segunda-feira, novembro 28, 2022
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Consciência Negra e ternura dos povos

Neste dia 20 de novembro, comemora-se o Dia da Consciência Negra. A data foi escolhida por coincidir com o dia da morte de “Zumbi dos Palmares”, em 1695. O Dia da Consciência Negra procura remeter à resistência do negro contra a segregação, de triste histórico da “escuridão da escravidão”.

Por Miguel Dias Pinheiro, do Portal AZ

A data comemorativa nos remete também a uma outra discussão ainda mais ampla. A desigualdade social, que acarreta outros fenômenos preocupantes numa sociedade. Pesquisas e estudos mostram que em países onde a desigualdade social é elevada, também se registram índices igualmente elevados de outros fatores como a violência e a criminalidade, o desemprego, a desigualdade racial, os conflitos civis e uma diferenciação entre ricos e pobres.

Portanto, o Dia da Consciência Negra serve para que todos façam uma profunda meditação. Estudos comprovam que a desigualdade racial tem seus índices aumentados com o fenômeno da desigualdade social, uma vez que há uma disparidade na distribuição de renda em todo o mundo, gerando uma separação e/ou segregação de pessoas pelos tons da pele, gênero ou etnia, orientação intelectual, religiosa, filosófica, sexual, etc. E o tipo mais comum de desigualdade encontrado é o que ocorre entre brancos e negros.

“É preciso meditar sobre a consciência negra para termos uma consciência branca, alva, luminosa”, dita Oswald Wendel. Digo eu: “é necessário enfrentar esse incompreensível ‘estado de trauma’”. A discussão em torno do tema raça é um dos debates e embates mais constantes na sociedade contemporânea. Especialmente porque a questão está no cerne de todos os conflitos sociais que o mundo vem atravessando, sejam por causa das guerras entre os povos, os constantes conflitos étnicos, seja por causa da exclusão social pela qual alguns grupos raciais passam em diversos países, como aqui no Brasil. “Não precisamos de um dia da consciência negra, branca, parda, amarela, albina… Precisamos de 365 dias de consciência humana”, adverte Thiago Saraiva. Isso porque – segundo “Negros Vaidosos” – “Deus criou seres humanos, não disputas de raças”.

“A cada novo 20 de novembro, Zumbi se espraia, amplia o seu território na consciência nacional, empurra para os subterrâneos da história seus algozes, que foram travestidos de heróis”, pontua Sueli Carneiro. Conta-nos o pernambucano Marcelo Barros, monge beneditino e escritor, que “a violência nas cidades da França é consequência terrível e nefasta da forma desumana com a qual a sociedade francesa, tão racista quanto a norte-americana, trata os migrantes, principalmente negros, vindos de países que a França, a Inglaterra e a Bélgica saquearam durante séculos para construir a riqueza que, hoje, ostentam. Como superar esta espiral da violência?”. Um estudo publicado em 2010 pelo Instituto de Pesquisa Sangari mostra que a chance de um jovem negro ser morto é 130% maior que a de um branco.

Mas, não devemos perder as esperanças, porque “daqui a pouco, não acontecerá mais o que me contava um amigo pastor. Ao visitar uma grande empresa nacional, foi convidado ao escritório do diretor-presidente. Quando entrou naquela sala luxuosa e viu do outro lado da mesa não um senhor louro de paletó e gravata, mas uma moça negra e jovem, levou um choque. A sociedade inteira precisa deste choque de amor e justiça. Dom Pedro Casaldáliga diz: “a solidariedade é o novo nome da sociedade humana: a ternura dos povos” – conclui o monge.

Saiba, a dança mais branca da América Latina era negra. O tango, ritmo característico da Argentina, tem sua origem nas cerimônias e danças dos escravos africanos levados à força para o continente americano. No início do século 20, nas ruas de Buenos Aires, vivia Raúl, um negro pobre e sem-teto vítima de escárnio e desprezo por sua condição social. Apesar de ter morrido em um hospital psiquiátrico só e esquecido, para sua glória e da raça negra, foi mencionado no tango “El Negro Raúl”, de Ángel Bassi, e no tango-candombe “Ahí viene el negro Raúl”, de Sebastián Piana.

Na visão mais que oportuna de Letícia Penteado, “’vivemos numa democracia’, é o que dizem por aí. Discordo. As premissas básicas da democracia são a igualdade e a liberdade. Sem esses valores, não estamos falando de democracia, mas de uma fachada democrática oca, como um cenário de papel capenga diante da estrutura opressiva que o utiliza para se legitimar”. Sobre a maioria branca e a minoria negra, Penteado nos brinda: “Nós, pessoas brancas e ricas, comemoramos outro dia trinta anos do fim da ditadura militar – para nós. Há trinta anos, ninguém invade as nossas casas, nos aterroriza e tortura no meio da noite, sem que tenhamos a quem recorrer. (…) Não vivemos numa democracia quando direitos fundamentais são desrespeitados pelo Estado, ainda que com a conivência, anuência ou concordância entusiástica da maioria das pessoas nele. (…) A vontade da maioria não pode se tornar um rolo compressor com que se esmaga a minoria, pelo menos não num cenário que se almeja alegar ser democrático. O direito de uma pessoa – qualquer que seja ela – de existir, ser quem é e ter sua dignidade respeitada não deveria jamais ser objeto da deliberação alheia. A democracia ou é para todos ou não é democracia. (…) Esse é o desdobramento mais torpe da distorção da palavra democracia: a noção absurda de que seria democrático “fazer valer a vontade da maioria”, mesmo quando a maioria resolve agir de forma fascista. Ditadura da maioria não é democracia”.

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