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Carta aberta ao juiz que considera assédio em ônibus ato ‘de menor potencial ofensivo’

Eu estava tentando digerir o seu discurso, mas confesso que ele é intragável assim como a sua desculpa para soltar homem que ejaculou em vítima.

por Juliane Trevisan no HuffPost

Olá, doutor José Eugenio do Amaral Souza Neto, tudo bem?

Não nos conhecemos, mas gostaria de ter uma conversa franca com o senhor.

Acredito que o Excelentíssimo tenha faltado ou estava distraído em algumas aulas da escola e principalmente da vida. Por isso, venho por meio desta disponibilizar um pouco do meu tempo para explicar o que significa constrangimento. Substantivo masculino, a palavra representa pressão exercida sobre alguém; estado de quem não se sente à vontade; acanhamento; inibição; circunstância vergonhosa; situação de completo embaraço; vexame. Essas definições você encontra facilmente em um dicionário, porém, vou te ensinar didaticamente o que essa palavra significa no nosso dia a dia.

CONSTRANGIMENTO é você passar parte da sua adolescência se escondendo atrás de roupas largas por se achar culpada em ter um maníaco sexual te perseguindo e te ligando no trabalho diariamente durante meses;

EMBARAÇO é você ter que descer de um ônibus no meio do nada fugindo de um cara que se masturba enquanto olha para você;

VERGONHA é você pedir para alguém ir embora da sua casa logo após ele te “encoxar” enquanto você lavava a louça e na sequência rezar para que ele não contasse para ninguém, pois você certamente seria a responsável;

DESCONFORTÁVEL é você ter que inventar namorados e maridos em várias situações para fugir de cantadas nada educadas e agradáveis;

VIOLÊNCIA é você ter que descer correndo de um táxi às 3 horas da madrugada, em plena Avenida Santo Amaro fugindo de um motorista que tentou passar a mão nas suas pernas;

ACANHAMENTO é você perceber que várias pessoas ao redor estão te julgando e comentando que a culpa era do tamanho da sua saia;

COERÇÃO é você ter que medir sempre as suas atitudes diante dos homens porque se você é educada demais, até mesmo enquanto pede um orçamento para um tapeceiro, você está dando mole e a cantada barata é cortesia da casa;

AMEAÇA é você ter medo de entrar em um elevador com um completo estranho;

OPRESSÃO é você ter que mudar a hospedagem da sua viagem porque dormir em quarto compartilhado em um hostel é quase um convite ao abuso;

AFLIÇÃO é você ter receio de andar sozinha na rua à noite apenas pelo fato de ser mulher;

MAL-ESTAR é você assumir instintivamente uma atitude violenta toda vez que alguém esbarra em você em um bar ou em um ônibus;

ABORRECIMENTO é você lidar com esse tipo de coisa diariamente, e muitas situações passarem despercebidas porque a gente já se acostumou a viver assim. Afinal, “somos frutos de uma geração que aprendeu, erradamente, que atitudes machistas, invasivas e abusivas podem ser disfarçadas de brincadeiras ou piadas” né, Zé Mayer?

DESESPERO é agradecer diariamente por nunca ter te acontecido nada pior.

Caro doutor José, desculpe pela demora em escrever esta carta, mas é que eu estava tentando digerir o seu discurso, mas confesso que ele é intragável assim como a desculpa acima.

Ao contrário de muita coisa que li na internet, não te desejo mal e muito menos para as mulheres presentes na sua vida; afinal, tenho certeza que elas são minhas companheiras nessa luta diária por sobrevivência.

Desejo que o senhor tenha serenidade, discernimento e principalmente responsabilidade em todos os seus atos profissionais, pois eles não refletem apenas na vida do Diego, da Clara, da Juliana e de outras.

Os reflexos se estendem por toda a sociedade.

Atenciosamente,

Juliane.

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