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Denúncias de machismo e linchamento on-line: há consequências?

Denúncias de machismo e linchamento on-line: há consequências?

Relatos de violência contra a mulher publicados na internet estão cada vez mais frequentes, mas o que acontece com a vítima e o agressor?

Por ISABELLA CAVALCANTE, do Metrópoles

As redes sociais têm se tornado uma plataforma cada vez mais comum para denúncias. Elas variam entre mau atendimento em um restaurante, desrespeito de um estranho no transporte público, até agressões e violações graves. Um dos casos mais recentes com grande repercussão foi o da escritora Clara Corleone, ex-esposa do guitarrista da banda “Apanhador só”, Felipe Zancanaro.

Clara não foi a primeira e, certamente, não será a última mulher a acusar um parceiro de abusos. Os posts que denunciam integrantes de banda por machismo são tão frequentes que despertaram a atenção da estudante de jornalismo Carolina Vicari, de 19 anos.

Carolina é dona do blog “Apoie a cena” e escreveu sobre denúncias de machismo que envolvem membros de bandas brasileiras. A lista começa com o relato de Clara Corleone relacionado à “Apanhador só” e cita Criolo, CPM22, Esteban Tavares e outros 19 músicos. Todas as acusações acompanham prints que relatam as agressões.

Após cinco dias de lançamento, a lista de Carolina já tinha mais de 400 mil visualizações. “Muitas meninas vieram me agradecer, porque finalmente conseguiram colocar isso para fora e serem acolhidas”, conta a estudante sobre a reação positiva que a postagem recebeu. Carolina também recebeu críticas e foi acusada de promover linchamento virtual das bandas citadas.

“Muitas pessoas acharam que eu estava disseminando o ódio. Só queria que quem não apoia esse tipo de atitude parasse de apoiar esses artistas”, comenta. “Se você for no perfil do Criolo, por exemplo, tem pessoas pedindo satisfação da parte dele”, afirma Carolina. A jovem também fala que ficou feliz de trazer à tona a discussão sobre o respeito às mulheres no meio musical.

Uma das críticas que o post de Carolina recebeu foi por expor as mulheres que tinham denunciado e que elas poderiam ser processadas pela acusação on-line. “O simples fato da denúncia não gera o direito de processar a mulher, porém, ao fazer a acusação, é preciso cuidado para não cometer alguma injúria ou difamação”, explica a advogada Déborah Mesquita.

A advogada informa que, caso entenda que houve injúria ou difamação, a autora do post pode ser processada, inclusive por danos morais pelo artigo 139 da Constituição. Além disso, qualquer xingamento ou ofensa pode ser enquadrado no artigo 140.

Apesar dos riscos que as mulheres correm ao denunciar on-line, Déborah entende por que isso acontece tanto. “Existe muita falta de preparo nas delegacias não especializadas em violência doméstica, porque ali não se sabe lidar com esse casos. Elas não dão o apoio necessário quando a mulher finalmente decide denunciar”, afirma.

Déborah acredita que as acusações on-line crescem cada vez mais pelo apoio que as mulheres encontram nesse meio. “Também é onde elas verificam histórias de outras mulheres que deram chances e mais chances e, mesmo assim, o companheiro não mudou”, complementa.

Já a pesquisadora cultural e mestre em sociologia Roberta Brito enxerga uma dualidade nessas postagens. “A internet cria uma rede de apoio que protege a vítima, que nesses casos sofre por descrédito nas vias oficiais legais e, ao mesmo tempo, vira um cenário de linchamento público”.

Roberta percebe o linchamento virtual como algo irresponsável, mas também há benefícios quando as práticas de violências são reveladas e denunciadas. “Acredito que é válido esse ‘sofrimento’ pessoal para que se alcance algo maior.”

Por isso, a pesquisadora considera essa liberdade e o momento em que vivemos importantes para o avanço da sociedade. “Como se trata de uma ‘disfunção’ social, nosso inimigo não é o músico X ou Y. Não é Chico ou John Lennon. Ao mesmo tempo e, contraditoriamente, nosso inimigo está incorporado nesses homens e em muitos outros”, explica.

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