Cesárea forçada no Rio Grande do Sul gera discussão sobre direito das mulheres

Grupos denunciaram caso na Comissão de Direitos Humanos e Minorias.

A atitude da grávida Adelir Goes, de 29 anos, descontrariar a recomendação jurídica e médica da cidade de Torres (RS) de fazer uma cesariana, gerou polêmica nas redes sociais e causou comoção entre mulheres que fazem parte de grupos ativistas, levantando a questão de quem realmente tem poder sobre o corpo da mulher.

Para a publicitária Lidiane Fernandes, de 33 anos, que está grávida, Adelir teve o parto roubado, assim como ela.

— Venho de duas cesáreas anteriores, completamente desnecessárias. A primeira por chegar às 40 semanas (já é sabido que uma gravidez sadia pode ir seguramente até 42 semanas ou mais, sempre com acompanhamento médico adequado). Na segunda fui avisada ao final da gestação que minha médica iria viajar e não estaria aqui para acompanhar meu parto. Então achou melhor adiantá-lo numa cesárea. Por falta de informação minha, acabei cedendo.

Comissão de Direitos Humanos e Minorias

Após se sensibilizar com o caso de Adelir, Lidiane fez uma denúncia via internet na Comisão de Direitos Humanos e Minorias para, sobretudo, as mulheres terem um maior acesso à informação na hora de escolher o tipo de parto que quer ter, o que segundo ela não ocorre no Brasil.

— Não estamos numa ditadura — ou estamos? — médicos são prestadores de serviço. Não devem decidir sobre o que acham ou deixam de achar melhor para nós, pacientes. Eles devem nos informar de ambos procedimentos, dos prós e contras e, assim, deixar que nós tomemos a decisão.

Malila de Araújo Barros Wrigg, de 32 anos, é mãe de dois filhos, pedagoga e doula — assistente de parto. Assim como Lidiane, fez uma denúncia na Comissão de Direitos Humanos e a compartilhou em seu perfil no Facebook. Ela diz que tomou a iniciativa “porque não pode haver tamanho precedente legal contra os direitos da mulher sobre seu próprio corpo. Ainda mais sob falsas alegações”.

Pesquisa

Lidiane ainda defende o estudo por parte das mulheres para não serem enganadas.

— Ela já pesquisou e sabe dos riscos de A e B, e já tomou sua decisão. O corpo é dela. Quem decide quais riscos correr é ela, e ninguém mais.

A advogada e blogueira Gabriela Sallit, de 34 anos, começou a estudar quando ficou grávida de primeiro filho. Em reportagem ao R7, ela contou que levou suas pesquisas ao obstetra, que assumiu desconhecê-las.

— Ele disse que não conseguia fazer o parto que eu queria. Procurei uma clínica obstétrica referência em parto humanizado e comecei a conviver com grupos de mulheres que tinham sido seriamente agredidas em seus partos. Isso virou um mote de trabalho.

No blog Dadadá, ela escreve sobre assuntos diversos, como brincadeiras, comidinhas, gestação, roupas, violência obstétrica, parto entre outros. De acordo com a advogada, a missão do blog é militar, contar histórias e servir como instrumento para que pessoas possam se defender contra esse tipo de agressão.

— É muito comum que as mulheres sofram alguma violência no primeiro parto e depois busquem uma forma de parto mais humana, mais respeitosa. Juntando com meu trabalho virou uma forma de advogar.

“O médico me enganou”, afirma a obstetriz Ana Cristina Duarte, de 48 anos. A mulher que tem dois filhos conta que passou por uma cesárea em seu primeiro parto e depois por um parto normal.

— O médico falou que eu tinha o colo do útero muito grosso e que o bebê poderia sofrer, então eu tinha que fazer cesariana. Depois eu descobri que isso não era verdade. Troquei de médico e procurei um que fosse especializado em parto normal.

Em seu segundo parto, quatro médicos afirmaram que ela não poderia ter parto normal porque já tinha feito uma cesárea.

— Aí eu fui atrás da rede de ativismo.

Ela então não só teve o segundo filho a partir de um parto normal, como deixou a profissão de bióloga para virar obstetriz.

Para ela, todas somos Adelir “porque temos que ter direito às decisões sobre nosso corpo”.

— Não posso ser obrigada a passar por um procedimento por força da lei, eu tenho direito sobre meu corpo.

Além de fazer parte do ativismo a favor do parto natural humanizado, ela também abraçou o movimento “Todas somos Adelir”.

Malila Wrigg teve complicações em sua primeira gravidez, Pré-Eclampsia e Síndrome Hellp, como já estava ciente das evidências científicas sobre sua condição procurou uma rede ativista para entender o parto humanizado.

— Quando tive o mesmo quadro, procurei assistência humanizada. Humanização significa assistência baseada em evidências, o que faz toda a diferença para gestantes. Tive todo o suporte, tanto que uma gestação que pela assistência tradicional não chegaria a 30 semanas, chegou a 42 semanas e cinco dias.

 

 

 

 

Fonte: R7

 

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