domingo, julho 3, 2022
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Depoimento: Neon Cunha pediu morte assistida se Justiça não reconhecesse seu de gênero

Eu arrisquei minha vida para poder comemorar o Dia Internacional da Mulher. Não é figura de linguagem. Em 2016, pedi à Justiça o direito à morte assistida caso não pudesse mudar de nome e gênero. E impus uma condição, me recusava a ser diagnosticada com uma patologia, como acontecia até então com mulheres trans.

Por Neon Cunha, no Universa

Keiny Andrade/UOL

Eu poderia ter me tornado um cadáver, mas me tornei Neon Cunha.

Sou mulher. Não tenho doença alguma. E quando perguntam se eu estava disposta a morrer, digo um sonoro “É claro”. Estava com 46 anos e havia experimentado de tudo. Sofri ameaças, surras, tive arma apontada para cabeça, trabalhei de olheira de cafetina, fiz boquete em policial para evitar espancamento e fui estuprada por bandidos.

Mas nunca deixei de querer viver. E quando você tem certeza da vida, não tem medo da morte.

E eu solicitei alteração do meu registro civil. Dos meus documentos também. Falei várias vezes naquele período, nome social não vai para lápide. Conheci várias mães de mulheres trans tentando mudar o nome nos cemitérios porque a filha nunca usou aquele nome masculino que aparecia na lápide. A resposta era sempre um indiferente “não posso fazer nada”.

Eu procurei a Justiça para pedir um direito, mas não buscava somente abrir um processo. Foi um ato político. Eu e meu advogado conseguimos romper com um procedimento. Com meu ganho de causa, fui a primeira mulher trans a mudar de nome sem diagnóstico de patologia. Agora existe uma jurisprudência, um caminho para todas.

E eu não quero aplausos. Quero compromisso com mais mudanças.

Rejeição na barriga da mãe

Eu estava furiosa quando entrei com o processo. Tinha experimentado uma vida de migalhas e rejeições. Quando era pequena e comecei a falar, fui proibida de abrir a boca dentro de casa. Minha voz incomodava meu pai porque era feminina e ele tinha um filho. Levei muito tempo para falar em público porque entendia que minha voz me denunciava como mulher trans.

Com quatro anos, foram meus trejeitos que passaram a enfurecer meu pai. Eu era obrigada a andar com as mãos dentro do bolso. Ouvia xingamentos e meu comportamento de menina gerava inúmeros conflitos. O que mais me chocava na infância eram as surras homéricas que levava.

Na época, não entendia porque apanhava. Era para virar homem. Neste contexto, minha mãe fez uma confissão um dia. “Devia ter abortado você como teu pai desejava. Talvez, eu não teria tantos problemas com ele”.

Keiny Andrade/UOL

Outro tipo de preconceito

Meu pai não tinha como adivinhar que teria uma filha trans. Ele queria o aborto porque éramos pobres e minha mãe emendava uma gravidez na outra. Somos 10 irmãos no total. Meu nascimento seria mais uma boca para alimentar.

Eu mensurei minha condição de pobreza na escola. Fui querer me enturmar com um grupo de meninas que recusaram minha amizade. Explicaram que não iam andar comigo porque tenho a cor do papel pardo que embrulha os cadernos de pessoas pobres. Era cor de sujeira.

Mas minha infância não foi somente perversa. Nos primeiros anos de vida também houve fatos positivos. No prezinho eu ficava na fila das meninas e ninguém reclamava ou se importava. Também surgiu uma admiração muito grande pela minha mãe. Minha fixação era enorme, a ponto de ela sair para fazer suas faxinas e eu me sentir quase no escuro, como se existisse um dimmer que girava e a intensidade da luz diminuía.

Pedagogia da fralda suja

A pobreza fez minha família mudar de Belo Horizonte para São Bernardo do Campo (SP) nos rastros da fábrica da Volkswagen. Eu tinha uns dois anos e meus pais apostaram meu futuro e de meus irmãos na montadora e no enxame de fornecedores que ela atrai. Não deu muito certo no começo e a falta de dinheiro comprometeu minha infância.

Com quatro anos eu já era do time da limpeza. Mas lavar a louça eu amava. Varrer a casa, também. A única tarefa que tinha problemas era lavar fralda. Queria vomitar. Estava literalmente lavando merda.

Eu sou a terceira de 10 irmãos e a primeira mulher, mesmo que tenha nascido com um pênis. Quando minha primeira irmã nasceu, eu comecei a entender algumas coisas.

Um dia minha mãe chegou tarde, não tinha arroz e me pediu para lavar uma panela. Eu lembro de subir num banco para alcançar a pia do tanque. Lavei a primeira vez e não foi aprovada. Na segunda lavada, sucesso.

A tampa ficou por último. As instruções eram de que não precisava ariar, mas eu era só alegria. Deixei brilhando. Um espelho. Naquele tanque, entendi que estava pronta para ocupar o mesmo lugar que minha mãe dentro de casa.

