Diversidade é saúde: Fiocruz cria grupo pela equidade de gênero e raça 

Enviado por / FonteEcoa, por Pâmela Carbonari

Saúde é um conceito amplo para a Fundação Oswaldo Cruz. Presença diária nas manchetes desde o início da pandemia de coronavírus, a Fiocruz é mais que uma fábrica de vacinas, medicamentos, reagentes e kits de diagnóstico. A mais importante instituição científica da América Latina trabalha com pesquisa, ensino, assistência e informação e, justamente por isso, enxerga o respeito à diversidade como parte da definição de saúde. Para que esse preceito seja uma constante em suas diferentes frentes, desde 2009, o Comitê Pró-Equidade de Gênero e Raça desenvolve ações de estímulo à diversidade e enfrentamento aos preconceitos de gênero e raça dentro e fora da Fundação.

Para entender a capilaridade do Comitê, é preciso lembrar que a Fiocruz é muito maior que a sua sede, o Palácio de Manguinhos, no Rio de Janeiro. A Fundação conta com mais de 7.500 funcionários em 21 unidades, sendo 11 no Rio, dez em outros estados e uma em funcionamento em Moçambique. Além disso, por ser vinculada ao Ministério da Saúde, trabalha em conjunto com o Sistema Único de Saúde (SUS) e assim está presente em todo o país.

Diferentemente da grande parte das empresas, que concentram seus esforços pela diversidade na contratação de pessoal, o Comitê Pró-Equidade de Gênero e Raça quer mais que garantir representatividade na oferta de vagas. Focado tanto nos trabalhadores da instituição quanto nos estudantes e nas pessoas que utilizam os serviços de saúde oferecidos pela Fiocruz, o Comitê realiza rodas de conversa, oficinas e campanhas educacionais. Em 2010, a Fundação recebeu o Selo Pró-Equidade de Gênero e Raça do governo federal.

“Desde 2018, temos nos concentrado nas seguintes frentes: fortalecimento da formação e mobilização por práticas antirracistas e pela equidade de gênero e diversidade sexual voltadas à comunidade Fiocruz; colaboração para implementação de ações afirmativas nos concursos públicos e processos seletivos na área da educação na Fiocruz; e construção de uma política institucional pró-equidade de gênero e raça”, afirma a coordenação coletiva do Comitê, formada pela psicóloga Andrea da Luz, pela bióloga Hilda Gomes, pela jornalista Marina Maria e pela assistente social Roseli Rocha.

Elas destacam que uma das ações mais notáveis é o programa Trajetórias Negras, já em sua sexta edição, para valorização dos trabalhadores negros e combate ao racismo institucional. “Recentemente iniciamos também uma formação de prestadores de serviço que atuam no atendimento diário ao público, por práticas respeitosas e acolhedoras aos mais diversos públicos que frequentam a instituição. Essa formação resultou na capacitação de diversos trabalhadores que atuam nas portarias das entradas da Fiocruz”.

O isolamento social necessário no último ano não interrompeu a programação do Comitê.”, inclusive, duas edições do Trajetórias Negras aconteceram de forma remota.

Levar a tradição adiante, e deixar parte dela no passado

Evento da Fiocruz: “Trajetórias Negras”, março de 2018 (Foto: Raquel Portugal (Fiocruz))

Há 120 anos, a Fiocruz é referência em ciência e tecnologia em saúde. Mas essa tradição científica é a mesma que por séculos privilegia homens brancos e exclui mulheres, negros e pessoas LGBTQIA+.

Apesar de o Brasil ser majoritariamente feminino e de 56% da população se autodeclarar negra na última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua do IBGE, a ciência no país não condiz com esse perfil. A maioria dos professores com doutorado dos nossos cursos de pós-graduação são homens brancos — apenas 3% dos docentes com a mesma formação são mulheres negras ou pardas. Entre os alunos, um em cada quatro estudantes de mestrado ou doutorado é negro. É importante lembrar que a disparidade na academia começa antes de qualquer banca de titulação: apenas 10% das mulheres negras completam o ensino superior. A taxa de analfabetismo é outro exemplo do privilégio branco no país: o índice entre os brasileiros pretos ou pardos é de 8,9%, quase três vezes maior que a quantidade de brasileiros brancos que não sabem ler ou escrever.

A ciência também não é um lugar acolhedor para pessoas da comunidade LGBTQ+. Segundo uma pesquisa sobre assédio, exclusão e discriminação no trabalho realizada com 600 cientistas LGBTQIA+ no Reino Unido, quase um terço deles relatou já ter considerado largar a carreira pela opressão do ambiente de trabalho.

Por ser uma instituição centenária e com uma complexa estrutura de milhares de funcionários espalhados por diferentes polos, a Fiocruz reconhece que essas dificuldades se infiltram na instituição e é para combatê-las que o Comitê existe. Para dar conta das grandes temáticas de equidade, mas também dos pequenos preconceitos incrustados no cotidiano, cada núcleo da Fundação faz o seu dever de casa. O gerente do serviço de gestão do trabalho do Instituto Nacional de Controle de Qualidade em Saúde, Sérgio Reis, explica como as parcerias com o Comitê ajudam a pulverizar a discussão dentro da Fundação. “Nós temos um subcomitê, aliado ao Comitê principal, para discutir essas temáticas e desdobrar em outras ações internas. Cada unidade faz dessa forma, respeitando suas particularidades, mas a ideia é a mesma.”. Reis foi um dos homenageados na quarta edição do Trajetórias Negras. “As pessoas estão tendo a oportunidade de serem vistas e valorizadas, e isso é maravilhoso”, diz o servidor.

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