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‘Cultura negra é o pilar da nossa formação cultural’ diz Ícaro Silva

Em cartaz com a peça-show ‘Ícaro and The Black Stars’, ator fala da importância da representatividade negra na arte e a falta dela, e comemora projetos na TV e no streaming

Por Thiago Antunes no O Dia

Ícaro Silva na peça-show ‘Ícaro and The Black Stars’, em cartaz no Teatro Carlos Gomes – Igor Mota / Divulgação

Ícaro Silva é um artista multimídia. Em cartaz no Teatro Carlos Gomes com a peça-show ‘Ícaro and The Black Stars’, ele também pode ser visto na novela ‘Verão 90’, da TV Globo, como o divertido Ticiano, e no serviço de streaming Netflix, na pele do músico Capitão, no seriado ‘Coisa Mais Linda’, que se passa no fim dos anos 50, período considerado o auge da Bossa Nova.

Em entrevista ao DIA, o ator ressaltou suas conquistas atuais, falou sobre a importância da representatividade negra na arte (e a falta dela), suas experiências com a música e ideias de projetos futuros.

Como foi a formatação de ‘Ícaro and The Black Stars’? Qual o conceito que a norteia?

A ideia de fazer um musical/show veio da parceria do Pedro Brício (diretor da peça). Fiz com o Pedro os projetos sobre o (Wilson) Simonal (os shows ‘S’imbora: O Musical’ e ‘Show em Simonal’). Ele queria fazer um musical e eu queria fazer um show e a gente criou juntos uma obra que é muita coisa junta. É uma peça, um stand-up, um show. Eu considero algo muito potente, de muitas possibilidades. A peça não só fala, como também busca trazer a cultura africana em geral para o protagonismo.

O afro-futurismo, que é esse conceito do espetáculo, fala justamente de colocar a cultura, o povo, as etnias pretas em um protagonismo de um novo lugar. A gente não está acostumando a ver a cultura africana no lugar de protagonismo. Eu olho pro futuro da negritude e espero que esse futuro seja extremamente brilhante, pois tudo que temos agora é brilhante, e nos permeia em muitos aspectos. A gente não fala sobre isso, não aprendemos na escola. O espetáculo tem esse objetivo, colocar em evidência os pretos. E ao mesmo tempo deixar claro que a cultura negra, afro-brasiliera, é pilar da nossa formação cultural.

Há muitos artistas homenageados no espetáculo: de Michael Jackson a Bob Marley. Como esses artistas se relacionam com a sua formação?

Eles fazem parte da minha formação artística. Ao longo dos anos fui entendendo como performer mesmo. Gosto de ser multimídia e trazer essa ideia de múltiplos talentos. Os artistas, como Beoyncé, Bob Marley e mesmos os nossos brasileiros como o Jorge Ben e o Tim Maia, me influenciaram por ideologia, com performances que me atravessaram de uma maneira ou de outra, na infância ou tardiamente.

Você tem alguma formação musical, fora o canto?

Nunca tive nenhuma disciplina para tocar instrumento, mas aprendi que é possível desenvolver a voz de uma maneira cada vez mais musical. Fiz faculdade de teatro, com formação musical, e essa coisa da voz vem muito da minha experiência com aula de canto e musicais, além de aprender sobre fisiologia da voz. Fui entender da voz e cantar. Eu uso dessa minha habilidade vocal em todos os meus trabalhos.

Quando você decidiu utilizar a voz como instrumento? Faz aulas há muito tempo?

Faço desde 2010, porque entendi que precisava desenvolver a minha voz para meu trabalho artístico. Quando tinha 16 anos, fiz oficinal de musical no meu colégio, na escola de teatro. Eu já entendia que gostaria de levar a música ao palco. Quando eu vim pro Rio, quando decidi fazer faculdade, achei que era importante fazer essa coisa desde lá. Acho que as formações todas caminham juntas. Eu comecei a trabalhar como ator desde os 10 anos, é claro que minha experiência ao longo desse tempo todo também contou nesse sentido.

Em qual momento você se deu conta de precisava colocar essas potencialidades em evidência?

