sábado, outubro 1, 2022

Cotas em debate

– Fonte: O Povo Online –

A polêmica política de cotas em universidades, que vem sendo implantada aos poucos no Brasil desde 2003, é o tema discutido no Seminário Racismo e Ações Afirmativas no Ceará,que acontece hoje e amanhã, na Associação dos Docentes da Universidade Federal do Ceará (ADUFC).

A UFC ainda não se posicionou institucionalmente diante do tema. “Estamos em defasagem comparadas a outras universidades brasileiras públicas como a UERJ, USP, Unicamp, UnB, UFBA. A discussão tem que avançar”, reconhece a professora Mirtes Amorim, do departamento de Filosofia da UFC. Segundo a professora, a reflexão fundamental a ser feita neste momento é se a Universidade Federal do Ceará é favorável a uma política especial para segmentos que são tratados de forma diferente no Brasil, como negros, pobres e indígenas. O debate vem à tona devido ao atual projeto que já foi aprovado na Câmara Federal e tramita atualmente no Senado, que reserva 50% das vagas em escolas técnicas e universidades federais a alunos da rede pública, sendo 25% desse percentual destinado a pessoas que se declaram negras, pardas ou indígenas.

O tema é delicado e precisa ser discutido considerando todas as suas nuances. A abertura do seminário acontece com o professor Eduardo Diatahy B. de Menezes, do Departamento de Ciências Sociais da UFC, abordando o tema Crítica à noção de Identidade nas Ciências Sociais. Cientes do envolvimento amplo de questões políticas, econômicas e sócio-culturais, a organização do seminário convidou profissionais de várias áreas para avançar no debate. “Na medida em que uma política afirmativa produz benefícios específicos, como as cotas, se restringe o número geral para um todo abstrato. Embora a questão tenha o sentido de afirmar grupos marginalizados, elas criam restrições para outros grupos econômicos e políticos. Por isso, a necessidade de uma maior interdisciplinaridade na discussão do tema. Você nunca pode pensar em ações afirmativas sem envolver todas essas áreas juntas”, justifica a professora do departamento de Educação da UFC e uma das organizadoras do evento, Bernadete Beserra.

A professora Mirtes Amorim é a favor da política de cotas, mas reconhece a grande dificuldade que as universidades enfrentarão para identificar uma pessoa como negra ou indígena, já que vivemos num país tão miscigenado. Na opinião dela, o mais viável seria direcionar a política de cotas para a questão econômica. “Acredito que assim seria mais justo, facilitaria a adesão e valeria para todos os estudantes de escolas públicas, que denotam uma dificuldade na formação, incluindo negros, pardos indígenas e até brancos”, opina.

Desde 2003, a professora Bernadete Beserra pesquisa entre os estudantes da UFC questões relacionadas ao tema. Em geral, a maioria é contra a política de cotas. “As pessoas que são a favor são estudantes mais ligados aos movimentos sociais, ao movimento estudantil”, diz Bernadete. Ela conta que, nos primeiros anos, quando ela perguntava sobre quem se considerava negro, quase ninguém respondia sim. Depois que iniciou a política de cotas, mais pessoas se assumiram negras. Na avaliação da professora, isso já é uma conseqüência positiva da política de cotas. “A crítica combate a política de cotas dizendo que a essas iniciativas acabam afirmando o racismo ao invés de combater. Mas, na verdade, o que acontece é um reconhecimento desse racismo e, não, uma afirmação. Na hora que se objetiva publicamente a ação, se faz automaticamente seleções em nossas cabeças, cria-se um certo rigor. Mas é muito complicado, a gente não sabe o limite entre pardo e negro. É preciso estabelecer critérios mais claros”, enfatiza Bernadete.


PROGRAMAÇÃO

Local: Auditório da ADUFC (Av. da Universidade, 2346 – Benfica). Mais informações: 8783 4529.

 

Hoje

Crítica à noção de identidade nas Ciências Sociais – Conferência de abertura com o Prof. Eduardo Diatahy, às 9h30min.
Cearensidade e Negritude – Mesa-redonda com Eurípedes Funes (UFC), Frank Ribard (UFC); Ruy Vasconcelos (UFC) e Antônio Vilamarque de Sousa, da Prefeitura Municipal de Fortaleza, às 14h30min.

 

Amanhã

Minorias, política e ações afirmativas – Mesa-redonda com Isabelle Braz (UFC); Maria Auxiliadora Holanda (UFC); Mirtes Amorim (UFC) e José Hilário Ferreira Sobrinho (Faculdade Ateneu), às 9 horas.
Cotas na UFC – Mesa-redonda com Sandra Petit (UFC), Henrique Cunha Jr. (UFC), Rui Martinho Rodrigues (UFC), Bernadete Beserra (UFC); Pedro Vítor Gadelha (UFC) e André Costa, da OAB, às 14h30min.

Matéria original: Cotas em debate

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