terça-feira, fevereiro 7, 2023
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De licença-maternidade e em meio à pandemia, ela decidiu impulsionar os negócios de mulheres negras

Quando Caroline Moreira, de 35 anos, se movimenta, pelo menos duas mil profissionais negras de sua rede de contatos se movimentam com ela. E a empresária, que se tornou referência quando o assunto é impulsionar o empreendedorismo negro, decidiu que não podia parar sua luta antirracista por protagonismo negro nem durante a licença-maternidade. Por isso, nos últimos seis meses, idade da pequena Luna, a CEO da Negras Plurais decidiu continuar o processo de criação do primeiro aplicativo de oferta de produtos e serviços de mulheres pretas da América Latina e, diante da pandemia, acelerou o passo.

Quando olho para os meus filhos – além de Luna, ela tem Miguel, de 7 anos -, sinto culpa por não estar me dedicando tanto quanto gostaria, mas acredito que a luta antirracista é mais urgente agora porque estou trabalhando para construir um mundo para eles. Acredito que eles vão entender o que estava fazendo enquanto estava ausente – diz ela.

“Dê um match nas Negras Plurais”, que está em fase de financiamento coletivo na plataforma Benfeitoria, quer dar escala à divulgação que Caroline já fazia com os contatos de profissionais negros que reuniu nos últimos cinco anos. O plano é conectar empreendedoras e prestadoras de serviços negras a compradores e contratantes em potencial de todo o país, tornando os negócios visíveis, independentes e com possibilidades de gerar contratos internacionalmente.

Para além de criar oportunidades, no entanto, a empreendedora aponta a importância de estender o ativismo antirracista, que já toma conta das redes sociais, a ações no mundo real:

– É preciso ação, olhar o racismo como estrutura e fazer parte dessa mudança, e é por isso que criamos um financiamento coletivo. É importante consumir produtos e serviços para que mulheres negras sustentem suas famílias, porque não fazemos questão de ganhar cesta básica, queremos o resgate da nossa dignidade por meio do nosso trabalho. O assistencialismo é importante em situações de emergência, mas mais importante é termos opção, é termos a caneta na mão – diz a empresária, que alerta:

– A gente usa todas as tecnologias de pessoas brancas, como Ifood, Spotify, Mercado Livre. Temos que trazer dinheiro também para a comunidade negra, e vamos fazer isso com o aplicativo, que vai abrir portas para terapeutas, advogadas e arquitetas, produtoras culturais, entre outras. Vamos ter mulheres negras em todas as áreas – afirma a empresária, que vive em Porto Alegre.

Além de ser uma alternativa à venda de produtos nas ruas, que deixou muitas empreendedoras informais em situação de extrema vulnerabilidade em tempos de pandemia, o aplicativo tem a missão de ajudar a preencher vácuos de acesso e oportunidades criados pelo racismo estrutural também depois que a crise passar.

É uma atitude de emancipação, já que 72% das mulheres negras atuam no mercado informal. Vamos poder fazer um giro econômico durante a pandemia e também pós-pandemia, acreditando que a gente vai poder fazer com que o dinheiro também possa chegar às mãos de pessoas negras – diz.

Luta por protagonismo negro nasceu após o filho sofrer racismo

Caroline estava para se formar em Contabilidade quando seu filho mais velho, Miguel, sofreu racismo em um parquinho em Porto Alegre. O garotinho, que tinha 2 anos, foi chamado de feio por uma criança, que chegou a mencionar a cor de sua pele.

– A minha ficha só caiu quando uma amiga me disse: “Isso é racismo”. Comecei a pensar em como podia continuar trabalhando com contabilidade com meu filho vivendo nesse mundo racista. Mudei a minha vida inteira para promover essa luta e, por fim, entendi que se queria ver transformação, deveria trabalhar para que as pessoas pretas tivessem oportunidade – afirma ela, revelando ainda que o menino sofre com discriminação desde o dia em que nasceu.

– O parto foi em uma maternidade de classe média alta em Porto Alegre, onde nunca tinham visto um bebê negro retinto. Funcionários ignoravam a minha privacidade e iam ao meu quarto ver a criança preta que tinha nascido. Precisamos poder ocupar todos os espaços e mostrar que não gestamos apenas filhos, mas projetos, sonhos, planos. “Somos matrigestores” – afirma ela, em referência à filósofa Katiúscia Ribeiro.

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