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Mart’nália lança 12º CD, totalmente dedicado à obra de Vinicius de Moraes

Ela é uma intérprete sensível de Vinicius e dos seus parceiros nas músicas registradas nesse projeto

Por Irlam Rocha Lima, do Correio Braziliense 

(foto: Eny Miranda/Divulgação)

Mart’nália acaba de lançar o seu 12º CD, totalmente dedicado à obra de Vinicius de Moraes. Mas a relação da cantora com o legado do Poetinha é antiga. Ela lembra que na infância ouvia o pai, Martinho da Vila, assobiando o clássico Insensatez, de madrugada; e a mãe, Anália, quando ficava zangada, mandar ela e os irmãos pra Tonga da Mironga do Kabuletê.

Já em carreira artística, a cantora gravou os sambas Sei lá, para o documentário Vinicius, de Miguel Faria Jr.; e Pra que chorar, incluída na trilha sonora da novela Babilônia, de Gilberto Braga. Há seis anos, ao participar do festival Black 2Black, no Rio de Janeiro, fez um show só com músicas do homenageado de agora. Mais recentemente, montou um show no qual interpretava Vinicius e Noel Rosa.
Tudo isso estava guardado na memória e a ajudou na decisão de gravar o Mart’nália canta Vinicius de Moraes, álbum de 14 faixas lançado pela Biscoito Fino. A ode ao poeta reúne composições de diferentes períodos, criadas com os parceiros Tom Jobim, Carlos Lyra, Baden Powell, Toquinho e Hermano Silva.
Em Samba de bênção, na abertura do repertório, ela saúda Vinicius, que, em seguida, canta um trecho da canção, num fonograma cedido pela Universal Music. Há a participação de Toquinho, na popular Tarde em Itapoã; da cantora e atriz franco-italiana Carla Bruni num dueto em Insensatez, em que colocou a bela voz a serviço de Quelle Grande Sottise (versão da antológica canção). E tem ainda Maria Bethânia declamando o Soneto do Corifeu, antes de se ouvir Eu sei que vou te amar.
Jeito moleque
Aos 53 anos — quem diria? — mas com seu conhecido jeito moleque, Mart’nália é uma intérprete  sensível de Vinicius e dos seus parceiros nas músicas registradas nesse projeto. Reverente em Canto de Osanha, ela exibe versatilidade e se sai bem nas românticas Minha namorada, Sabe você, Onde anda você, Você e eu, Um pouco mais de consideração; e, cheia ginga, se solta por inteiro em A tonga da mironga do kabuletê e Maria vai com as outras.
Nos agradecimentos contidos no encarte, emocionada ela fala de Arthur Maia, “minha paixão e parceiro musical de toda a vida”, com quem trabalhou em quase todos os outros discos. Ele produziu o Mart’nália canta Vinicius de Moraes e assinou os arranjos com Celso Fonseca, mas morreu antes do álbum ser lançado.
Caetano Veloso, que assina o texto de apresentação — com a propriedade de quem já compôs para a cantora —  diz: “Amparada nos arranjos sempre elegantes de Celso Fonseca, em parceria com o saudosíssimo Arthur Maia, a voz há um tempo rasgada e suave de Mart’nália, pé do nosso samba, traduz o amor pelas mulheres, a compaixão pelos desfavorecidos, a impaciência com os medíocres, tudo o que é motivação para os versos sempre tão bem construídos de Vinicius, numa linguagem íntima, porém desacorrentada”.
Entrevista/ Mart’nália
Você já havia cantado Vinicius de Moraes em outros projetos, mas como surgiu a possibilidade de gravar um álbum em homenagem ao Poetinha?
Eu estava fazendo um show em que interpretava Noel Rosa e Vinicius de Moraes e ouvi sugestões para registrá-lo ao vivo. Mas acabei optando por gravar esse disco, até porque esse repertório, com a leveza da poesia de Vinicius, da maneira como ele fala do amor, era o que eu queria fazer nesse momento.
Diante de tantas e belas canções, houve dificuldade para fazer o registro de apenas 14 faixas?
Algumas delas estavam no show que fiz no Blue Note (casa de espetáculos do Rio de Janeiro), outras escolhi conversando com Marcinha Álvarez (empresária da cantora), Arthur Maia e Celso Fonseca. Havia também aquelas que estavam guardadas na minha memória afetiva, como Insensatez e A tonga de miromga do kabuletê.
Maria Bethânia já havia produzido um disco seu (Menino do Rio) e agora participa desse novo trabalho. Por que a quis declamando Soneto do Corifeu?
Quando decidi escolher Eu sei que vou te amar no CD, pensei em Bethânia para interpretar o poema Soneto da Fidelidade, que na gravação original antecede a canção. Mas ela preferiu declamar Soneto do Corifeu, com aquela voz poderosa, e achei ótimo, até por que era uma novidade. Bethânia é um colo a que sempre recorro.
Ter Toquinho fazendo duo com você no clássico Tarde em Itapoã representa o quê?
Vinicius fez essa belíssima canção com Toquinho e quis também homenageá-lo. O Arthur Maia foi quem me deu o toque para convidá-lo a fazer esse duo comigo. Ele ter aceitado foi um presente e tanto, que me deixou emocionada.
Como surgiu a ideia de ter Carla Bruni cantando Insensatez, em outro dueto?
Inicialmente, pensei na Bebel Gilberto, mas ela estava envolvida com outros compromissos. Aí, por meio de um amigo francês, fizemos contato com a Carla, que gostou da ideia e topou participar, com seu canto bossanovista. Quelle grande sottise, tradução do poeta caboverdiano Mário Lúcio. Ficou maneiro, pois a intenção era misturar.
Como encara os preconceitos ligados às questões racial e sexual, que têm recrudescido ultimamente?
A questão racial é mais latente, mas eu vou levando minha vida, fazendo meu trabalho, sem dar bola aos preconceituosos. Temos que encarar e vencer os obstáculos que surgem, mas sempre com leveza.
Mart’nália Canta Vinicius de Moraes
CD com 14 faixas, produzido por Arthur Maia. Lançamento da Biscoito Fino. Preço sugerido 29,90.

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