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Da encarnação do verme à partida do verme encarnado

Há gente que perde a chance de morrer velho honrado

por: Fátima de Oliveira

 

Meu avô Braulino dizia que só aspirava morrer honrado. Fascinada, acreditava que era um desejo da sabedoria da velhice. Engano. Há gente que perde a chance de morrer velho honrado! Não é meu estilo chutar metamorfoses ambulantes nauseabundas, como o patriarca que arriscou a maquiada biografia por um ar de honradez para seu infecto clã, mas seria covardia calar.

Em “O Sermão do bom ladrão”, o padre Antônio Vieira diz: “os ladrões que mais própria e dignamente merecem este título são aqueles a quem os reis encomendam os exércitos e legiões, ou o governo das províncias, ou a administração das cidades, os quais já com manha, já com força, roubam e despojam os povos”. Vieira profetizou que o clã Sarney surgiria na política: “No Maranhão, a corte da mentira. O galante apólogo do diabo. O M de Maranhão. No Maranhão até o sol e os céus mentem”.

Matutei sobre o que diria Glauber Rocha do tempo perdido com “Maranhão 66” – documentário épico da posse de Sarney governador -, que hoje, em maranhês, é um bogue (murro) em nossa cara. Ele tudo fez para desmerecer ter sido eternizado numa obra de arte glauberiana. Ardem em praça pública as maracutaias do clã que se locupleta nas tetas do Estado há quase meio século. Se interessa às elites fritar seu Dom Bigodom, pois que cantem as “incelenças”. Não vou gastar meu latim com teorias conspiratórias contra a governabilidade. Não creio nelas. E la nave va…

Em “Sucessão no Senado – De pé pelo Brasil”, Ricardo Noblat erra em futurologia e acerta na dimensão da gula afrodisíaca do poder em busca da impunidade: “Acordou, Sarney? Pelo que o conheço, você não deve ter dormido direito. Eu também não. Fui deitar depois das 4h e aqui estou a aborrecê-lo. Imagino você, que tenta ser presidente do Senado pela terceira vez, dos anos 1990 para cá. Vai, levanta da cama, pede o café e os jornais (…).

Hoje será seu grande dia, Sarney – para o bem ou para o mal. (…) Passará os próximos dois anos pontificando do alto da cadeira que acomodou nádegas ilustres, ainda na época do Império. Se quiser, ainda terá a chance de renovar o mandato por mais dois anos. Estará na foto oficial da posse do futuro presidente da República, seja ele quem for. E o coitado ainda será forçado a comer direitinho em sua mão (…)
Por que arriscar a saúde e a biografia depois dos 78 anos de idade? Não me diga que seus videntes de confiança, embalados pelo toque eletrizante dos tambores de Codó, ainda insistem em vaticinar que você será presidente da República mais uma vez? Cadê a férrea disposição manifestada no ano passado de se dedicar mais à literatura, às suas memórias, à dona Marly, aos filhos e aos netos? Você sempre foi um pai de família amoroso, mas ausente. A política é monogâmica. Ela não compartilha a cama com mais ninguém. Pense a respeito, homem. E não me queira mal” (Noblat, 2.2.09).

Pense numa podridão! É o reino do Senado. Em menos de uma década, três presidentes – ACM (2001), Jader (2001) e Renan (2007) – renunciaram. E agora, José? Segundo Vieira, são dois os mistérios: o dia da Encarnação do Verbo e o dia da partida do mesmo Verbo Encarnado… Dom Bigodom, o mago do mimetismo – do apoio à ditadura aos palcos da transição democrática – ousa falar em tortura moral? “E la nave va”, genial bizarrice de Fellini (1983)? É a viagem-funeral do luxuoso navio Glória N. com as cinzas da cantora de ópera Tetua Edmea para a ilha de Erina, onde nasceu. Há semelhança com a eleição-funeral do Senado?

Matéria original: Da encarnação do verme à partida do verme encarnado

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