Como se combate o racismo no mundo? Evento de Geledés responde 

Enviado por / FonteKátia Mello

Artigo produzido por Redação de Geledés

Diante do crescimento de nações de extrema-direita, lideranças internacionais de mulheres negras apontam soluções para se avançar na luta global antirracista

O evento “Estratégias de Combate ao Racismo Global” promovido nesta quarta-feira 31, em Nova York, por Geledés-Instituto da Mulher Negra, como um encontro paralelo ao Fórum Permanente de Afrodescendentes da ONU, conseguiu alavancar questões de extrema relevância que podem servir como bússola para a erradicação do racismo no mundo. 

Participaram da mesa, moderada pela coordenadora de Geledés Suelaine Carneiro, a ministra de Igualdade Racial, Anielle Franco, a presidenta do Fórum Permanente para Pessoas Afrodescendentes, Epsy Campbell Barr, a representante do Comitê pela Eliminação da Discriminação Racial e pelos Direitos Humanos (CERD) da ONU, Gay McDougall e o diretor do Centro de Estudos Afro-latino americanos da Universidade de Harvard, Alejandro de La Fuente.

O epicentro do debate foi a ascensão de regimes autoritários de extrema-direita em todo o mundo que trouxe à tona a instrumentalização do racismo como um dispositivo de poder que oprime, marginaliza e classifica desigualmente os afrodescendentes. A ministra Anielle Franco abriu a discussão lembrando a trajetória da irmã Marielle, discursando sobre a necessidade de expandir a atuação da liderança das mulheres negras e pontuando as dificuldades encontradas no combate ao racismo no Brasil e no mundo. Neste sentido, a ministra mencionou o caso do jogador de futebol Vinicius Jr. e a resposta do governo espanhol dizendo que lá não há racismo. Foi neste momento que Anielle Franco disse: “Ainda bem que conheci Sueli Carneiro e outras acadêmicas para impulsionar a minha raiva para outro lugar”. 

A representante do Comitê pela Eliminação da Discriminação Racial e pelos Direitos Humanos (CERD) da ONU, Gay McDougall, foi a segunda a falar e sublinhou que, apesar do avanço da extrema-direita no Brasil, ela pôde observar o crescimento do movimento antirracista no País, com a formação de lideranças de jovens mulheres negras a partir das cotas. McDougall afirmou ainda que para que possamos combater o racismo global é necessário que as mudanças sejam “profundas e irreversíveis”.  Segundo ela, essas mudanças devem ser estruturadas de forma a não serem revertidas e as reparações devem ser mais do que o combate à pobreza e a implementação de ações afirmativas.

Ministra Anielle Franco durante o evento de Geledés

Já Epsy Campbell iniciou sua fala destacando o impacto do racismo nas mulheres negras, o que gera pobreza e vulnerabilidade. Campbell foi enfática ao sublinhar o racismo diário que coloca as mulheres negras como “um erro da natureza”. Ressaltou também a necessidade de se haver uma coalizão global contra o racismo sistêmico e da construção de uma comunidade internacional antirracista. Campell trouxe ainda o argumento de se formar uma aliança com as sociedades e empresas para a criação de “espaços sem racismo e sem discriminação”, com apoio da ONU.

Sobre o papel das Nações Unidas, o grupo de mulheres negras concluiu que a ONU deve promover mudanças estruturais concretas que não sejam destruídas por mudanças de governos nacionais. Sublinharam que essas mudanças sejam perenes a ponto de modificar a realidade das próximas gerações. Vislumbraram ainda a urgência de equidade e inclusão nos espaços de poder para que a política seja uma área onde possam estar mais corpos negros e, desta forma, haver uma real mudança nas políticas dos diferentes Estados ao redor do globo.

No campo acadêmico, o professor Alejandro de La Fuente discorreu sobre como o racismo é construído a partir dos pilares do saber. “Vivemos em 2023, século 21, no entanto, a academia e os sistemas de educação ainda se estruturam como no século 19 ao reproduzirem o racismo”, declarou La Fuente. Disse ainda que uma forma de se combater o racismo é através do ensino multidisciplinar. “O racismo influencia o sistema de ensino, impõe formas de saber. Mas a academia também pode ser um espaço de empoderamento dos afrodescendentes”, completou.

Epsy Cambell, presidenta do Fórum Permanente de Afrodescendentes da ONU

O acadêmico também fez referência à Década Internacional de Afrodescendentes (2015-2024) que tem entre os objetivos o “reconhecimento do outro”. Neste contexto, o professor apontou a necessidade de se criar estruturas dentro das academias em todo o mundo para que sejam efetivos os instrumentos de combate ao racismo global.

No final do encontro, a coordenadora de Geledés Nilza Iraci resumiu a abrangência desse evento internacional. “O Geledés foi muito feliz ao reunir em uma mesa mulheres negras poderosas de três gerações que compõe a história antirracista no Brasil e no mundo. Foi interessante observar como as falas delas se entrelaçaram”. Nilza também ressaltou a pluralidade do público, das estudantes da Universidade de Harvard às quilombolas caribenhas. “Reunimos gente da África, do Brasil, dos Estados Unidos, do Caribe, em uma composição diversa que representa esse segundo fórum de afrodescendentes na ONU.” 

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