Denise Ferreira da Silva e Sueli Carneiro: filósofas insurgentes

Os livros de filosofia política das autores nos fornecem ferramentas para pensar o mundo contemporâneo.

O mercado editorial lançou, num tempo relativamente curto, duas obras incontornáveis para (des)pensar e intervir na realidade ou até mesmo decretar o fim deste mundo para que outro seja soerguido. Trata-se de Homo modernus: para uma ideia global de raça, de Denise Ferreira da Silva, e Dispositivo de racialidade: a construção do outro como não ser como fundamento do ser, de Sueli Carneiro, publicados, respectivamente, pelas editoras Cobogó e Zahar.

Gestados no campo da filosofia política, ambos os livros funcionam como uma caixa de ferramentas com força diamantina para o cumprimento da tarefa a que eles nos convocam e na qual estão absolutamente implicados. Somos, assim, provocados a seguir as relatoras, ou melhor, as autoras, em seus investimentos numa visão macropolítica voltada tanto para a denúncia do império da razão – responsável por fundar e sustentar o edifício do pensamento moderno e do sistema de representação dele decorrente – quanto para a negação radical do universalismo.

Num contexto marcado pela eficiência neoliberal, tão refratário à reflexão e à teoria e tão apegado a crenças e opiniões, alguns filósofos, como Peter Sloterdijk em Crítica da razão cínica, afirmam que “há um século a filosofia está morrendo. No entanto, ela não consegue morrer porque sua tarefa não foi cumprida. Assim, sua despedida precisa se delongar de maneira aflitiva”. Costumo dizer que Denise Ferreira da Silva e Sueli Carneiro são pensadoras que, não aderindo à surdez diante do presente, dizem o que a filosofia “esqueceu” de dizer, conseguem apreender a formação do mundo naquilo que ela tem de mais profundamente excludente. Em suma, com elas, o conceito alcançou a realidade.

As duas filósofas negras vão além de Nietzsche (a razão não só produziu um ser humano limitado, como ele reconhece, mas também instituiu sujeitos diferentes diante da universalidade, dizem Denise e Sueli) e nos ensinam belamente, como exímias mestras que são, que é possível aproximar a filosofia da vida, que é plausível renová-la com aquilo que há de mais pulsante e perturbador no nosso mundo. Tanto em Homo modernus como em Dispositivo de racialidade, sentimos que as cordas da reflexão podem até vibrar, mas não alcançarão o afinamento necessário se as cordas da ação prática, extraídas do chão do mundo vivido, não forem dedilhadas.

Denise Ferreira da Silva fica no encalço de Kant para nos dizer por que nós não sabemos do “lixo ocidental”, bem ao modo de Milton Nascimento, e, assim, estabelecer outros parâmetros para o exercício da práxis. Já Sueli Carneiro caminha com Michel Foucault para também apontar o lixo ocidental, valendo-se do dispositivo de sexualidade – conceito usado pelo filósofo francês para indicar como discursos e instituições compõem a experiência dos corpos –, metamorfoseando-o no dispositivo de racialidade, que se torna radicalmente outro operador explicativo do racismo.

Ao denunciarem o lixo ocidental, uma espécie de “J’accuse…!” – o “Eu acuso!” do escritor francês Émile Zola –, Denise e Sueli se aproximam de um oásis de referências negro (Charles Mills, Lélia Gonzalez, Frantz Fanon, Cedric J. Robinson, Saidiya Hartman…), demonstrando o compromisso que têm com uma plêiade de figuras negras insurgentes que ousaram transgredir.

Se uma caixa de ferramentas se presta ao útil (e não ao utilitarismo), Homo modernus e Dispositivo de racialidade estão à altura do nosso cotidiano, fraturado pela mixagem do fascismo, do supremacismo branco e do aniquilamento dos terrivelmente outros, produzidos no interior dos princípios da igualdade e liberdade universais.

Como sabemos, a modernidade garantiu sua existência fazendo circular a diferença racial e cultural, o que nos leva a pensá-la não mais em termos de incompletude ou desvio ético, mas de impossibilidade. Depois da acusação, Denise e Sueli nos levam à deserção, que nos leva à criação de outros sistemas de representação capazes de ativar a nossa força para imaginar mundos e reivindicar outro tipo de impossível: aquele que a razão moderna tentou soterrar, mas que sempre se insurge, perturbando os pilares que lhe deram sustentação. Não tenho dúvida de que os dois livros recém-publicados são nitroglicerina pura, caminhões-tanque estacionados nas pilastras deste edifício moderno, as quais, embora estejam avariadas, ainda se mostram espessas. Que entrem, assim, em combustão!


Rosane Borges*. É jornalista, doutora em ciências da comunicação, professora colaboradora do Colabor [Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP)] e professora convidada do Diversitas (USP). É articulista da revista Istoé e autora de diversos livros, entre eles Espelho infiel: o negro no jornalismo brasileiro (2004), Mídia e racismo (2012), Esboços de um tempo presente (2016) e Fragmentos do tempo presente (2016).

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