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Você amaria uma negra?

Fotos: arquivo pessoal Fernanda Rodrigues de Figueiredo

Por Fernanda Rodrigues de Figueiredo* para o Portal Geledés

Amar uma mulher negra é um ato essencialmente revolucionário.  Não é qualquer umx que tem coragem para assumir isso. A maioria prefere endossar o racismo estrutural da sociedade. Coragem é para poucxs. Nas palavras de Caroline Anice

“Aos que amam mulheres negras, é preciso coragem para ser revolucionário. O trabalho na casa grande e nos engenhos nunca encheu nossa barriga, não é o amor vindo desse mesmo chão que deixará nossa alma farta.”

(in“Aos que amam mulheres negras” . Site Geledés)

 

E quando falamos de amor, é do cerne desse sentimento,  não se trata de amor epiderme, mas de companheirismo, amizade, afeto real. Pergunte-se: você amaria uma negra? Ou tem vergonha de assumir até pra si mesmx a verdade?

Bell Hooks afirmou que “As mulheres negras sentem que existe pouco ou nenhum amor em suas vidas”. Essa assertiva é uma análise crítica da sociedade. A mulher negra é vista como excessivamente lasciva, uma ameaça à família tradicional.  Ter uma amiga, namorada,  esposa pretinhaé um risco à sua moral ilibada.

Para refletir sobre essa pergunta, pensemos em três “arestas”: amar (verbo), a negra/preta (numa sociedade racista misógina e violenta) e a coragem revolucionária. Amar é verbo o que explicaria ser ativo: palavra que designa ação. Portanto, ninguém ama sem se posicionar. O poeta Marcos Fabrício Lopes da Silva fala magistralmente disso em “Em defesa da radicalidade”[1]defendendo que ser radical é firmar-se em suas raízes. Pessoas mornas não servem ao mundo, pois não sabem amar. Paulo Freire dizia “Eu sou um intelectual que não tem medo de ser amoroso. Amo as gentes e amo o mundo. E é porque amo as pessoas e amo o mundo que eu brigo para que a justiça social se implante antes da caridade.” Ele dizia desse amor-verbo-ação. Quem ama sempre luta.

Você amaria uma mulher negra?

Essa  pergunta  é  incômoda para várias pessoas: alguns por se identificarem com a dor e outros por vergonha de saber ou medo de desconhecer a resposta.  A dor e trauma são provenientes da nossa ancestralidade. Cravados em nossos corpos, nas “almas da gente negra”[2]. Jaques Le Goff, em seu estudo histórico intitulado “La memoria, la historia, el olvido”fala sobre a memória como  elemento cognitivo construído historicamente. Não é escolha ou drama e, sim, memória coletiva. Pela memória os povos constroem, reconstroem e perpetuam sua identidade para gerações seguintes. O presente se alimenta do passado e incorpora alguns elementos num movimento antropofágico, uma vez que reinscreve passado e presente. Daí a importância da memória para os grupos sociais e étnicos. Por via da memória a (re)construção da identidade lança mão de uma “dialética da violência” para problematizar as questões relativas aos preconceitos e exclusões que afligem a sociedade.[3]

Du Bois condensa essa teoria empírica no título de seu texto “As almas da gente negra”somada à indagação sangrenta “Qual é a sensação de ser um problema?” Correlato à minha “Você amaria uma negra?”

Ser negro sempre foi um problema em uma sociedade racista que defende a democracia racial como meio e prova da identidade nacional. Continua sendo um problema também a reprovação que a nossa cor causa, considerada por nossos algozes como “estigma de um crime”[4]passamos a vida toda sendo condenados: na escola, no mercado de trabalho, na universidade, nos relacionamentos sociais (amorosos, de amizade…).

Experiências da memória coletiva negra

Descobri o racismo aos 7 anos, na escola, crianças gritavam para mim no recreio “Saia daqui negrinha nojenta! Você vai passar sua sujeira pra nós!”; a adolescência não foi mais leve. Transformei isso em missão. Escolhi ser professora. Anos mais tarde, a faculdade mudou minha vida. O NEIA/UFMG apontou um caminho e iniciei o cumprimento do meu propósito.

Em seminário sobre o dia da Consciência Negra, tradição em minhas aulas nos últimos 16 anos, um aluno excelente que eu tenho do 3º ano do ensino médio dispara “Fui com uns amigos dar um role pela UFMG, sugiro que todos conheçam…fiquei procurando pessoas como eu e quando eu encontrava sentia um alívio e uma esperança…essa sensação de ter que ser o mais limpo, o que se veste melhor para entrar nos lugares, porque as pessoas olham para você como se você fosse sujo como se você estivesse sempre sujo.” Outra aluna, extremamente talentosa e linda, contou que tomava banho com sabão em pó (escondida da mãe) para “limpar”sua pele; uma garota estudiosa e maravilhosa disse que colocava prendedor de roupas no nariz para “afinar”. Todos nós sentimos essa dor, estamos conectados por ela.

Costumo dizer para esses alunos que perdi algumas oportunidades de emprego por ser negra, tatuada e ter mechas azuis no meu cabelo afro. Tenho 38 anos de idade, duas graduações, um mestrado e 5 especializações somadas a 16 anos de experiência na docência. Hoje sou funcionária pública e ainda sinto as reprovações e a dor da nossas existências nessa terra de injustiças. Mas conhecer nosso passado, a luta do nosso povo, compreender, ler, estudar intelectuais negrxs nos fortalece.

