Elisa Lucinda: À Semelhança de Deus e das Palavras

04/02/26
Enviado para o Portal Geledés, por Viviane Pistache

A multiartista Elisa Lucinda passou como beija-flor pela 29a. Mostra de Cinema de Tiradentes, na manhã da sexta-feira 30 de janeiro, quando conversou com a imprensa no Teatro Yves Alves e na tarde do dia seguinte, participando de uma roda de conversa sobre sua carreira na Tenda Cine Lounge. Quem estava na Mostra ou qualquer pessoa que assistiu TV aberta no Brasil desde meados dos anos 80, certamente foi impactada pela fulgurante Elisa Lucinda. Pele negra parida sob o sol capixaba e abraçada pela aurora carioca, tem o mar turvo nos olhos e uma voz trovão que eletriza qualquer audiência. 

Filha do advogado e professor de latim, Lino Campos Gomes, que foi um negro visionário, dele Elisa herdou o amor pela língua portuguesa. A intimidade com as palavras que a poeta, escritora, dramaturga, atriz e cantora cultiva, revela-se na dança bonita dos versos em sua língua afiada, que destila reflexões, encantamento e deboche com fartura. 

Já sua voz de trovadora vem desde de sua mãe, Divalda Campos Gomes, que lhe ensinou que bom é cantar. Seu talento com as palavras foi também lapidado pela professora Maria Filina que elevou a declamação à interpretação teatral da poesia. Elisa ouviu do pai que sua beleza e desenvoltura a faria uma grande jornalista e assim cursou Comunicação na Universidade Federal do Espírito Santos. Mas Elisa Lucinda deslocou o eixo da sua história quando decidiu que não queria mais dar a notícia, mas ser a notícia. Ainda nos anos 80 se mudou para o Rio de Janeiro para cursar teatro na prestigiada CAL. Marcou sua estreia arrasando nos recitais cariocas e desde então tem construído uma profícua carreira na literatura, teatro, música, TV e cinema. 

Apesar da força da sua presença, Elisa chegou a ser enquadrada por uma dramaturgia eurocêntrica que ainda desidrata talentos de pessoas negras. Sua primeira aparição na TV Globo foi figurar como uma empregada muda num episódio de Caso Verdade em 1984. Felizmente Elisa teve tempo de viver o fruto de sua luta e a de uma classe artística negra que abriu caminho, arrancando espinhos à unha. Sobreviveu à sina de muitos talentos que sucumbiram face a uma condição de empregabilidade desumana. Mas Elisa não escapou ilesa de uma cena histórica comum: elenco negro sem nenhuma chance quando renomados diretores brasileiros estavam montando gigantes da dramaturgia ocidental como William Shakespeare, Henrik Ibsen, Bertolt Brecht, Jean Genet, ou até mesmo Nelson Rodrigues. No Brasil de Grande Otelo, foi preciso que Peter Brook lembrasse que negros poderiam encenar Shakespeare. 

O reconhecimento da existência de talentos negros tem sido catalisada pelas políticas públicas que aportou no horizonte brasileiro uma safra incontornável de mão de obra negra flagrantemente qualificada, constrangendo uma branquitude em sua eterna síndrome de protagonismo. 

Recentemente Elisa Lucinda tem apresentado como um de seus cartões de visita a personagem Marlene da novela Vai na Fé exibida em 2023. Matriarca do núcleo negro protagonista, Marlene é a face de milhares de mulheres negras, chefes de família e evangélicas que são maioria demográfica nesse país. Mesmo dona de uma coleção de personagens memoráveis, de já ter sido premiada em Gramado mais de uma vez, tendo escrito seu nome do panteão da literatura com dezenas  de livros ou ainda de ter ficado em cartaz por mais de vinte anos com a peça Parem de Reclamar da Rotina,  na coletiva de imprensa realizada na 29a. Mostra de Cinema de Tiradentes, Elisa a esta altura ainda desabafa: 

“Estou cansada, cansada do racismo. Estou de saco cheio. Estou muito impaciente com o branco, sabe? Agora estou dando os limites. Que eu acho que tardou, mas agora a gente está com mais segurança porque não estamos falando sozinhos.” 

Ao longo de sua vida e obra, Elisa Lucinda testemunhou modulações do racismo à brasileira até chegar numa crueldade nova: 

A branquitude, ainda quer moleza. Elisa, não deixa eu errar, me ensina. Vou estar ensinando para brancos também? Não. Porque tem um letramento que todo mundo tem que correr atrás. Eu tenho que me defender das armadilhas, das gaias, que, ainda assim, eu chego em uma loja, a moça me pergunta, se não tem onde é, quanto é aquela roupa. Entende? Então, o jogo é pesado. Ainda tem que ensinar a opressora a não me oprimir. É muito serviço. Dito isso, eu acho que a branquitude que está assustada é porque mexeu no narciso.Entende? Tipo: Eu era um fodão superior, não posso ser racista, isso não pega bem. Então, ninguém quer pagar de racista.

Mas Elisa é filha de Divalda, mulher negra que apresentou a yoga à sociedade capixaba. Elisa é também amiga de Antônio Pitanga, o mestre da capoeira mental, da ginga como metodologia de sobrevivência numa sociedade tão racista quanto a brasileira. Assim, Elisa tem logrado êxito em envelhecer bem, completando 68 anos agora no dia dois de fevereiro, dia de Iemanjá.  Mas nesse assunto aí, eu acho que é isso. Nós somos mais, nós nesse tempo, somos os mais jovens  velhos do mundo. Nunca houve velhos como a gente com uma boa vida de saúde. 

Vivendo o candomblé mais como filosofia de vida do que como prática religiosa, Elisa acredita nesse encontro de cosmogonia e fé como referência ética de vida para um bem viver coletivo, de respeito e culto à natureza, com um resgate ancestral que o audiovisual precisa acompanhar. Uma de suas falas na coletiva de imprensa vem bem a calhar: “Se o mar não for Deus, eu não sei o que é Deus”. Não por acaso Elisa já foi Deus no cinema, um Deus de Carnaval, num plano sequência de take único. Na voz e na pele de Elisa, Deus tem muitas faces, como nos versos de Ex-Voto da Adélia Prado que Elisa nos emocionou na coletiva: 

Me imploram amor Deus e o mundo,

sou pois mais rica que os dois,

só eu posso dizer à pedra:

és bela até à aflição;

o mesmo que dizer a Ele:

sois belo, belo, sois belo!

Quase entendo a razão da minha falta de ar.

Ao escolher palavras com que narrar minha angústia,

eu já respiro melhor.

A uns Deus os quer doentes,

a outros quer escrevendo.


Viviane Pistache é preta, mineira, pesquisadora, roteirista, curadora e, de vez em sempre, crítica de cinema.

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