segunda-feira, agosto 15, 2022
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Como atitudes das torcidas de Boca e River escancaram racismo na sociedade argentina

Atos racistas em jogos contra brasileiros na Libertadores refletem traço cultural no país vizinho

Em duas semanas, três casos explícitos de racismo na Libertadores envolveram torcedores argentinos do Boca Juniors, River Plate e Estudiantes em jogos no Brasil e na Argentina. Apesar da indignação dos envolvidos e da abertura de investigação por parte da Conmebol, essas situações mantêm-se no cotidiano do futebol sul-americano.

A postura de Leonardo Ponzo, torcedor do Boca Juniors que fez imitações de macaco para a torcida do Corinthians na noite da última terça-feira, em São Paulo, revela, inclusive, um traço cultural ainda arraigado na sociedade argentina, que, timidamente, segundo estudiosos, começa a ser discutido. Detido ainda no estádio, ele pagou fiança ontem e retornou a Buenos Aires. Antes de chegar ao seu país, apareceu numa publicação na rede social de um amigo, que ironizava sua detenção com a frase: “Nada por aqui!” com um emoji de macaco ao lado.

Na visão de boa parte dos argentinos, a atitude de Ponzo foi apenas uma brincadeira comum no futebol utilizada para provocar o adversário. Os torcedores do país muitas vezes são informados pelos clubes de como deve ser o comportamento em estádios brasileiros para evitar atos racistas, pois, no Brasil, racismo é crime.

— O ponto mais interessante e necessário é que os argentinos não se consideram racistas. Não tem uma reflexão profunda sobre o racismo. Só um punhado de intelectuais, de políticos progressistas e cientistas sociais colocam essa questão na mesa. Isso é central para entender a Argentina — diz o argentino José Garriga Zucal, doutor em Antropologia Social pela Universidade de Buenos Aires (UBA), que trabalha com o tema de violências nas torcidas de futebol do país.

Internamente, a xenofobia abraça o racismo, sem grandes distinções. No futebol local, esse é o principal ponto de discriminação. A torcida do Boca Juniors, por exemplo, sofre atos xenófobos por causa de sua origem operária vinculada à presença de imigrantes da fronteira, como paraguaios e bolivianos. Na concepção de parte dos rivais, sequer podem ser considerados argentinos.

— Esses gestos racistas não existem no futebol local. As formas de discriminação no futebol argentino são outras, com gênero, com a etnia e com as classes sociais, principalmente. Mas não necessariamente com a raça, pois não é um ponto de discussão para pensar o futebol argentino — afirma Garriga, acrescentando. — Aqui há algumas posições xenofóbicas muito fortes dessa representação da alteridade como invasiva, negativa e etc. Isso se coloca em discussão muito mais profunda relacionada à xenofobia e não necessariamente vinculada ao racismo. Deveria ser criada uma relação entre xenofobia e racismo, mas não é uma relação clara.

Num país com 2 milhões de negros —5% da população, segundo o Instituto Nacional contra a Discriminação, a Xenofobia e o Racismo (INADI) —, a identidade negra é algo ainda em construção. O senso comum de que “não há negros na Argentina” se consolidou ao longo das décadas dentro e fora, após a imigração europeia e o embranquecimento da população a partir do século XIX.

— Na Argentina, há uma rejeição ao latino-americano e ao afro. Isso faz parte do mito fundador argentino que nos diz que “os argentinos saíram dos barcos”, que somos todos italianos e espanhóis, em outras palavras. Isso torna invisível nossa herança afro e indígena e gera uma rejeição daqueles grupos que não se encaixam nessa visão do argentino europeu e branco. Essa rejeição pode ser em relação ao migrante externo, mas também ao migrante interno — explica o antropólogo Javier Bundio, doutor em Ciências Sociais pela Universidade de Buenos Aires (UBA) com tese “A construção do outro no futebol: Identidade e alteridade nos cantos das torcidas argentinas”.

Falta de debate

Sem essa identificação, a discussão emperra na ideia de que não há negros no país ou que negros são todos os não argentinos, como indígenas, pobres e demais latinos.

—Lá, o debate ainda está na busca de identificar quem são os negros. Aqui, no Brasil, estamos mais adiante no debate. Temos definido pretos e pardos como negros, e já discutimos o vocabulário considerado racista. Na Argentina, a palavra quilombo ganhou, ao longo do tempo, um sentido pejorativo — diz Marcelo Carvalho, presidente do Observatório da Discriminação Racial no Futebol.

Lentamente, as posturas xenófobas e racistas da sociedade argentina vão sendo mal vistas e sofrendo mais pressão por parte de diversos atores sociais. Num primeiro momento, os clubes têm tido ações mais incisivas. O Boca Juniors prometeu punir seu associado e pediu desculpas ao Corinthians.

No caso do torcedor do River Plate, por exemplo, que jogou bananas em direção à torcida do Fortaleza, há duas semanas, no Monumental de Nuñez, o clube suspendeu o sócio por seis meses. Além disso, ele passará por um processo de conscientização sobre xenofobia no INADI, órgão federal que discute políticas públicas de inclusão e combate à discriminação.

Ontem, o Bragantino também fará denúncia formal à Conmebol após torcedores terem sido recebidos pelos torcedores locais com gestos e insultos racistas durante a partida contra o Estudiantes, em La Plata.

—A sociedade está um pouco mais reflexiva e crítica em relação a esses temas, mas não necessariamente as torcidas de futebol. Ainda são um reduto primitivo onde se pratica machismo, racismo, violênciae esse é um dos problemas do futebol argentino. Nunca foi feito um esforço real das organizações, da sociedade e dos governos para mudar isso — afirma o sociólogo argentino Marcos Novaro.

Punições leves

As punições aos clubes, nesses casos, têm sido financeiras. Porém, pouco afetam os clubes realmente. Casos os times envolvidos sejam punidos, o valor da multa representa 1% do que a equipe arrecadará nesta primeira fase da Libertadores.

O artigo 17 do Código Disciplinar das competições da Conmebol prevê que os clubes cujos torcedores apresentarem comportamentos que “insultem ou atentem contra a dignidade humana de outra pessoa ou grupo de pessoas, por motivos de cor de pele, raça, sexo, orientação sexual, etnia, idioma, credo e origem” serão punidos com multa de ao menos 30 mil dólares (cerca de 150 mil reais). Uma punição que pode ser aplicada diretamente nos valores de premiação. Já item 3 prevê sanções adicionais, dependendo da gravidade do acontecimento, seguindo o que rege o Código Disciplinar da Fifa.

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