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Consciência de ser uma mulher negra

O tempo passou, e desde os 14 anos de idade, quando aprimorei tecnicamente os croquis de moda que criava desde a mais tenra infância, e passei a desenhar modelos para as minhas amigas costurarem, passando pelo ano de 2001, quando fiz o meu primeiro desfile de moda, até o dia de hoje, venho pensando como, nesses longos anos marcados por uma busca incessante pelo aprimoramento do meu trabalho como criadora, pude compor uma trajetória com exposições e desfiles em quase dez cidades fora do Brasil, entre as Américas, África e Europa.

por Carol Barreto no The Word News

Nesse ano de 2018, pela primeira vez, tenho uma peça em exposição num Museu no Sudeste do Brasil, mas numa mostra organizada por uma instituição cultural alemã. Delineio esse fluxo pois tenho analisado como na minha própria história se demarca o papel do racismo como aspecto estruturante da sociedade brasileira, cada vez mais consciente de que, corpos racializados como os nossos, não são comumente vistos ou respeitados como produtores de intelectualidade. Animalizados, segundo o olhar da branquitude, nossos corpos se destinam ao trabalho servil e subalterno, sem que jamais nossas potências como mentes fabricantes de conhecimento, tenham sido dignamente visibilizadas.

Sensível a essas barreiras, passei a experimentar modificar de dentro para fora, não apenas redesenhando a minha subjetividade para perceber como o racismo me afeta, mas também para compreender que não é um problema meu e assim vou exercitando responder aos discursos e ações discriminatórias de maneira cada vez mais objetiva e direta, como também de forma artística e sensível quando me é requerida.

Portanto, passo a direcionar minha energia de luta para que – junto com as minhas iguais – possamos nos fortalecer e constituir umas com as outras um campo de potência criativa coletiva, que a cada trabalho só me fez fortalecer. Criticando ativamente os privilégios e desvantagens que compus como mulher negra, artista e professora, passo a me deslocar da centralidade do meu atelier e compartilhar meus processos criativos com outras pessoas que trabalham comigo. Adotando suas sugestões e interferências potencializamos juntas o nosso alcance desde 2013, ano de experimentação do primeiro laboratório criativo coletivo para as duas coleções que apresentamos na Dakar Fashion Week no Senegal.

A partir daí, cada vez com mais qualidade, produzimos espetáculos de moda no Brasil e em referendados espaços como Paris – FR, Chicago – EUA, Toronto – CA, Luanda – ANG, Nova York – EUA e Cidade do México – MEX. Mas, cada vôo só foi possível por conta do investimento de muitas outras pessoas, a maioria delas mulheres negras como eu, que acreditando num propósito comum, materializaram junto comigo a importância de se pensar a potência transformadora e política da moda. Desde a valorização do saber-fazer artesanal tradicional que caracteriza uma trajetória de resistência das populações africanas deslocadas e aqui escravizadas, às discussões teóricas que nos envolvemos em cada dia de costura ou prova de roupa, integrando cada pessoa participante desde a totalidade da sua intelectualidade e não do seu papel de serviço, construímos desse modo trocas inestimáveis e experiências transformadoras, com as quais muito mais aprendi do que ensinei.

Se hoje, ao final do mês de novembro, dedicado a debater a Consciência Negra tenho uma pauta de moda para escrever, agradeço à todas as outras Pretas que construíram essa história comigo. A partir daqui, mais do que nunca, precisamos renovar nossas estratégias de aquilombamento, lembrar que nunca foi fácil existir e por isso resistir é o único caminho de sobrevivência.

Que cada estratégia de resistência que compõe a nossa ancestralidade foi bordada com poesia, espiritualidade e beleza, oriunda de um lugar que esse outro jamais pôde alcançar.

Carol Barreto é designer de moda, professora e ativista.

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