quarta-feira, setembro 22, 2021
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Dizer ‘não’ é um dos maiores exercícios de autocuidado que podemos fazer

Sempre tive muita dificuldade para dizer um “não”. Acredito que haja ligação com o fato de eu ser uma pessoa que está sempre tentando agradar o outro e pertencer ao grupo social. São inúmeros os fatores por detrás desta minha necessidade de agradar, como insegurança, personalidade controladora e a imagem que a sociedade constrói sobre o meu corpo, mas certamente a maturidade tem diminuído o medo constante de não ser agradável aos olhos de quem me define.

Tenho dito alguns orgulhosos e efusivos “nãos”. A cada nova negativa que emito, tenho me parabenizado em voz alta. Parabéns, Cristiane, conseguiu vencer mais uma etapa do processo. Disse um “não” para o colega que acabou de pedir dinheiro emprestado. Disse um não para o companheiro que está abusando da sua cordialidade, para o boy lixo que ligou te procurando de madrugada. Isso mesmo, continue assim que você chega longe.

Ao longo da vida, fui aquela que sempre disse “sim” para tudo e todos. Disse muitos “sins” querendo dizer “nãos”. E todos me colocaram em situações de desconforto, pois eu não estava fazendo o que eu queria fazer, mas o que os outros queriam que eu fizesse. Fui o que esperavam que eu fosse, principalmente, por ser mulher e negra: fui permissiva e sempre solícita.

Não há nada de errado em ser solícita, aliás. O problema está no fato de você se anular para estar sempre disponível aos outros

Ainda mais em uma sociedade como a nossa, em que se espera que mulheres digam “sim” o tempo todo. A maioria de nós foi educada para dizer “sim”, falar baixo e sempre sorrir.

Os “sins” que esperam que a gente diga nos confinam em um lugar subalternizado, onde não há espaço para que priorizemos nossas próprias vontades. Afinal de contas, o universo machista não espera que mulheres tenham vontades próprias

Dizer um “não” para o outro é libertador. Faz parte de um trabalho intenso de autoestima e autorrespeito. É dizer um “sim” a você mesma. Eu te convido a tentar. Crie suas próprias técnicas. Treine de frente ao espelho. Vença o medo de controlar o que o outro vai pensar se você disser não. Repita comigo em voz alta enquanto lê este texto “N, A, O, Til, NÃO”.

Sentiu o quanto é prazeroso? Tente novamente. Respire fundo e deixe que a palavra saia da sua boca desentalando todos os “nãos” que você deixou de dizer ao longo da vida. Liberte-se! Vamos, diga esse “não” que está travado na sua garganta.

Preciso te alertar que algumas destas negativas que você pretende dar a partir de agora podem te gerar algumas repesálias. As pessoas estão acostumadas com alguém que, muitas vezes, é boazinha para tentar esconder sua personalidade insegura e carente. Quem receber seus “nãos” a partir de hoje vai tentar te desestruturar. Vão dizer que, de repente, você virou mandona e facilmente irritável. Vão insinuar que você só pode estar menstruada para estar agindo deste jeito. Vão jogar sujo contigo, numa tentativa de tentar resgatar aquela pessoa permissiva que tanto servia ao outro.

Algumas pessoas vão se afastar. Estas não estão preparadas para acompanhar a jornada de vida de alguém que se valoriza acima de tudo. E você vai agradecer por elas terem ido. Deixe que elas sigam em paz na busca por outros indivíduos para se encostarem. Pessoas melhores virão para dividir os momentos contigo. Uma mulher que diz “sim” para ela mesma não quer guerra com ninguém.

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