terça-feira, janeiro 18, 2022
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Carta às mulheres para as quais a reciprocidade de amar (ainda) não rolou em meio às campanhas publicitárias direcionadas ao Dia dos Namorados.

Irmãs, do lugar da cisgeneridade e heteronormatividade falar disso é menos doloroso, acreditem, muito embora dores não possam ser medidas, ranqueadas. Para tantas outras mulheres fora desses pacotes e padrões as coisas tomam proporções gigantes. Preciso desmarcar aqui que não se trata de reificar a figura masculina muito menos de dizer que o sentido único, crucial da vida de nós mulheres é ter um homem ao lado. Temos muitos outros necessários “quereres”.

Muitos poderão pensar que o que tenho a dizer é endereçado às irmãs solitárias, celibatárias, as que nunca foram cortejadas, que passaram pela adolescência sem o famoso frio na barriga, sem as dúvidas entre paixões avassaladoras, que sequer sabem o sabor de um beijo na boca, como há anos ouvi de uma aluna de 19 anos de idade, preta retinta e gorda, ainda sem ter a compreensão das opressões q lhe atravessavam. 

-Porque comigo nunca aconteceu,professora? Indagou-me.

Não é mais nenhuma novidade que numa sociedade em que mulheres não são vistas como gente, mulheres negras não são nem mesmo vistas como mulheres.

Para mulheres em geral e negras, em particular, em vários momentos a solidão nos invade a vida e quer fazer morada. Somos vistas como um corpo para o prazer, mas não para o amor. Muitas de nós precisamos nos esconder/sermos escondidas para ter o que pensamos ser afeto, mas que sabemos não passar do q está mais próximo do meramente instintivo do que sentimento, construção exclusivamente humana…e isso dói. Não estar nos pensamentos de alguém, não ser surpreendida com um convite para jantar, para andar de mãos dadas, para conhecer os familiares da pessoa que retribui o seu amor.

Dirijo-me também às mulheres que, por não desistirem do amor, tentam preencher o vazio afetivo com parceiros que são qualquer coisa, menos um companheiro. Estão vivendo de acordo com as convenções impostas pela sociedade e tem um homem que é lido como seu (?) marido, namorado. Ele está aí contigo, mas você não o acessa no lugar da essencialidade, não há diálogo, papo, risadas, nada lhe parece compatível com aquela pessoa com a qual se divide o teto, o feijão, a provisão dos filhos, as contas do mês, mas você insiste, acometida pela síndrome do pombo, e aceita viver de migalhas.

Em muitos casos é até o inimigo com quem se dorme, aquele que lhe agride o corpo e a alma, o que a vizinhança espreita e sabe da violência que vc sofre, o que não faz questão de fingir gentileza nem diante de familiares que, inclusive, te convenceram a “aceitar” argumentando com a máxima de que  “todos os homens são assim mesmo” “não existe o bom sem defeito”, “faça por onde viver”. O clássico conformismo que sua família te impõe.

Queridas, vocês são/ estão tão sozinhas quanto as que estão na estatística da solidão definitiva. Entendam e mudem o rumo de suas vidas.

Na semana em que seremos bombardeadas com imagens de afeto e, muitas de nós, seremos sequer lembradas pela publicidade capitalista ( vide o caso da marca de camisetas que “esqueceu” que mulher preta pode ser amada) escolham se amar, se priorizar, presentear a si mesmas com a paz q a solitude pode oferecer. Mas não desistam do amor, de amar com reciprocidade, de ter companhia para todas as horas, aquele alguém que te enaltece, agrega, te transborda, não simplesmente completa. Todas nós merecemos vivenciar a revolução movida por este amor.

O dia dos namorados é simbólico e pode sim ser o seu dia de se amar,antes de tudo.

É uma época desconfortável para quem não vive este tipo específico de afeto, sabemos, mas não pode ser  a de oficializar dor e tristeza.

Uma hora o jogo vira e,se não virar, entenda que essa culpa não é sua, não há nada de errado conosco.

Joselice Souza Barbosa, militante feminista antirracista, professora da escola básica, mestranda em educação pela Universidade Estadual de Feira de Santana

** ESTE ARTIGO É DE AUTORIA DE COLABORADORES OU ARTICULISTAS DO PORTAL GELEDÉS E NÃO REPRESENTA IDEIAS OU OPINIÕES DO VEÍCULO. PORTAL GELEDÉS OFERECE ESPAÇO PARA VOZES DIVERSAS DA ESFERA PÚBLICA, GARANTINDO ASSIM A PLURALIDADE DO DEBATE NA SOCIEDADE. 

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