terça-feira, fevereiro 7, 2023

Eles não ligam pra gente!

All I wanna say is that
They don’t really care about us
All I wanna say is that
They don’t really care about us”
(Michael Jackson – They Dont Care About Us)

Por Walter Takemoto Do Caros amigos

Salvador se divide entre a cidade alta e a cidade baixa. Mas se divide também entre a orla da cidade e o miolo da cidade. E se preferirmos, podemos dizer que se divide entre os poucos que tudo possuem e os muitos que quase nada possuem. Ou entre alguns poucos brancos privilegiados e os quase todos pobres e quase todos negros.

E no dia 31 de agosto, mesmo dia em que realizamos manifestação em Salvador em defesa da democracia e da liberdade, a Policia Militar da Bahia efetuou uma operação militar que abordou duas mil crianças, adolescentes e jovens que realizavam na Ponta de Humaitá uma festa de rua, ou Fluxo como é chamado na periferia de São Paulo e que acontecem mais de 300 nos finais de semana nas quebradas esquecidas pelo poder público.

“Todos e todas enfileiradas, com as mãos nas cabeças, sob a mira de armas dos policiais conhecidos por quem mora lá na periferia e que são formados para vigiá-los como elementos suspeitos e perigosos”

Todos e todas enfileiradas, com as mãos nas cabeças, sob a mira de armas dos policiais conhecidos por quem mora lá na periferia e que são formados para vigiá-los como elementos suspeitos e perigosos. Enquanto os jovens da classe média vão para clubes, alugam casas ou sítios para fazerem suas festas, os jovens da periferia de Salvador, como de outras capitais e cidades, só possuem as ruas e praças para ligarem seus equipamentos e se divertirem sem gastar o dinheiro que não possuem.

E o que faz o poder público? Manda a policia militar reprimir e deter. Afinal, diversão é para quem paga camisa, consome o que quer o prefeito e seus financiadores, ou para quem tem dinheiro para realizar festas fechadas, onde só entram convidados com nome e sobrenome conhecidos e de famílias importantes.

Para o prefeito ACM Neto, diversão para o pobre é apenas nos espaços e quando permite, na sua cidade privatizada e transformada em negócio familiar. Não será estranho se daqui uns dias operações militares forem realizadas na Barra para proibir que os pobres circulem por lá.

E o governo do estado, atendendo o “clamor popular” manda o efetivo da policia militar fazer o trabalho sujo para o prefeito ACM Neto, para “acabar com o tráfico de drogas, cenas de sexo, baderna e atentados ao pudor” dos pobres e quase todos pretos que se divertiam na Ponta de Humaitá.

Democracia e liberdade não representam apenas o “direito” de votar de dois em dois anos.

O que queremos para os dois mil que estavam lá com as mãos na cabeça e a todos e todas iguais que nada tem,são os mesmos direitos que possuem os poucos jovens que tem tudo na cidade mais negra do país.

Muito se fala da gentrificação em curso no centro histórico de Salvador, apropriado por grupos econômicos e especuladores, com o apoio do prefeito ACM Neto e sua gestão excludente e privatista. Mas nada se compara com o processo de extermínio físico e subjetivo da juventude da periferia, desprovida de direitos elementares como de acesso a escola pública de qualidade, saúde, cultura, lazer, trabalho, moradia e mobilidade. E estou falando dos que não encontram pelo caminho a bala certeira de um artilheiro da policia militar.

E para finalizar volto a transcrever um texto que escrevi anos atrás:

Cortar as cordas camará!

Os negros esticam a corda, que separa quase todos brancos de quase todos negros.
E a corda suspensa no ar serpenteia, como os açoites nas costas dos negros que lutavam para romper as cordas invisíveis da escravidão.
E o trio elétrico com seu som ensurdecedor cala os gritos que rompem o tempo dos negros amarrados logo ali, no pelourinho.
E a corda do capitão do mato que prende o negro escravo é a mesma corda do policial da cidade que prende o negro, que luta para sobreviver, pelo bem ou pelo mal.
E os negros que puxam a corda que separa, nada mais faz que esticar a corda do passado que escraviza.

Cortar a corda camará, amarrar a corda na cinta e jogar camará, dar um nó na corda e esconder a ponta camará!

 

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