Cinco jovens são espancados por seguranças e dono de bar na Pedra do Sal

Uma das vítimas, membro do coletivo Slam das Minas, diz que grupo foi agredido com socos, barra de ferro e taco de baseball

Por Gustavo Goulart, do O Globo

As marcas das agressões sofridas por cinco jovens na Pedra do Sal Foto: Facebook / Facebook

Um grupo de amigos, entre eles três mulheres e dois homens, todos negros, foram vítimas de espancamento por seguranças de um bar na Pedra do Sal, na Saúde, na madrugada de sábado, com socos, pontapés e até golpes de barra de ferro e taco de baseball. Eles foram impedidos de usar o banheiro social do estabelecimento e tratados com agressividade pelo dono do bar ao tentarem se defender. O proprietário chamou seguranças, que são acusados, assim como o dono do bar, de truculência. Segundo a poetisa e MC Andréa Bak, uma das vítimas, um dos seguranças chegou até ela gritando e a agrediu com um soco no rosto quando foi pedido a ele que abaixasse o tom da voz.

Pelo Facebook, uma amiga de Andréa, que assim como as demais mulheres vítimas pertencem ao coletivo Slam das Minas, postou um vídeo em que denuncia as agressões injustificadas e pede compartilhamento. As vítimas passaram o dia de ontem no Hospital Municipal Souza Aguiar e, depois de medicadas, registraram as agressões na 4ª DP (Praça da República). Fotos dos ferimentos também foram divulgadas pela rede social. O olho direito de Andréa, a primeira a ser espancada, aparece roxo e inchado por causa do soco do segurança.

— Fui violentamente espancada por seguranças e seus amigos simplesmente porque pedi a ele para falar baixo. Ele chegou gritando, dizendo que não poderíamos usar o banheiro social do bar. O dono do estabelecimento tinha dito que havia uma festa privada no local e que não poderíamos usar. Mas outras pessoas, brancas, estavam usando o banheiro social. Levei um soco no rosto, chutes e três golpes com barra de ferro na cabeça. Isso não vai ficar assim. Esses agressores devem ser punidos para que não façam mais isso com outras pessoas – desabafou Andréa por telefone.

A mão de uma das vítimas aparece na foto completamente inchada. Foi quebrada por um golpe de taco de baseball. Um dos jovens quebrou um braço.

— Camelôs que estavam próximos viram as agressões e tentaram nos ajudar. Eu já tinha levado três golpes de barra de ferro na cabeça. Devo muito a um camelô que, solidário, entrou na minha frente para me proteger e apanhou por mim. Nunca vi e senti tanta truculência! Mas os agressores vão responder por isso.

“Venho por esse vídeo fazer uma denúncia e um ato de repúdio ao que aconteceu na Pedra do Sal nesta madrugada (…). Foram agredidos com barra de ferro, tacos de baseball e outros instrumentos. Todos negros. Ainda é difícil denunciar racismo no país. Todos estão muito machucados. Fora a ferida que fica na alma. (…) A gente sabe que se não fizermos barulho nada vai acontecer. Estamos vivendo momentos difíceis”, pediu uma amiga no Facebook.

Usando a página do coletivo Slam de Minas (competição que poetas leem ou recitam um trabalho original) uma das vítimas postou o acontecimento.

“Na madrugada do dia 11 de janeiro de 2020 nós, cinco jovens negros estudantes fomos covardemente linchados pelos seguranças e donos do primeiro bar após a Pedra do Sal. A agressão foi após um ato de racismo no qual fomos impedidos de usar o mesmo banheiro que frequentadores brancos. Os criminosos usaram barra de ferro, taco de beisebol, socos e ameaça com arma de fogo contra 3 meninas e 2 rapazes desarmados. A confusão atraiu linchadores que nos bateram enquanto pedíamos socorro. Foi uma agressão gratuita ao nosso grupo e só queremos justiça e que esses homens não façam isso com mais ninguém, até porque já há relatos de que já agrediram mulheres nesse bar. Eles não podem sair impunes disso. Estamos todos lesionados fisicamente e com o psicológico destruído. Na segunda feira, a Pedra do Sal já vai estar lotada de novo e esses caras que nos agrediram comandando o bar novamente. Precisamos de ajuda!!! Fiquem alertas!!!!”

Procurada, a polícia ainda não respondeu. O GLOBO ainda não conseguiu contato com os acusados.

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