Cotas, o branqueamento e a discriminação racial

Durante a última semana, houve bastante repercussão sobre a notícia do parlamentar Wilson Batista Duarte – Kanelão (PMDB), vereador de Rio Grande, que durante sessão realizada na sede do legislativo local, ao questionar a criação de cotas raciais para ocupação de cargos públicos, teria afirmado que “os negros querem se favorecer, isso que é racismo, afinal os negros já estão quase brancos, estão saindo com loira, polaca, estão comendo em restaurantes…”. De acordo com a Zero Hora, Kanelão nega a declaração e diz ter sofrido ameaças após a publicação da notícia em diversos sites. O parlamentar está em seu sétimo mandato e completa vinte e seis anos no poder local.

Através de seu suposto discurso, o político tentaria inserir o negro em uma categoria além da raça humana. Ele sugere a superioridade do branco a partir do momento que tenta “embranquecer” o negro, utilizando a brancura como sinônimo de humanidade.

Considerando a afirmação do vereador algo já muito grave, maior ainda foi o meu assombro quando abri a caixa de comentários da página no Facebook do veículo de comunicação Sul21, onde a notícia foi publicada. A lamentável declaração foi esquecida por muitos dos usuários, que acabaram se detendo muito mais no âmbito das ações afirmativas.

Separei alguns comentários:

“Grande parte de quem está usando deste beneficio (enorme benefício) não precisa dele! Poderia estudar e competir em absoluta igualdade de condições com todos os demais!” Ricardo Caldas, branco.

 “Alguém já viu um branco brigar por cotas ou ficar mendigando vagas com justificativa de ser branco? Na boa, não conheço nenhum branco nesta situação, ao contrário do que a mídia coloca na cabeça do povo. Racismo é coisa de afrodescendente.” Alcir Deldoti da Silva, branco.

Ele foi infeliz com o comentário, para dizer o mínimo… Mas concordo com o fato de que não têm mais necessidade de favoritar os negros em muito casos… Nas faculdades, por exemplo, tem muitos negros filhinhos de papai com grana sobrando aproveitando esse favoritismo e ocupando o lugar que poderia ser de alguém pobre, realmente necessitado.” Derek Douglas Fehér, branco.

*Obs: as ações afirmativas em universidades são exclusivamente para alunos que cursaram o ensino médio em ESCOLA PÚBLICA. Dentro disso, uma porcentagem é reservada para autodeclarados negros e pardos.

Cotas pra negros, isso e ridículo! Isso é racismo contra brancos que também querem estudar e não podem!” Aurea Mayo, branca.

Cada vez que eu me deparo com coisas como essas, ao invés de sentir raiva, eu fico triste. Não conheço o Ricardo, o Alcir, o Derek e a Aurea, mas me sentiria melhor se eles estivessem lendo esse texto agora. Gostaria de lembrá-los que as ações afirmativas não procuram beneficiar essa ou aquela pessoa, elas apenas se mantêm como uma alternativa temporária para inserir toda uma parcela da população que há tempos vem sendo tratada à margem da sociedade.

Se nascer pobre dificulta tuas chances de crescer na vida, nascer pobre e negro diminui as mesmas drasticamente. De acordo com os dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), 4,2 milhões dos brasileiros pobres se declararam brancos e 11,5 milhões pardos ou pretos – isso significa que o número de pobres negros é 2,7 vezes o número de pobres brancos. Os jovens negros têm risco quase três vezes maior de serem executados em comparação aos brancos. Ainda, a população que se declara negra ou parda possui renda em torno da metade da renda recebida pelos brancos, a taxa de desemprego é mais elevada e a escolaridade é consideravelmente menor.

Infelizmente, a igualdade ainda é utopia. Negros e brancos não são iguais, pois não tiveram historicamente as mesmas oportunidades. O princípio da meritocracia é injusto, já que se torna impossível igualar duas realidades totalmente distintas através de uma única prova ou seleção, tanto de cargos públicos como de vestibulares.

Como igualar realidades que dali para fora são tão desiguais?

Aliás, como igualar uma vida inteira de desigualdade?

Aí alguém diz: “-Ahhh, mas eu conheço fulano, amigo de não sei quem, que conseguiu entrar na universidade sem cotas.”. Que bom que ele se esforçou e bacana que ele conseguiu, porém ele é uma exceção. Isso reforça ainda mais a injustiça que é cobrar heroísmo de cada menino pobre e negro brasileiro, possível morador de áreas de conflito.

Através da isonomia e da equidade, que se baseiam justamente em tratar desigualmente os desiguais na medida da sua desigualdade, de modo  a equalizar as oportunidades e diminuir as injustiças e diferenças sociais no Brasil, o governo tem buscado inserir cada vez mais jovens nas universidades e em setores da sociedade onde os negros e pobres são muito pouco vistos.

Apesar disso, os mesmos ainda são minoria nas universidades, principalmente em cursos elitizados como medicina e engenharias, pois não se sentem representados e consideram-se fora do padrão.

Recentemente, a UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), informou a decisão do aumento de 30% para 40% de ações afirmativas no próximo vestibular. A expectativa é que em 2016, o número chegue em 50%. Entram neste grupo estudantes de escola pública, que podem também se autodeclararem pretos ou pardos e de renda baixa.  Uma quebra ao círculo vicioso da pobreza, em que apenas uma camada privilegiada da sociedade tem acesso ao ensino público universitário, gratuito e de qualidade.

E assim, seguimos…

Em tempo: Entidades ligadas à comunidade negra afirmaram ontem (13) que pretendem entrar com o pedido de cassação do vereador.

“Por um mundo onde sejamos socialmente iguais, humanamente diferentes e totalmente livres.” Rosa Luxemburgo

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Fonte: Agencia Yaih 

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