Copa 2014: a diferença entre dizer não ao racismo e fazer alguma coisa contra ele

Dentro de campo a Copa do Mundo é um sucesso. Elevada média de gols, partidas emocionantes, resultados inesperados. Não vale a pena cair no ufanismo da “Copa das Copas”, mas é forçoso reconhecer que o torneio tem nos brindado com um futebol de alto nível. Muito diferente daquele que nos acostumamos a assistir no Campeonato Brasileiro e nos outros torneios regionais, em que triunfa quem é menos medíocre.

Não bastasse o bom nível técnico, o clima de festa que envolve a competição é outro fator que explica a empolgação com o mundial de futebol. Pessoas de todo o mundo vêm ao Brasil ou, ao menos, voltam suas atenções para o país.

Com todo esse clima favorável, talvez não houvesse momento mais oportuno para fazer uma campanha contra o racismo e outras formas de discriminação. Assim, a FIFA aproveitou o momento para promover sua campanha “Diga não ao racismo”. Nos jogos das quartas-de-final, os capitães das equipes leram uma mensagem que condena a discriminação racial, de gênero e orientação sexual.

Vai ter copa X não vai ter copa

Tudo muito bonito. Até parece discurso para o concurso de Miss Universo, em que as candidatas desejam a “paz mundial”. Infelizmente, a beleza se restringe às palavras. A luta contra a discriminação, lamentavelmente, é só para inglês ver.

O problema é que nem os ingleses estão acreditando muito nisso. Em matéria do The Guardian, o jornalista Felipe Araújo denuncia a ausência de rostos negros nos estádios. Em cinco cidades-sede – Salvador, São Paulo, Rio, Fortaleza e Recife –, ele relata a experiência de se sentir em um jogo do tipo “Onde está Wally?” No entanto, difícil de encontrar não era o folclórico personagem de camisa listrada, mas sim os negros nas arquibancadas.

torcida_copaÉ nesse tipo de situação que cai por terra o mito da “democracia racial”, tão cultivado pelas nossas elites, que se inspiraram na obra de Gilberto Freyre. O mito segundo o qual nós, brasileiros, somos um povo tão miscigenado que não faz sentido falar em discriminação racial. Tese difícil de sustentar diante do fenômeno que se vê nos nossos estádios durante a Copa – ocupados majoritariamente pelos bem-nascidos torcedores brasileiros que vão aos palcos do mundial mais para socializar, tirar selfies e se ver no telão. Os jogos mesmo são mero detalhe.

florestan

O que essa “gentrificação” das arenas durante o Mundial corrobora é a posição de Florestan Fernandes, ao analisar a integração do negro na sociedade de classes no Brasil. Esse racismo velado, silencioso e – por isso mesmo – ardiloso deixou a população negra às margens da sociedade que ingressava definitivamente no capitalismo, na virada do século XIX para o XX. A mão-de-obra imigrante é que ocupou as posições assalariadas e se integrou à sociedade de classes. Aos negros, restou uma integração problemática, relegados às posições mais subalternas, quando não totalmente marginalizados. Tudo isso encoberto por um discurso de que “nós não somos racistas”.

E as marcas dessa integração problemática persistem até hoje. A ausência de torcedoras e torcedores negros nos estádios é apenas a ponta do iceberg, o sintoma de um problema muito mais grave. Uma mazela que se manifesta desde a desigualdade de renda até a forma como são feitas as abordagens policiais de brancos e negros. O Relatório Anual das Desigualdades Raciais no Brasil, elaborado pelo LAESER da UFRJ, compila uma série de dados sobre as disparidades “causadas” pela cor de pele no Brasil.

Diante desse quadro, todas aquelas belas palavras das ações contra o racismo parecem vazias, simples falatório. As campanhas contra o comportamento xenofóbico, dentro e fora de campo, se resumem a oportunidades de ganhar dinheiro, pagando uma de bom moço. Se a FIFA quisesse mesmo combater esse mal que assombra o futebol – assim como toda a sociedade – poderia estabelecer cotas raciais para o acesso aos ingressos. Isso mesmo. Se a entidade máxima do futebol consegue segmentar a carga de ingressos por países, por que não fazer o mesmo com relação à etnia?

Assim, quem sabe, não teríamos que ficar brincando de “procurar o Wally” para encontrar uma negra ou um negro no estádio de futebol. E, diga-se de passagem, não como funcionário da limpeza ou da segurança. Mas como torcedora ou torcedor, apoiando seu time e desfrutando de uma competição esportiva de alto nível. Aí sim, com estádios tomados por gente de toda cor, de todos os credos, de todos os gêneros, de todas as orientações sexuais e tudo mais; aí sim, poderíamos celebrar uma Copa livre da discriminação e do racismo. Aí está a diferença entre dizer não ao racismo e fazer alguma coisa contra ele.

Fonte:Colunas Tortas

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