segunda-feira, setembro 20, 2021
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Doné Eleonora, ancestralidade e ativismo negro

“Andei céu, terra e mara procurar meu bisavô
Quando saí pra viajar minha mãe chorou
Pois minha família se perdeu na escravidão”

(Olorum, Mateus Aleluia)

“Ventania é senhora, eu sei
E foi lá bem alto que eu vi
Inunda que é da água que faz brotar
Inunda que a água lava

Para que te quero, asas
Se eu tenho ventania dentro?”

(Asas, Luedji Luna)

Em janeiro deste ano, me iniciei no candomblé, no Ilê Àse Omo Oyá Bagan Odê Ibô (Hortolândia/ SP), nas águas de Oxalá. Ao longo de dez dias, pude me conectar com os orixás e com a Doné Eleonora, seu terreiro e filhas e filhos de santo. Eu cheguei em seu terreiro depois de uma longa jornada de buscas, encontros e reencontros. Foi através de uma irmã de santo e filha de Oyá, a Taina Silva Santos, que pude conhecer a Doné e sua família do axé. Não posso deixar de dizer e lembrar, cheguei no terreiro pela dor provocada pelo racismo e discriminação de muitas ordens, mas, por outro lado, a iniciação trouxe a percepção de que meus passos, lutas e conquistas nunca foram por sorte ou privilégios sociais.

A discriminação por origem (nordestina, negra e classe social empobrecida) sempre estiveram presentes em minha vida. Demorei muito para acessar uma formação política com consciência racial radical à altura das discursividades e ideologias da branquitude, porém, foi num sonho, em 17 de dezembro de 2011, o meu primeiro despertar para a espiritualidade junto ao candomblé e aos orixás. Neste sonho, sentada sozinha numa cadeira no centro de ampla sala em arquitetura colonial, no Pelourinho de Salvador, presenciava mulheres e crianças pretas vestidas de branco, que ao dançar entravam pela porta majestosa, com o som de atabaques. Entre aquela imagem totalmente nova para mim, afinal, eu nunca tinha viajado para a Bahia e nunca havia ido num candomblé, acordei e tomei uma decisão para a minha trajetória pessoal, profissional e de militância até aqui: ir atrás dos meus ancestrais.

Nove anos depois, sou iniciada por Doné Eleonora, quem me escolhe para ser a sua filha mais nova. Das dores, fui acolhida e convidada para aprender sobre o seu amor infinito pelos orixás e pela natureza. E de todas as buscas ao longo destes anos, desde 2011, tive a certeza de que a família ampliada – termo pouco compreendido por aqueles que sempre tiveram muitos afetos possíveis – dos movimentos sociais, culturais e terreiros negros passaram a fazer sentido em minhas inquietações e ganharam endereço, entidades e muitos entes queridxs. Em 17 de janeiro de 2021, assumi a responsabilidade de ser a Ekedi de Oyá, a mesma que me levou até a Doné.

A força ancestral

Agora, em meio à realização do episódio que encerrará a primeira temporada da série “O Enigma da Energia Escura”, fui surpreendida por novos sonhos (psíquicos), os mistérios entre Orun-Ayê e a passagem da Doné Eleonora, em decorrência do COVID-19. Quando a convidamos para ser entrevistada, ela disse que esta série mudaria a sua vida. Não deu tempo de mostrar o filme, só que os aprendizados não param. Todo dia o meu pai Oxalá e a presença ancestral da Doné evidenciam: nenhuma tristeza será maior que o meu amor e fé pelos orixás, sob o meu corpo no mundo, autoestima e origem negra.

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Foto: Neon Cunha

Série O Enigma da Energia Escura

Hoje, acontecerá a estreia do último episódio da série (Episódio 05), às 23h30 no canal GNT,que tem como título “Quem não escuta cuidado, escuta coitado – sabedoria ancestral”. O episódio está grandioso e fundamentado pelas seguintes temáticas: meio ambiente, desigualdades nas cidades e a preservação das vidas junto ao conhecimento dos povos originários e de matriz africana no Brasil.

Realizada e produzida pela Lab Fantasma, foi idealizada pelos irmãos Emicida e Evandro Fióti, com a presença principalmente de profissionais negrxs, entre roteiro, pesquisa, direção de fotografia, produção executiva, assistência de direção e a direção geral de Emilio Domingos, Mariana Luiza e esta que aqui escreve.

As pessoas convidadas e entrevistadas para o encerramento da série são Doné Eleonora (sacerdotisa), Potyra Guajajara, José Urutau Guajajara (Aldeia Maracanã) e Gabriela de Matos (arquiteta e pesquisadora), numa composição narrativa pelas arqueologias dos projetos de mundo via expansão e práticas das análises necessárias à continuidade de grupos historicamente excluídos de espaços de decisão política, vulgo, lugares de poder. Além de fazer a direção do episódio 05, tenho um vínculo direto e afetivo, seja pelas temáticas indígenas e da negritude enquanto resistência e afetividades, seja pela oportunidade de entrevistar a Doné Eleonora, minha mais nova força ancestral. Eu sou parte de sua memória e legado.


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Foto João Bertholini

Day Rodrigues é diretora, produtora criativa, escritora e educadora. Fez parte da equipe dx diretorxs da série inédita O Enigma da Energia Escura (Lab Fantasma). Os seus principais documentários independentes são: “Ouro Verde – a roda de samba do Marapé” (2012), “Mulheres Negras – Projetos de Mundo” (2016), “Uma geografia das desigualdades” (2019) e o mais recente, “Geni Guimarães” (2020). Tem graduação em Filosofia e especialização em Gestão Cultural no Sesc SP, estuda Direção Cinematográfica na Escola de Cinema Darcy Ribeiro (RJ).

** ESTE ARTIGO É DE AUTORIA DE COLABORADORES OU ARTICULISTAS DO PORTAL GELEDÉS E NÃO REPRESENTA IDEIAS OU OPINIÕES DO VEÍCULO. PORTAL GELEDÉS OFERECE ESPAÇO PARA VOZES DIVERSAS DA ESFERA PÚBLICA, GARANTINDO ASSIM A PLURALIDADE DO DEBATE NA SOCIEDADE. 

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