Sendo um ator preto no Brasil, você naturalmente vai se dando conta disso, mesmo que não conscientemente. Eu comecei a trabalhar e tinham papéis delegados a mim. Eu queria fazer personagens interessantes, protagonistas, e não ter espaço já me fazia pensar na formação da cultura negra no Brasil. Isso parte do primeiro momento que deu vontade de fazer isso. Quando você não é considerado branco, você pensa raça e etnia desde sempre, pensa sobre sua cultura ou a falta dela e como isso se relaciona no nosso meio político e social. Por isso também venho procurando mais caminhos, onde posso usar meus talentos e habilidades. Não há tanto espaço para negros dentro da mídia.

Você acha que, de uns tempos para cá, essa espaço vem se abrindo de alguma forma?

É claro que teve mudança. Existe uma sinalização, sim, mas quase que insignificante. Há um lapso muito grande em relação à representatividade da população afro-brasileira, que ainda se vê menos representada em 10% das produções artísticas. É preciso fazer muito mais. Creio que as portas vêm sendo arrombadas por artistas negros de inegável brilho e ainda há muito o que se fazer. Isso não é exclusividade de algum tipo de arte, isso ocorre em todos os âmbitos. Não existe ainda essa vida de representatividade. Ainda não pensamos nesse tipo de coisa como povo.

Você falou que gosta de se ver como multimídia. Como foi a experiência com o seriado ‘Coisa mais Linda’?

Eu fui chamado pra fazer um teste e depois de um tempo me ligaram para falar da aprovação e eu não tinha muitas informações, mas fiquei muito interessado. A série tem um viés feminino, então já se propõe nova, com coisas que não vemos muito por aí. O meu personagem (o músico Capitão) é um homem muito a frente do seu tempo e o discurso dele me pegou. Então, fui muito feliz fazendo a série e está tendo um feedback bem legal. É uma produção necessária, é bom que a gente tenha essa narrativa, contra o machismo, e as pessoas se encantem com ela. Eu gosto da coisa da novidade, que geralmente é produzida por quem está à margem. Me identifico com quem está nessa esfera.

E o seu personagem em ‘Verão 90’, Ticiano?

‘Verão 90’ é um barato, tenho ficado muito feliz com a reação do público. Tenho constatado que a gente precisa se alegrar, dar risada, diante do caos social que estamos vivendo. A novela tem uma leveza inquestionável, ela se propõe a isso e tenho esse privilégio de fazer esse personagem, dentro do que é cômico, e eu tenho dado boas risadas, contracenado com a Dandara Mariana, que é uma grande parceira de jogo e de cena. Então estou bastante realizado.

Ainda sobre seus múltiplos projetos. Tem vontade de se ver do outro lado, dirigindo algo?

Tenho vontade sim. Tenho apego pelas minhas concepções estéticas. Eu sinto que tenho muitas ideias que preciso transformar em pacote, em produtos mesmo e não só contribuir como ator e artista. Acho que é um processo que demanda maturidade. Quando tiver, farei (risos). Um diretor precisa realmente estar atento a tudo ao mesmo tempo, mas pensando do ponto de vista artístico. E acho que o diretor precisa ir além disso. Tenho vontade de experimentar, acho que amalgamando mais as obras. Eu entendo que podemos fazer várias coisas, ao mesmo tempo gosto de contribuir com alguém em projetos musicais, em clipes. Vamos encontrar nos

Voltando à peça, você tem vontade de fazer um projeto exclusivamente musical, como ter uma banda?

Acho que nada comigo é exclusivo, mas o ‘Ícaro and The Black Stars’ é um caminho mais musical mesmo, tem alguma direção nesse sentido, mas gosto muito de multiplicar. Não sei se lançaria algo somente musical, pode ser que aconteça. Acho que vou entendendo minhas necessidades, tentando viver o presente. Nesse momento está assim, mas quem sabe?

Serviço – ‘Ícaro and The Black Stars’

Temporada: 19 de abril a 26 de maio

Local: Teatro Carlos Gomes

Endereço: Praça Tiradentes, s/n° – Centro

Telefone: (21) 3111-2011

Horário: sextas e sábados, às 20h, e domingos, às 18h

Ingressos: R$ 60 (inteira) / R$ 30 (meia)

Classificação etária: 12 anos

Duração: 90 minutos

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