Para leigos é mimimi, mas temos as vozes que nos representam ecoando no Grupo Quilombhoje literatura, na Antologia anual Cadernos Negros, no LITERAFRO, no Geledés, nas vozes griôs e griotts de Maria Firmina dos Reis, Carolina Maria de Jesus, Derli Rodrigues Rosa, Luana Tolentino, Conceição Evaristo, Cuti, Cristiane Sobral, Miriam Alves, Maria Firmina dos Reis, Adalgimar Gomes, Jussara Santos, Bia Ferreira, Aciomar de Oliveira, da militância na educação de professores pesquisadores como Constância Lima Duarte, Marcos Antônio Alexandre, Leni Nobre de Oliveira, Eduardo de Assis Duarte, Maria das Graças Oliveira e tantos mais.

São essas “falas do outro”[5]o sonho e a esperança dos nossos ancestrais e dos nossos descendentes. Serão elxs capazes de amar e lutar para que o legado de Luísa Mahín, Luiz Gama, Angela Davis, Mandela, Luther King e todos os revolucionários seja uma chama eterna ardendo em cada ser humano corajoso.

“Uma chama não perde nada em acender outra chama”

Esse provérbio africano convoca nossa coragem interior para o exercício da filosofia Ubuntu, o conceito “humanitude”, de união, compartilhar com o outro.“humanitude” do poeta Aimé Césaire, da Martinica traduz literalmente “a qualidade de ser humano”. As sociedades africanas focam no “ser”, no lugar de  “ter”. Segundo Adama Samassékou esse seria o centro do desenvolvimento humano.

 A humanitude é a nossa abertura permanente ao Outro, nossas relações de ser humano para ser humano. Ela determina uma relação permanente de solidariedade, livre de manipulação – um impulso espontâneo de acolher o Outro. Essa humanitude torna possível “conectar humano com humano” – para usar a bela expressão de Césaire – e é a base para uma cultura do “ser”, o oposto de uma cultura totalitária do “ter”, que leva a relações permanentemente conflituosas de aquisição, ou mesmo dominação.

(Adama Samassékou.Humanitude, ou como saciar a sede por humanidade[6])

 As mulheres estão no comando da educação e sempre estiveram, desde nossas yabás que cuidavam das crianças nas comunidades, nas casas grandes e nas senzalas, às griotts responsáveis por passar todo o conhecimento às suas tribos. As negras ensinam a liberdade. Porque seus corpos e mentes insubmissos e suas personalidades insofridas transpiram liberdade. Mário de Andrade confessa em carta a Carlos Drummond de Andrade

Eu conto no meu ‘Carnaval carioca’ um fato a que assisti em plena Avenida Rio Branco. Uns negros dançando o samba. Mas havia uma negra moça que dançava melhor que os outros. O s jeitos eram os mesmos, mesma habilidade, mesma sensualidade, mas ela era melhor. Só porque os outros faziam aquilo um pouco decorado, maquinizado, olhando o povo em volta deles, um automóvel que passava. Ela, não, Dançava com religião. Não olhava pra lado nenhum. Vivia a dança. E era sublime. Este é um caso em que tenho pensado muitas vezes. Aquela negra me ensinou o que milhões, milhões é exagero, muitos livros não me ensinaram. Ela me ensinou a felicidade.(…) O importante não é ficar,é viver. Eu vivo. E vocês não vivem porque são uns despaisados e não têm coragem suficiente pra serem vocês.”

(Lição do amigo[7])

Na mitologia africana viemos da lama mágica das águas de Nanã, deusa dos mistérios, a mais antiga divindade, que representa a memória ancestral do nosso povo: é a mãe antiga (Iyá Agbà) por excelência. A mãe de todos.Nanã sintetiza em si vida, morte, fecundidade e riqueza. Minha leitura é que somos maleáveis como o barro, nossa natureza é propícia à mudanças. Nanã foi a única capaz de apresentar essa solução para viabilizar a criação do ser humano. Uma deusa. A mulher tem esse poder: criar soluções, encontrar uma forma onde não parece haver. A essência de maleabilidade genuína descrita pelo poeta é o que os covardes temem: o despertar da verdadeira liberdade. Então será pelo amor às negras que faremos a maior revolução da história da humanidade. Agora, responda-me se for capaz

“Você amaria uma negra?”

* Fernanda Rodrigues de Figueiredo é formada em letras, pedagogia, mestre em Estudos Literários- UFMG, Especialista em EaD, supervisão, coordenação pedagógica, educação inclusiva e neuropsicopedagogia. Atua como professora no ensino básico, superior e pós-graduação.

Link do currículo Lattes:

http://lattes.cnpq.br/1478959820947245

[1]  Disponível em https://www.ufmg.br/boletim/bol1682/2.shtml

[2]As Almas da Gente Negra, de Du Bois.

[3]Tópico discutido em minha dissertação de mestrado “Representações da Mulher Negra em Cadernos Negros” (UFMG, 2009).

[4]Fala do poeta Luiz Gama.

[5]Livro Falas do Outro Literatura, Gênero, Etnicidade org. Constância Lima Duarte

[6]Disponível em https://pt.unesco.org/courier/julho-setembro-2017/humanitude-ou-como-saciar-sede-humanidade

[7]Andrade, Mário de, 1893-1945. A lição do amigo : cartas de Mário de Andrade a Carlos Drummond de Andrade anotadas pelo destinatário / posfácio André Botelho. — 1a – ed. — São Paulo : Companhia das Letras, 2015.


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