quinta-feira, janeiro 26, 2023
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Conheça a festa afro-venezuelana de São João, uma das mais populares no país

Governo de Nicolás Maduro defenderá que evento seja reconhecido como patrimônio imaterial pela Unesco

Por Michele de Mello, do  Brasil de Fato

Na comunidade La Vega, periferia de Caracas, a festa de São João Batista vara a madrugada ao som de tambores tradicionais / Foto: Michele de Mello

Na Venezuela, dia de São João não é uma data qualquer. Milhares de pessoas se mobilizam para celebrar o aniversário do pregador, que depois de Jesus Cristo, é o único santo que se comemora o nascimento, no 24 de junho.

As festividades começam na véspera, dia 23, com um missa que termina à meia noite. Com tambores, cantos e muita dança, os fiéis festejam o aniversário do santo madrugada adentro. Já nas primeiras horas do dia 24, são organizadas procissões com oferendas como forma de pedido e agradecimento das promessas alcançadas.

No litoral venezuelano, onde as festas são mais famosas, depois de ser carregado pela praia pelos seus seguidores, São João é levado por barcos para navegar no mar.

Já em Caracas, onde as festividades se concentram nos bairros periféricos, os crentes passam toda a noite carregando a imagem do santo, enquanto dançam, bebem, pulam e oram. Toda a estrutura é organizada por confrarias de festeiros de São João Batista. Só na capital existem 37 grupos organizados. São eles que guardam o santo, adornam o ambiente para a festa, tocam tambores e mantem a tradição viva.

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“É um encontro espiritual, uma renovação da alma e é por isso que nossa Câmara Municipal não quer que essa tradição se perca em Caracas. Queremos que todos saibam o que é o São João e por que o celebramos”, afirma a vice-presidente da Câmara Municipal do município Libertador, na grande Caracas, Yazmin Chacare Rivas, durante uma homenagem pública em que foram entregues diplomas de mérito a 56 membros de confrarias caraquenhas e dos estados costeiros Miranda, Aragua, Vargas e Carabobo.

A festa popular é tão famosa, que nesse ano, o Ministro de Cultura Ernesto Villegas assegurou que o governo bolivariano irá defender o reconhecimento da celebração como patrimônio imaterial da Unesco.

Uma celebração que mistura elementos do catolicismo com candomblé e tem sua história marcada pela imposição dos católicos espanhóis e pela luta do povo negro contra a escravidão.

Ministro de Cultura Ernesto Villegas e vereadora Yazmin Rivas no evento de reconhecimento do dia da rebeldia espiritual de Caracas, 22 de junho, praça Bolívar, centro da capital (Foto: Michele de Mello)

Sincretismo histórico

Para manter seu culto a Xangô, no século XVIII, os escravos fingiam adorar São João Batista durante as festas da Coroa espanhola. Como forma de impor a religião católica, as oligarquias permitiam que os escravizados celebrassem o aniversário de São João. Enquanto os senhores da Casa Grande celebravam o profeta cristão, na senzala, os afro-venezuelanos rendiam homenagens ao seu orixá.

Na Venezuela, a maior parte das pessoas convertidas em escravos foram trazidas de Cabo Verde, Guiné e Costa do Marfim. A escravidão foi permitida no país de 1526 até 1800.

Com o passar dos anos, o encontro religioso, serviu como forma de organização da população negra pela sua liberdade.

“A maioria deles pertencia às cumbes, que são os quilombos no Brasil, eles foram responsáveis por organizar as primeiras redes de cimarrones ou quilombolas, em toda a região central do país, a partir da celebração de São João Batista. Eles usaram a religiosidade como uma forma de rebelião espiritual, como hoje em dia, no Brasil, os terreiros se levantam contra Bolsonaro, um governo racista, machista sexista”, explica Jesús “Chucho” García, membro da Confraria de São João Batista de Barlovento, uma das mais conhecidas da Venezuela.

Dia da Rebelião Religiosa

No dia 22 de junho de 1749, aconteceu a primeira rebelião de escravos negros pela liberdade religiosa. Durante as procissões de São João, centenas de negros escravizados ocuparam a catedral de Caracas com seus tambores de Xangô. A partir dessa data, os principais líderes quilombolas conseguiram aumentar a resistência à Coroa.

Por isso, este ano, a data passou a ser reconhecida pelo Câmara de Vereadores da capital como o Dia de Rebelião Espiritual de Caracas. “Foi uma rebelião social e cultural. Daí, pela transmissão oral, surgiram e existem até hoje as confrarias de parrandeiros (como são chamados os festeiros)”, afirma o historiador da comissão de cultura e patrimônio histórico do Conselho Municipal, Argenis Quintero.