Keiny Andrade/UOL

Primeiro contato com uma trans

Na escola e em casa, cresci com a pecha de bicha. Como era de família pobre, não tive o luxo de uma adolescência. Fui estudar à noite, com 12 anos, e comecei a trabalhar na prefeitura de São Bernardo do Campo.

Estava no centro entregando um documento quando conheci a primeira mulher transexual da minha vida. Ano de 1982 e Gracie vivia como hippie vendendo artesanato na praça. Ela me questionou violentamente porque estava olhando muito para os seios dela. Me tratou como uma pirralha enxerida e disparou: “Os homens chuparam e ficou assim”.

Eu fiquei assim, sem entender.

Também não consegui processar outro encontro ocorrido na sequência com mulheres trans. Eu tinha um amigo chamado Alexandre que foi precoce em tudo. Estava com 12 anos, ele me levou ao centro de São Paulo e lá vi minhas semelhantes. Foi na Praça da República [tradicional ponto de prostituição de travestis e mulheres trans]. Elas falaram comigo e morri de medo. Não respondi.

Virando olheira de cafetina

A dificuldade em assimilar aquele contato, aliada às minhas obrigações na escola e trabalho, fez eu demorar até os 14 anos para retornar às ruas de São Paulo. E na volta, elas me detectaram. Já vem um guetinho. “Você é mulher e não pode andar com as bichas”.

As mulheres trans e travestis falaram sério comigo. “Você tem uma coisa que a gente não tem, consegue frequentar a escola”. Foram as primeiras a me aconselhar a não abrir mão do meu emprego. Explicaram que na Praça da Republica não seria ninguém além de uma “prostituta no submundo”.

E sabe um momento importante para mim? Quando ganho um posto na rua. Era a olheira das cafetinas. Ficar na esquina vendo quem chegava podia ser questão de vida ou morte. Fui escolhida porque não me drogava.

O submundo se tornou um lugar de pertencimento e de fascínio. Eu era eu de verdade. Nós sabíamos o papel social que cumpríamos. Todas tinham pênis, entendiam o motivo de estar ali e sabiam o que os homens queriam. E os homens sempre acham que validam as mulheres.

Ao mesmo tempo que houve pertencimento, foi onde tudo ficou pesado. Havia violência de todos os lados. Um dia, outra travesti não gosta da tua cara e te tira da boate aos tapas. O policial te obriga a ficar pianinho no camburão enquanto esculacha as outras mulheres trans.

Anos mais tarde o medo aumentou com as GG. Sabe o que é GG? Gillette. Meu medo era falhar na função de olheira; o cliente de uma menina se interessar por mim; ou estar num lugar e a travesti estar muito louca e simplesmente cortar minha cara.

Keiny Andrade/UOL

Aids muda o submundo

Eu também tinha medo de ter uma relação sexual. Comecei a escutar os relatos de manas que foram tratadas como uma divindade e manas que foram violadas. Você vê todos os tipos de possibilidades. Pessoas com doenças venéreas e o grande fenômeno da rua nas décadas de 1980 e 1990 que é a Aids. A questão do HIV mudou tudo.

Muitas foram contaminadas. Outras tantas foram para Europa e voltaram soropositivas. Teve impacto até nos abusos da polícia quando anunciavam a condição para interromper o espancamento das meninas: “Quem é a mais novinha e limpa [sem Aids] para chupar meu pau e a gente parar?”

Eu era a mais novinha.

Cheguei na rua com 14 anos e convivia com manas maiores de idade. Com esta realidade, não espanta que tenha demorado muito tempo para eu permitir qualquer toque no meu corpo. Fui desenvolver a minha sexualidade, pela qual fui julgada, somente aos 26 anos de idade. Até então, eu negociava meu corpo para as outras semelhantes serem liberadas.

Fui tentar querer me aproximar de outra pessoa com 16, 17 anos. Mas transar efetivamente só aos 26 anos. Desta maneira, passei livre pelas duas décadas em que a Aids dizimou mulheres trans. Foi um período que perdi companheiras de todas as formas: doença, polícia e nós mesmas. Sem falar de gente que abria a própria garganta na rua.

Toda mulher sangra

Eu vivi no submundo, mas mantendo minha vida dupla de estudante e trabalhadora na prefeitura de São Bernardo do Campo. Me aproveitava de um visual pseudo andrógeno para me vestir como queria. Diversas vezes minha mãe rasgou roupas minhas que estavam no armário.

Continuei bancando a bicha, e também banquei meus próprios estudos em publicidade e artes. Com 26 anos, tive o primeiro namorado e, na intimidade de casa, dei vazão à mulher que eu sou. Na hora de sair, voltava a encenar o papel da bicha.

