luta comigo, eu preciso que ela sangre comigo. Porque eu sei que seu eu estiver segurando a mão dela, o tiro vem em mim, não vai nela. Você nunca vai saber o que é ser eu, mas se coloca no meu lugar. É sobre isso que eu falo em “De Dentro do Ap”.

Qual é a sua compreensão do momento político atual?

Caos. As pessoas têm memória fraca, muito curta. Durante os anos do governo Lula, essas pessoas experimentaram o acesso à moto, casa própria, carro, conseguir pagar a creche do seu filho. A gente viu preto e pobre indo para fora do Brasil estudar.

Você sabe o que é você comer ovo todo dia e esperar chegar o domingo para comer frango? Você se formar em uma conjuntura política com vários acessos faz você achar que sempre foi assim. Faz você esquecer como a gente estava vivendo antes. Nesse momento, a gente achou que era rico.

A atual conjuntura é triste, é caótica, mas é necessária. Se a gente não tivesse nesse momento em que a gente está agora – metade da Amazônia devastada, um monte de direito tirado, você sabendo que não vai se aposentar, você vendo os ricos ficando mais ricos, as pessoas de classe média ficando pobres e os pobres ficando miseráveis – as pessoas não iam querer uma mudança.

Daqui dois anos, não vai ter ninguém que votou no Bolsonaro. Eu rezo para que o próximo governo seja de uma mulher, e que essa mulher consiga terminar o governo dela.

Recentemente você se apresentou no Festival Lula Livre, em São Paulo. Como você enxerga essa relação entre arte e política?

Existem muitos soldados do pão e circo, muitas pessoas dispostas a se venderem e produzirem conteúdo ruim. Eu entendo que existem pessoas com um pensamento exclusivamente capitalista, que pensam no dinheiro, e cuja produção é usada para cegar as pessoas.

Os artistas precisam se posicionar. Nós temos um papel importantíssimo, porque a gente fala com as pessoas. O “artivismo” deveria ser uma base para quem quer viver de arte. Não tem como você viver de arte se calando diante do que está acontecendo. Se você se cala, então o que você faz não é arte, é pão e circo.

Como foi crescer em uma família evangélica? Qual é a sua relação com a religião hoje em dia?

Meu pai e minha mãe são pessoas que lutaram durante a vida toda por uma coisa em que eles acreditavam: a transformação de vidas através da história de Jesus. Existem muitas pessoas evangélicas sérias. Existem muitas pessoas coerentes, que acreditam e vivem aquilo que pregam.

Só que existem muitas pessoas que tem um discurso preconceituoso e se escondem atrás da religião para manipular pessoas. Aí eu posso citar o pastor Edir Macedo, que é bilionário. Posso citar o R.R Soares, o Silas Malafaia, Valdemiro Santiago, e vários outros que abrem uma igrejinha em qualquer buraco para manipulação de mentes e recurso próprio.

Mataram Jesus porque ele era um cara preto e revolucionário que contestava os religiosos da época.

Como é o seu processo criativo? Quem te inspira a fazer as suas músicas?

Eu posso citar várias pessoas. Angela Davis, Sueli Carneiro, Audrey Lorde, Assata Shakur. Mas eu gosto de dizer que as minhas referências andam comigo. Tudo isso que eu falo até hoje foi construído pelas pessoas que andam comigo, e não pelas pessoas que eu li. As pessoas que eu li construíram a base teórica para o que eu falo. Mas as pessoas que andam comigo são as pessoas que constroem a base de vivência do que eu faço.

Então eu posso citar para você a Leci Brandão, que é uma mulher revolucionária. É uma senhora preta, compositora, instrumentista e sapatão. E tá viva. Dona Conceição Evaristo, que senta na mesa do bar para trocar ideia com a gente. Eu posso falar da Preta Rara, da Doralyce , da Manu Coutinho de Aracajú, da Jaêmia, Laine Almeida, Anaia, Débora Ambrosia, Bruna Amara, Luz Ribeiro, Eva Rap Diva, Érica Malunguinho, Dani Monteiro, Talíria Petrone.

A Luna me lembrou da Preta Ferreira. A Preta Ferreira, além de ser uma mulher preta que luta por moradia é uma mulher preta artivista, que faz arte para se comunicar com a sociedade. Ela não está presa porque participa de movimentos sociais na luta por moradia. Ela está presa porque é uma mulher preta que luta e fala o que pensa através da arte, e é isso que acontece com as mulheres pretas que falam. Ou elas são presas, ou são mortas.

Agora em setembro você vai lançar seu primeiro disco. Fale um pouco sobre ele.

Eu vivo de música desde os meus 16 anos, e eu tô com 26. São dez anos para lançar meu primeiro disco. São seis anos tentando lançar um disco. Mas a gente é mulher preta, e mulher preta falando de política não tem muita gente que abraça nossa ideia.

Esse disco tá saindo sem recursos. Todas as pessoas que trabalharam nesse disco dispuseram do seu amor pela arte. Acreditaram no trabalho que a gente faz, na revolução que a gente prega, e quiseram construir isso com a gente.

Esse disco se chama “Igreja Lesbiteriana: um Chamado”, porque recebi um chamado e fiz um compromisso: nunca me calar enquanto tiver alguém sendo oprimido. Enquanto tiver um preto com menos direitos, enquanto houver racismo, enquanto as cotas ainda forem negadas, eu não vou me calar. A gente não vai se calar. Esse disco está saindo por que pessoas decididas a não se calar estão construindo isso comigo.

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