A medida adotada a nível municipal atende uma política nacional do governo bolivariano. “É uma herança histórica reconhecida pela revolução. Nosso presidente lançou um plano de ofensiva cultural. Com ele, queremos reconhecer os direitos dos trabalhadores da cultura no nosso país. Estamos tratando de municipalizar essas políticas propostas pelo presidente Nicolás Maduro”, confirma a vereadora Yazmin Chacare Rivas.

A proposta é aliar a cultura à organização popular, “mostrando que a espiritualidade pode ser utilizada como arma de transformação social”, afirma García.

Imagem de São João é adornada com flores e cores que o representam – vermelho e branco (Foto: Michele de Mello)

Organização e resistência

As confrarias mantêm algumas características da época em que foram criadas. Entre elas está o secretismo nas suas decisões internas, que durante a Colônia era fundamental para se manterem vivos, mas também está um pacto de solidariedade.

Segundo Willians Ochoa, custódio de São João da Confraria de Parrandeiros de La Vega, todos aqueles que queiram fazer parte devem passar por um ano de provas. Se, ao final do período, o postulante souber dançar e cantar as músicas tradicionais, tocar os instrumentos e teve uma boa conduta, poderá ser aceito no grupo.

A rigidez, no entanto, não afasta as pessoas. A Confraria de La Vega tem 80 membros e é a maior e mais antiga de Caracas, com 47 anos de história. Agora, planeja criar uma setorial juvenil e outra infantil, para adolescentes e crianças.

As confrarias são compostas por um capitão que é o líder do grupo, responsável por guiar a celebração e organizar o rito religioso, logo em seguida vem o segundo capitão, que seria uma espécie de vice-presidente – atua na falta do primeiro. O terceiro capitão é encarregado por coordenar os tambores e por receber o público. Ainda existe um custódio, que é quem protege a figura de São João durante todo o ano. Os demais se dividem em comissões de finanças, de propaganda, entre outras, dependendo de cada estrutura.

Ochoa conta que, apesar de ter familiares no estado Aragua, onde tradicionalmente se cultua a São João e Xangô, ele aprendeu mais sobre a história da divindade estudando livros de teologia. “Então me encontrei com um santo que denunciava as injustiças, que lutava por igualdade e foi isso que me atrapou”, conta.

Duas representações, a mesma fé

De acordo com a bibliografia cristã, São João Batista foi profeta e precursor de Jesus Cristo. Era filho de Zacarias, um sacerdote de Jerusalém, e de Isabel, prima de Maria, mãe de Jesus. Aqueles que confessavam seus pecados eram lavados por ele no rio Jordão, na cerimônia do batismo – um dos batizados foi Jesus.

Já Xangô é o orixá dos raios e do fogo, justiça e lealdade. É o espírito guerreiro das religiões de matriz africana. Em suas celebrações, veste-se vermelho e branco, assim como nas festas venezuelanas de São João.

“É o santo que representa a liberdade, espiritualidade, rebelião, fé, união e é tudo isso que celebramos”, afirma Wilfredo Mendoza, da Confraria do Morro da Urdaneta, na região central de Caracas.

Mas nem sempre o culto ao santo justiceiro foi defendido na Venezuela. Segundo Arturo Rodríguez, membro da Confraria Folclóricos da Pátria Boa, da favela 23 de Enero, no passado, os parrandeiros eram reprimidos pelo Estado.

Na ponta esquerda, Jesús García, na ponta direita, Arturo Rodríguez e outros parrandeiros de Sao Joao Batista (Foto: Michele de Mello)

“Há que entender que a cultura popular também sempre está carregada de um componente reivindicatório, por isso que nos governos da chamada Quarta República [1958 – 1998] mais que nos invisibilizar, nos perseguiam, porque representava uma organização e isso era algo a se temer. De aí que esse processo revolucionário tem visibilizado. O importante é que sempre existimos, no passado, como agora, mantemos nossas reivindicações”, conta.

Hoje, com incentivo e reconhecimento, a festa se multiplica e além de celebrar dia 24 de junho, muitas confrarias organizam encontros de celebração de São João durante todo o mês de junho e julho.

Em diferentes lugares do país, com características mais católicas e outras mais próximas às religiosidades de matriz africana, a sua maneira, os venezuelanos constroem o que chamam religiosidade popular.

“A religiosidade popular tem a ver com compartilhar, com nos encontrarmos, de contrair fé juntos e é isso que fazemos”, finaliza o parrandeiro Willians Ochoa.

 

 

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