Neste 8 de março, nossa proposta é desconstruir a categoria abstrata e universal de “A Mulher”. Essa imagem idealizada — muitas vezes branca, burguesa e heteronormativa — atua como uma ferramenta colonial que invisibiliza as marcas de raça, classe e território que definem as condições reais de existência de tantas de nós. A Mulher não existe; existem mulheres, em suas multiplicidades e singularidades.
A categoria abstrata de “A Mulher” desconsidera aquilo que Lélia Gonzalez já denunciava: raça, classe e gênero não operam separadamente neste território. A mulher universal é uma ficção branca.
A universalidade que organiza essa categoria nasce de uma lógica que distribui humanidade de forma desigual. Como sugere Denise Ferreira da Silva, o universal moderno não é neutro — ele estabelece quem pode ser reconhecido como plenamente humano e quem permanece como diferença administrada, como margem. Não se trata apenas de incluir mais vozes em uma estrutura dada, mas de interrogar o próprio fundamento que define o que é humanidade, o que é conhecimento e quem pode falar em nome do todo.
Se essa lógica também define quais saberes são considerados legítimos, ela igualmente relega ao campo do “particular” ou do “identitário” os conhecimentos produzidos em outros registros. Como elabora Maria Leda Martins, há saberes que se inscrevem na oralidade, na memória transmitida em movimento. O conhecimento, aqui, não é abstração descolada do mundo: é prática encarnada, situada, territorial. Ao afirmar esses modos de saber, tensionamos a própria ideia de universalidade que pretende falar por todas.
Não podemos celebrar este dia sem falar das mulheres que “abrem a cidade”, como nomeia Françoise Vergès, e sustentam a engrenagem do capital com seus corpos exaustos, enquanto o mito da “fragilidade feminina” protege apenas algumas. A experiência feminina não é homogênea; ela é atravessada por desigualdades históricas que organizam quem cuida e quem é cuidado, quem limpa e quem é servido, quem descansa e quem sustenta.
Reivindicamos a memória das “infames”: as loucas, as rebeldes, as insubmissas. Aquelas que a história tentou apagar — como Luísa Mahin, cuja existência atravessa o arquivo oficial como rumor, carta, suspeita e insurreição. A memória que nos interessa não é apenas a documentada nos registros do poder, mas a que sobreviveu na oralidade negra e indígena, nas práticas coletivas de liberdade, nas estratégias de continuidade da vida.
O corpo é território de memória. Como nos ensinou Beatriz Nascimento, o quilombo não é apenas um espaço geográfico, mas uma tecnologia política de continuidade negra, transmissão de saberes e compartilhamento de histórias que ultrapassam a historiografia oficial.
Apostamos em romper o silêncio, porque falar e escrever são atos políticos que desafiam o apagamento. Cada palavra e gesto expressivo é resistência contra a morte simbólica e histórica, contra o esquecimento imposto a corpos e vidas marginalizadas. O silêncio, quando imposto, naturaliza a violência; rompê-lo é afirmar existência e memória.
Apostamos em sustentar a diferença, reconhecendo e acolhendo as trajetórias diversas de cada mulher. Sustentar a diferença é recusar a abstração que homogeniza e permitir que cada existência floresça em seus próprios ritmos, sem ser comprimida por um modelo universal de mulher.
Celebrar o 8 de março, portanto, é situá-lo. É reconhecer que, neste território, mulheres negras, indígenas e periféricas sempre produziram luta, pensamento e resistência — mesmo quando não foram reconhecidas como representantes do “universal”.
Que essa data, mais do que sugerir uma universalidade abstrata do que é ser mulher, possa nos convocar e convidar a reconhecer nossas multiplicidades, afirmando, justamente aí, nossas potências.
Vivas as mulheres — todas nós, em nossas múltiplas existências.
Ana Carolina Dias Ramos é Psicóloga com sólida experiência em liderança de projetos sociais, culturais e intersetoriais com foco em justiça social, equidade racial e de gênero. Atuação em articulação institucional, políticas públicas, gestão de equipes e cuidado interseccional. Mestra em Psicologia Social, autora e educadora com produções voltadas à justiça racial e de gênero e marcadores sociais da diferença. Atua no acompanhamento e fortalecimento de organizações de pessoas atingidas por crime socioambiental em processos de reparação, articulando justiça social, direitos humanos e elaboração de projetos comunitários.
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