Carta para minha vó

Imagem: Torsten Lorenz

Sou a mais velha de três irmãos, fomos criados todos numa casa de madeira muito simples, onde o chão era encerado com pasta de cera, cujo cheiro lembro até hoje.

Quem cuidava de nós três era minha vó, uma senhorinha de um metro e meio de altura, mas com um coração gigante. Minha mãe se dividia em dois empregos, jornada dupla entre um e outro e era na minha infância, uma presença ausência na casa. Quando estava em casa, precisava dormir e nós não podíamos fazer barulho. Brincávamos no pátio, cheio de árvores, laranjeiras e bergamoteiras..

Minha vó para reforçar o orçamento apertado, desde sempre, lavava para fora. Era uma exímia lavadeira e tinha muito orgulho por saber alvejar uma roupa como ninguém. Eu lembro dos carros das “patroas” chegando, trazendo trouxas de roupas imensas, lençóis e toalhas, muitas com manchas que minha vó se esmerava em colocar no anil, colocar as roupas estendidas ao sol, sobre a grama e depois deixar de molho, trocar a água tantas vezes quantas fossem necessárias até deixar tudo limpo. Ela fazia isso num tempo em que não existiam esses sabões em pó potentes, que lavam sozinhos.. usava sabão de pedra, anil (era uma pedra azul que vinha embalada numa trouxinha e imerso na àgua, liberava uma cor azul nas roupas que tinha o poder de branquear). Hoje eu sei que a pedra de anil, além de limpar a sujeita, proporciona também uma limpeza espiritual poderosa, protegendo contra as más energias.. talvez minha vó também soubesse.

Além de lavadeira, minha vó também era benzedeira, e das boas! Lembro que vinham pessoas de longe, da região da campanha, com as mais diversas dores e queixas, recorrer a ela por acreditarem, como eu acreditava, no seu poder de cura. Ela usava benzedura com sete raminhos de ervas que colhia no nosso pátio, e passava esses raminhos nas pessoas enquanto fazia uma oração em som baixo, quase um sussurro.. A pessoa tinha que vir em casa para se benzer por sete dias, era o que recomendava a prática de cura, e as pessoas vinham, religiosamente, pelo período de sete dias corridos, em busca de cura e alívio de suas dores.

Ela benzia também com brasa, tinha um pequeno fogareiro em ferro que mantinha sempre aceso para o caso de alguém vir se benzer. A benzedura em brasa dependia do mal de afligia a pessoa que a procurava, normalmente era usada para os males da pele, como quando uma aranha deixa um rastro de irritação na derme ou algo assim e neste caso, consistia em mergulhar num copo com água, o carvão aceso que minha vó pegava no braseiro, enquanto a brasa caía na água, fazendo um barulho de fervura, minha vó fazia uma oração.. essa operação se repetia por várias vezes e tinha um mistério. Se o carvão ficava no fundo do copo, a pessoa precisava voltar várias vezes para repetir a benzedura e se ficava em cima, perto da borda do copo, significava que não era tão grave, o que se resumia a menos retornos.

Ela não cobrava por essas benzeduras, e as pessoas, aliviadas de suas dores e angustias, a recompensavam através de presentinhos, coisas simples como latas de pêssego em calda, verduras colhidas nas hortas caseiras e no caso de alguém com mais condições, até um corte de carne trazido da campanha (zona rural).

Também gostava de cantar, vivia cantando pelos cantos, penso que para deixar sua vida mais leve. Acho que isso a reconectava com o seu passado, com o período na qual foi feliz junto do meu avô, que eu não conheci. Ela ficou viúva quando meu pai tinha seis meses de vida, ficou sozinha e num país estranho a ela, longe de seus familiares. Era uruguaia, nascida num lugar chamado Minas de Corrales e meu avô era açougueiro, numa dessas idas ao Uruguai para trazer carne, a conheceu, casaram-se e vieram viver no lado de cá da fronteira.

Graças aos cuidados e aos afetos dessa mulher pequenininha, porém gigante de alma e coração, que hoje aqui, emendando uma trajetória de estudos em cima de outra, pensei em acessar essas memórias que me são muito caras. porque minha vó desde sempre me incentivou a ler e a estudar, não querendo para mim um destino de servidão. Ela dizia que eu devia ser professora, quis o destino que eu fosse para outro caminho, mas agora estou me reencontrando, estudando muito para concretizar o que ela previu para mim. Não é fácil, a sociedade aqui na região da campanha não entende muito bem porque uma mulher negra, que deveria estar atrás de um balcão ou na tarefa de cuidar da casa, se dedica tanto a estudar e ainda tem o desaforo de querer entender o mundo. Eu sei o porquê! Por ti, vó.

 

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