Chimamanda: “Pai é verbo tanto quanto mãe” – dicas práticas para uma formação igualitária

Escritora nigeriana lança livro ‘Para educar crianças feministas’ com dicas práticas para uma formação igualitária

“Se o seu marido dorme com outra mulher e você o perdoa, será que a mesma coisa aconteceria se você dormisse com outro homem?”. Com esse questionamento, a escritora Chimamanda Ngozi Adichie (Nigéria, 1977) inicia seu mais recente livro. “Se a resposta for “sim”, então a sua decisão de perdoá-lo pode ser uma escolha feminista, já que não tem relação com o gênero”, concluiu a autora.

no El País

O novo livro da escritora feminista não é, no entanto, sobre relacionamentos. Ao menos não sobre relacionamentos entre casais. Para educar crianças feministas, um manifesto(Companhia das Letras, 14,90 reais) é praticamente um manual com questionamentos e respostas sobre a educação infantil atrelada ao feminismo.

Feito de 15 lições, o manifesto pode ser lido em uma sentada só. Alguns questionamentos são mais complexos, como esse que abre o livro, sobre a vida íntima de um casal. Outros, de fato, são mais simples, como brinquedos com as cores “de menino” e “de menina”, um ponto que já deveria ter sido superado. Mas não está.

Escrito na forma de uma carta que a autora enviou para uma amiga que acabara de ser mãe, o livro é mais um no estilo Chimamanda de questionamentos. Nascida em Enugu, na Nigéria, a escritora hoje vive entre seu país natal e os Estados Unidos. Tornou-se mais conhecida depois que seu romance Americanah(Companhia das Letras) foi lançado, em 2014, e rapidamente se tornou referência para meninas e mulheres de diferentes gerações. Antes disso, porém, Chimamanda já havia publicado Meio sol amarelo (2008) e Hibisco roxo (2011), ambos pela Companhia das Letras. Em 2014, seu primeiro manifesto ganhou forma de livro: Sejamos todos feministas foi um discurso da autora no TED, que acabou adaptado e publicado em 2014.

Agora, a autora recorre ao mesmo formato de manifesto em Para educar crianças feministas. Após o questionamento sobre infidelidade a partir do ponto de vista do gênero, Chimamanda dispara a primeira lição: Não seja definida somente pela maternidade. “Seja uma pessoa completa, nunca peça desculpas por trabalhar. Você gosta do que faz e gostar do que faz é um grande presente que você dá à sua filha”.

Na sequência, a autora coloca novamente os pais em pé de igualdade, ao dizer que “pai é tanto verbo quanto mãe”. “Às vezes as mães, tão condicionadas a ser e a fazer tudo, acabam sendo cúmplices na redução do papel dos pais”, escreve. “Abandone a linguagem da ajuda. Ele não está “ajudando”, está fazendo o que deveria fazer”.

As lições que fazem parte do manifesto de Chimamanda não são somente para mães e pais. Servem para homens e mulheres, solteiros ou casados. Podem, inclusive, ser uma boa alfinetada para aquele tio machista. Nunca é tarde.

Para educar crianças feministas

Algumas das dicas da autora:

“Abandone a ideia de “papéis de gênero”. “Por que você é menina” nunca é razão para nada. Saber cozinhar não é algo que vem pré-instalado na vagina. Cozinhar se aprende”.

“Nunca fale do casamento como uma realização. Um casamento pode ser feliz ou triste mas não é uma realização”.

“Ensine-a a defender o que é seu. Se outra criança pegar o brinquedo dela sem permissão, diga-lhe para pegar de volta, porque seu consentimento é importante”.

“Não pense que criá-la como feminista significa obrigá-la a rejeitar a feminilidade. Feminismo e feminilidade não são mutuamente excludentes”.

“Ensine a questionar a linguagem. Uma amiga nunca chama a filha dela de princesa, porque vem carregado de pressupostos sobre fragilidade aí. Decida o que você diz a sua filha.”

+ sobre o tema

Feministas indicam desafios para avanço das políticas para as mulheres

Em reunião com a ministra da Secretaria de Políticas...

Graciliana Selestino Wakanã: ‘O que a gente quer é viver bem’

Graciliana Selestino Wakanã, do povo Xucuru Kariri, fala sobre...

Vozes femininas disputam espaço na Rio+20

"Se alguém acha que somos invisíveis, está na hora...

Agressor de mulher terá que pagar gastos do INSS

Medida começará por Espírito Santo e Brasília, mas deve...

para lembrar

Homens e mulheres concordam: o preconceito de gênero interfere no salário

De 13 perguntas da pesquisa Mitos & Verdades, feita...

Mulher Negra Brasileira Um Retrato – Rebecca Reichmann

A opinião publica brasileira raramente reconhece ou critica os...

Diálogos Feministas: Análise de conjuntura e desafios para a defesa da democracia

Esta publicação traz uma síntese do debate realizado: uma...

Thorning-Schmidt é nomeada primeira-ministra da Dinamarca

A líder dos social-democratas dinamarqueses, Helle Thorning-Schmidt, foi oficialmente...
spot_imgspot_img

Angela Davis completa 80 anos como ícone marxista e antirracista

A obra de Angela Davis, 80, uma das mais importantes intelectuais do campo do pensamento crítico, se populariza a passos largos no Brasil, país...

Morre Nalu Faria, símbolo da luta feminista no Brasil

Faleceu nesta sexta-feira (6) a militante feminista Nalu Faria, uma das mais importantes figuras da militância nacional, coordenadora da Marcha Mundial das Mulheres e integrantes...

Os feminismos favelados inscritos nos corpos das mulheres da Maré

Andreza Jorge cresceu em Nova Holanda, dentro do maior e mais populoso conjunto de favelas do Rio de Janeiro: o Complexo da Maré. De...
-+=