Eu representava porque era uma questão de me manter viva. Sempre foi questão de vida ou morte. Passei por toda esta exposição à violência, incluindo estupro. Acredito que esta agressividade às mulheres trans vem da misoginia [aversão ao feminino]. E para entender este mecanismo foi super importante o contato com mulheres negras. Elas me ensinaram uma característica que une todas as mulheres, independente das diferenças — toda mulher sangra.

Keiny Andrade/UOL

Estupro adiou processos

Fui assentando todos estes acontecimentos da minha vida e no ano 2000 prometi que a mulher dentro de mim ia viver. Estava com cabelão e confiante. Então, três homens resolveram roubar uma clínica. Eu morava nos fundos e eles invadiram minha casa pedindo a chave.

Expliquei que não tinha e o tempo todo me trataram como mulher. Mas resolveram roubar a minha casa e num momento um deles me identificou como trans. Fui estuprada. Chamei a polícia e fui tratada como a maior culpada para isso ter acontecido. Levei seis meses para perceber que aquilo não era culpa minha.

Este crime adiou o processo desta mulher existir na sua totalidade. Eu sabia que precisaria estar na plenitude para suportar o processo.

Para você ter uma ideia do que se enfrenta, advogados que consultei em 2016 debocharam da minha causa e riram da minha cara. Os cinco primeiros que procurei não aceitaram o trabalho. Mas desta vez, eu não ia recuar. Estava falando em morte assistida porque era um caminho sem volta.

Eu já tinha estabilidade profissional, diploma, e não aceitaria mais ir ao médico e ele fazer piada. Estava furiosa quando entrei com o processo. Não aceitava mais migalhas. Encontrei o advogado Eduardo Mazzilli e montamos a petição. Ele falou que o processo ia demorar uns seis anos e que precisaríamos ir até a OEA (Organização dos Estados Americanos). Eu iria onde fosse necessário.

Keiny Andrade/UOL

Primeira trans na OEA

O Geledés, instituto que combate racismo e sexismo, me convidou para um evento. Entre as participantes estava a alta comissária da OEA Margarette May Macaulai. O ano era 2016 e fiquei chocada em saber que era a primeira mulher trans a falar na OEA. Aonde eles estavam antes?

Mas a medida decisiva no processo foi procurar a imprensa. Fui até a Folha de S.Paulo e expus o meu caso. Destacaram o repórter Chico Felitti para publicar a história. O Contardo [Calligaris, psicanalista e colunista da Folha] e a Flávia Piovesan [jurista] escreveram sobre o assunto. Foi o impulso que faltava.

Nós perdemos na primeira manifestação da Justiça. Mas o movimento estava irrefreável. Eu ia como anônima assistir a debates LGBTQI+ e o assunto que se falava era só meu processo. No final de 2016, o caso caiu na mão de outro juiz que deu ganho de causa para nós.

Não significou a solução do problema, mas foi um avanço. Pessoas mudam seus nomes por inúmeros motivos. Por que uma mulher trans precisa ter laudos psiquiátricos, psicológicos, de endócrino e de assistente social para fazer a mesma coisa?

Pequenos prazeres da vida

Como a decisão judicial não foi de autorizar a morte assistida, a vida seguiu comigo querendo celebrar as pequenas coisas que uma mulher tem direito. O brinco, o batom, a blusa e ter meu trabalho. É simples para todos, deveria ser simples para nós também.

E continuo fã da minha mãe. A gente conversa e até carinho do meu pai eu ganho. Mas só as vezes. Ele está com Alzheimer e é até divertido. Quando chego e não me reconhece, me vê como uma filha e recebo um afeto e carinho que nunca experimentei. Quando ele me reconhece, enxerga a bicha que odeia.

As pessoas me dizem que ele e minha mãe participaram da exclusão a que fui submetida. Eu respondo que consigo entender as opressões sociais que ambos passaram. Não quer dizer que aceito esta violência que sofri, mas consigo humanizar. Não posso olhar para os dois, velhinhos, e condenar por um processo social.

E esta reflexão não tem generosidade, tem consciência.

Choros reprimidos de uma vida

Completei 50 anos agora em janeiro e chorei. Estava voltando de Porto [Portugal] e senti que era legítimo. Porque mulher trans não tem este direito, chorar nunca funcionou. Quem escutava o choro daquela menina reprimida? Meu pai não suportava.

Chorar depois de um estupro? Pra quê? Os policiais falaram: “Você que aprontou isso.” Vai chorar para quem não te escuta? Pra rirem do seu choro? Ninguém se importa com essa dor. Aliás, aonde caem as mulheres fortes? Morrem secas de pé feito árvores.

Mas a expectativa de vida de uma mulher trans é de 26 anos. O índice de suicídio é de 60%. Sempre foi sobre morte…E o quanto eu quis viver me trouxe aos 50 anos.

A gente merece comemorar o Dia Internacional da Mulher, um dia para todas as mulheres.

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