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Deixe suas lagri_más aqui
Créditos da foto: Reproduzida/Zezinha

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Você diz algo. Eu respondo. Você chora. E em um estalar de dedos, estou na estatística. Ou melhor, no estereótipo. Caio nesse pequeno e fechado mundo em que sou visto como grosso, rude, mal humorado e mal amado. Sou aquele que parte corações, acaba com boas expectativas e faz café com a lágrima de brancos. Em resumo, a vida do corpo negro é curta e eu, grosso.

Por Junno Sena Sousa Maia enviado para o Portal Geledés

Foto: Reproduzida/Zezinha

Sou colocado nesse caminho sem a minha permissão. Cada frase, pensamento e atitude perdem sentido e se transformam em um simples “estresse”. Apenas mais um que não sabe baixar a voz e muito menos qual o seu lugar. Mesmo com meu discurso embasado em teorias e meu coração repleto de boas ações. Não importa, pois da próxima vez, você diz algo e eu não respondo. Não por medo de te magoar, mas por que estou cansado de ser marcado.

Como um gado e seu ferro quente. Estou cansado de ser marcado, posto em uma coleira e com um “xiii”, esperarem que eu fique quieto no meu canto. E por pouco é o que eu faço. É o que eu quero fazer. Por que cada músculo meu está cansado de lutar. Meu estômago está cansado dos socos. Minha garganta está cansada de gritar. Mas não importa. Você, magoado ou não, nunca vai escutar, mesmo eu gritando ou não.

E se escutar, minha fala e argumentos serão “mimimi”. Meu punho pro alto e meu coração batendo forte será “overreacting”, exagero, falta do que fazer. Pois bem, é o que digo de vocês: “Puro mimimi”. Que reclamam de respostas curtas pois tem medo do que um negro tem para falar. Que encaixotam pensamentos, os seus e os meus, pois não sabem se abrir. Que tampam os ouvidos e cantam alto por que não aguentam histórias diferentes da sua.

Somos fechados para novas narrativas. Impedidos de sermos os nossos próprios heróis. Proibidos de nos tornar o “Homem de Ferro”, o “Capitão América”, o “Homem Aranha”. E até mesmo aqueles que nos são por direito. Mas esquecem, que, por graças do que existir de divino, estamos dispostos a lutar.

Como bebês que lutam para nascer e dar o primeiro grito ao mundo. O corpo negro faz isso diariamente, usa suas garras — de pantera — para chegar a lugares de poder e ser ouvido. Mas é um círculo vicioso. Nesse meio tempo, somos confundidos com monstros, selvagens, subdesenvolvidos. Somos novamente jogados naquele ideal colonial: um fardo para o homem branco. Um que deve agradecer a ele pelo ensino que “nos deu”, pelo lugar que “nos apresentou” e claro, por “nos permitir” procriar com seus filhos e dividir “seu espaço”.

“É fácil culpar quem grita e inocentar quem sussurra veneno” é o que diz a atriz Ronit Elkabetz ao protagonizar O julgamento de Viviane Amsalem. O contexto é diferente. As lutas? Separadas por meio mundo. Mas os ideais, iguais. Um corpo em silêncio. Outro em gritos e prantos. E adivinha? Quem grita não é branco do início da história. Quem grita não é o homem que deseja amarrar sua esposa a si. Quem grita é o corpo silenciado com medo de se tornar um estereótipo. Com medo de ser o negro mal educado. Com medo de ser a “vagabunda” que deseja se separar de seu marido.

** Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do PORTAL GELEDÉS e não representa ideias ou opiniões do veículo. Portal Geledés oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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