Centenas de milhares de mulheres ainda morrem de parto em todo o mundo

Centenas de milhares de mulheres continuam a morrer em consequência de problemas relacionados com a gravidez e o parto em todo o mundo. O número de mortes tem diminuído nos últimos anos mas apesar dos progressos, a taxa anual de declínio é menos da metade da necessária.

 

No Peru, 74 por cento das mulheres que vivem em áreas rurais e
90 por cento das indígenas dão à luz em casa e sem assistência médica (Pilar Olivares/Reuters)

Todos os anos mais de 350 mil mulheres morrem em todo o mundo por problemas relacionados com o parto e a gravidez, sobretudo em África e na Ásia, e 215 milhões não têm acesso a meios de planeamento familiar, referem dados da Organização Mundial de Saúde (OMS) de 2010.

Em Moçambique, por exemplo, um estudo do Ministério da Saúde (MISAU), divulgado no ano passado, revela que onze mulheres morrem por dia naquele país, em consequência de complicações relacionadas com a gravidez e o parto, O mesmo estudo afirma também que anualmente, 48 de mil recém-nascidos morrem entre os zero e 28 dias de vida, por complicações surgidas pós-parto. Muitos desses problemas resultam de práticas pouco apropriadas durante nascimentos realizados em casa, o que levou a cerca de 27 por cento do total de mortes em crianças menores de cinco anos.

Os dados revelados no relatório “Situação Mundial da Infância 2009 – Saúde Materna e Neonatal” do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) indicam os países onde o risco de mortalidade materna é maior: Níger, Afeganistão, Serra Leoa, Chade, Angola, Libéria, Somália, República Democrática do Congo, Guiné-Bissau e Mali. Entre as vítimas, contam-se cerca de 70 mil adolescentes entre os 15 e os 19 anos.

As mortes por complicações de parto verificam-se em muitos países de outros continentes, além de África e de Ásia. No Haiti, em cada cem mil nascimentos morrem cerca de 670 mulheres. A Bolívia é o país com a taxa de mortalidade materna mais alta na região andina (290 ao ano), onde há cerca de dois milhões de mães adolescentes, 54 000 das quais com menos de 15 anos de idade. No Peru, 74 por cento das mulheres que vivem em áreas rurais e 90 por cento das indígenas dão à luz em casa e sem assistência médica.

Segundo o referido relatório da UNUCEF, a maior parte dos casos de morte em mulheres grávidas deve-se a quatro causas principais: hemorragia severa depois do parto, infecções, hipertensão e abortos. Em 2008, por exemplo, cerca de mil mulheres morreram, por dia, em todo o mundo, devido a essas complicações. Mais de 500 delas viviam na África Subsaariana e 300 no Sudeste Asiático. As mulheres pobres que vivem em zonas rurais, são as principais vítimas, descriminadas pela dificuldade de acesso aos serviços de saúde, segundo a OMS.

O relatório notava ainda que o risco de uma mulher de um país em desenvolvimento morrer devido a uma causa relacionada com a gravidez ao longo da vida é 36 vezes maior comparativamente a uma mulher que vive num país desenvolvido.

Números optimistas
Apesar da situação preocupante, o número de mulheres que morrem em consequência de complicações durante a gravidez e o parto diminuiu 34 por cento entre 1990 e 2008, de acordo com o relatório “Tendências da mortalidade materna” realizado pela Organização Mundial da Saúde, pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), pelo Banco Mundial e pelo Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA).

Mas pesar dos progressos, a taxa anual de declínio é menos da metade da necessária para atingir os objectivos pretendidos, segundo Margaret Chan, Directora Geral da OMS. Grande parte das mortes maternas são, contudo, evitáveis, dependendo do acesso ao planeamento familiar e à qualidade dos serviços de saúde. É neste sentido que trabalha a organização europeia Marie Stopes International, com sede em Inglaterra, desenvolvendo acções de protecção à saúde materno infantil em mais de 40 países do mundo.

Na campanha “Make Women Matter”, esta organização salienta a necessidade de investir na igualdade de acesso à saúde materno-infantil no mundo inteiro para combater a mortalidade, o baixo uso de contraceptivos e as baixas percentagens de partos com assistência.

No Afeganistão, na Serra Leoa, na Índia, no Paquistão e na Tanzânia, os elementos da Marie Stopes International têm apostado no treino de parteiras, na promoção de melhores condições de trabalho a médicos e enfermeiros e no aumento do acesso aos contraceptivos. Segundo números disponibilizados por esta organização, o apoio da Comissão Europeia para este projecto, desde 2004, já se traduziu em mais de dez milhões de consultas no campo da saúde reprodutiva e em mais de quatro milhões de partos assistidos por pessoal de saúde. Além disso, a comissão tem investido no esclarecimento acerca dos direitos das mulheres para que estas façam as suas próprias escolhas no que respeita à maternidade.

Fonte: Publico.Pt

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